Proibição de sacrifícios de animais em cultos religiosos de matriz africana: veganismo interseccional e veganismo abolicionista

O movimento vegano está em conflito, de um lado uma questão motivada por racismo é colocada em pauta fazendo uma proibição institucional, do outro legitima-se o especismo religioso que até então sempre foi liberado.

Muitas pessoas dizem que ser contra o sacrifício de animais em religiões de matriz africana é fruto do racismo estrutural, já outros afirmam que independente de qualquer fé é necessário preservar os direitos dos mais vulneráveis. Dentro do meio vegano, as diferentes correntes do movimento tem debatido a questão, neste texto pretendo abordar ambas as visões.

A crítica interseccional

Sabrina Fernandes, famosa pelo seu canal no YouTube Tese Onze, em seu vídeo “Como cooptaram o veganismo?“, levanta uma crítica ao racismo de políticos que querem acabar com os sacrifícios de animais em religiões negras por motivações discriminatórias, mas também dá a entender que veganos que se colocam contra o estes mesmos sacrifícios também o fazem por serem racistas. Em sua declaração ela diz:

“A gente tem visto muita coisa acontecendo, por exemplo, para entrar numa polêmica que ela é importante a gente debater isso, a questão de uso de animais em rituais em religiões de matriz africana, enquanto isso animais são usados em rituais de várias outras religiões, natal, páscoa, assim por diante, ninguém fala nada, inclusive tem, assim, agropecuarista que ganha muito com esses rituais como o natal se juntando para falar “não, vamos banir nesse caso específico” porque ele sim tem intenções racistas e aí se junta, e aí esse é o perigo dos veganos, do movimento vegano, que não está fazendo o debate sobre emancipação animal, de animais humanos e não-humanos, os dois juntos, para falar “ah não olha, pode ser que há um interesse político, prestaram atenção na gente só nessa pasta específica porque há interesses racistas por traz disso mas não estão prestando a atenção na gente quando a gente tá falando da PL31 (contra o fim da exportação de animais em vias marítimas), por exemplo, porque aí isso sim afeta bastante o bolso deles.”

Complementando e reforçando a afirmação, a convidada Sandra Guimarães fala:

“Isso é muito triste, de ver esse racismo sendo reproduzido dentro do movimento vegano, mais um perigo de como se posicionar como político, como anti-racista, que você tá sendo instrumentalizado por esse políticos que você mencionou para atingir um objetivo extremamente racista, que é penalizar a população negra que já é marginalizada, que já sofre por pressão, enquanto, como você falou, qual a diferença do peru de natal, que não é um sacrifício religioso, então porque é religioso cristão então não é, né? Mas é a mesma coisa.

A crítica de ambas traz um debate importante sobre a intolerância e a supressão religiosa. Os políticos não-veganos que incentivam o fim dos rituais que matam animais nestes ritos de matriz africana, parecem de fato agir por imposição religiosa, o que não é o caso dos veganos, como ambas argumentam.

De fato a lei precisa ser geral e abrangente cobrindo todo tipo de sacrifício animal em nome de religião ou crença transcedental, para não correr o risco de falta de neutralidade. A proibição por lei apenas de sacrifícios apenas em cultos de matriz africana de fato poderia implicar em consequências negativas para as religiões de povos oprimidos, por outro lado é possível sugerir que os ritos tenham mudanças para preservar os animais.

A crítica é válida se alguém é exclusivamente contra o sacrifício de animais em religiões de matriz africana, mas não de outras religiões, isto é, é bastante provável que essa pessoa seja religiosamente intolerante e/ou racista nesta questão, e é claro, que isto pode incluir alguns veganos e defensores dos animais, fato é que veganos não podem apenas criticar abates religiosos de matriz africana mas serem favoráveis a rituais religiosos islâmicos ou cristãos para matar animais, e vice-versa.

Porque veganos criticam os sacrifícios?

O vegano é, por definição, contra todo tipo de exploração animal: contra os abates de religiões de matrizes africanas, mas também contra os abates por carne halal do judaísmo ou pelo peru no natal do cristianismo. Criticar ambos faz parte da visão filosófica, política e ideológica da defesa dos animais.

Portanto, a  posição do veganismo sobre o uso de animais em rituais religiosos, seja qual for a religião, é clara, se opor ao fim destes sacrifícios é especismo. As alegações de que qualquer um que se oponha à algumas práticas dentro de uma religião negra é racista, reforça o discurso adotado por parte do movimento negro que afirma que o veganismo é um movimento racista e elitista. Tal argumento apresenta uma ideia de que qualquer pessoa que critica o sacrifício de animais em religiões de grupos historicamente oprimidos é racista por desconhecer tais sacrifícios.

A preservação do direito de matar animais independente da motivação deve ser criticada por veganos, pois ele é um movimento contra a exploração animal. Por isso veganos abolicionistas não-interseccionais não definem como preconceito ou racismo ou a condenação de pratica de sacrifício de animais, pois a vida não veem motivo cultural ou religioso que justifique a exploração animal, e como consequência recriminam a posição do veganismo interseccional que acaba procurando acabar com conflitos humanos e coloca os animais em segundo plano.

A fé usada para justificar a morte

Questionar a fé das pessoas quando estas levam ao sofrimento de outros seres não é um ato de intolerância. A fé não deve usada de justificativa para oprimir, seja ela cristã, judaica ou africana. Por muito tempo cristãos se utilizaram da Bíblia para escravizar os negros, oprimir as mulheres e os homossexuais, de forma semelhante a sacralização deste rito das religiões de origem negra é usada para matar os animais.

Emancipar os negros para depois emancipar os animais é uma contradição prática da interseccionalidade, pois visa combater as opressões e ao mesmo tempo dá relevância maior à uma causa. É preciso combater ambas opressões ao mesmo tempo, e não colocar os animais para depois, eles são mais vulneráveis.

A falha da interseccionalidade

É preciso salientar que, a morte de animais quando não configurada como auto-defesa ou por mera sobrevivência, é condenada por qualquer vegano, seja ela em qualquer rito ou costume.

É muito comum ser acusado de racismo quando se opõe aos ritos de uma religião que historicamente sofre com o racismo. Muitas vezes este racismo é legítimo, pois vem disfarçado de crítica mas com a intenção de tornar a religião ainda mais marginalizada. Porém nem sempre é verdadeiro, há pessoas que de fato se opõe à ritos questionáveis, que envolvem violência e sofrimento.

O sacrifício de animais é uma dessas práticas. O cristianismo o faz em nome da comunhão e religiões de matriz africana também, como oferenda à suas entidades. Mas acontece que de forma politizada, a crítica a segunda é blindada pelos defensores das minorias humanas, colocando-as acima dos animais que são mortos.

Infere-se que os veganos e vegetarianos se opõe ao sacrifício nas religiões africanas por racismo, enquanto não reagem com a mesma intensidade contra as mortes de animais cometidos pelos cristãos em nome da religião. Isso não é verdadeiro porque, o veganismo – e por consequencia os veganos – se opõe a toda forma de exploração animal, independente de religião. Logo, criticar os sacrifícios seja quais for em qualquer religião deve ser visto como uma questão da própria defesa dos animais. Por outro lado, podem haver veganos racistas, mas não é possível concluir isto a partir da crítica das religiões de matriz negra.

A mesma lógica de defesa das minorias humanas se aplicou na defesa da vaquejada, tradição nordestina. Pessoas progressistas disseram que proibir a prática é fruto da xenofobia, quando na verdade é a defesa da saúde dos animais.

O discurso progressista nestes casos é autoritário pois sacraliza culturas ao invés de criticá-las ponderadamente para ajudar os animais sem desmerecer a religião em si. É preciso separar um ponto específico da religião de toda ela, mas em nome do relativismo cultural os animais continuam saindo por baixo.

As culturas não devem ser usadas para justificar sofrimento desnecessário e a lógica não deve ser instrumentalizada a favor das políticas de defesa de opressão feitas pelas minorias. Os animais também sofrem e colocá-los em segundo plano não melhorará a condição dos humanos. É possível se opor ao racismo e ao preconceito contra as religiões negras e também se opor a uma prática especifica que também suscita a violação de outros seres que sofrem e desejam viver.

A interseccionalidade também acusa aqueles que criticam os movimentos sociais oprimidos que oprimem, de opressores por criticarem suas tradições. Mas isso não deve ser assegurado se alguém defende a liberdade para todos os grupos. Se alguém oprimido exibe um comportamento de opressão isso deve ser criticado, e é isto que o veganismo faz. Se mulheres são contra o machismo mas são a favor da homofobia elas devem ser criticadas por ajudarem na opressão dos gays. Se gays são contra a homofobia, mas são racistas, eles devem ser criticados por serem racistas. Se negros são contra o racismo, mas a favor do especismo, eles devem ser criticados por conta do especismo.

Religiões, sejam elas quais for, não podem ser definidoras de direito, ainda mais num Estado que tem em sua constituição a máxima do laicismo. O interseccionalismo pode criar uma blindagem aos grupos oprimidos que impossibilita esta crítica, ou que a deixa para depois quando a opressão for superada, enquanto isso podem continuar a ser mortos, algo que não deveria fazer sentido para qualquer vegano.

A interseccionalidade implica em problemas de aplicação entre grupos oprimidos, por exemplo, se uma mulher feminista – que é a favor da igualdade entre os sexos -, critica um muçulmano que é a favor da submissão da mulher, ela poderá ser acusada de ser ismalofóbica. O mesmo acontece com o veganismo, o anti-especismo declarado no movimento é convertido em racismo quando ataca algum ponto das tradições negras.

Todos – privilegiados ou não privilegiados – que ousem críticar ou gerar algum conflito com um movimento identitário, pode ser descrito como inimigo deste movimento, o que, como vimos, não é o caso do veganismo.

Se você não concordar com a aplicação prática da interseccionalidade, não se preocupe, você não é necessariamente um alienado burguês e ainda pode ser contra todas as opressões e buscar isso de outras maneiras: basta ser a favor e promover valores universais – igualdade, diversidade, liberdade, isonomia, contra o sofrimento, etc – prezando pelos direitos humanos e pelos direitos animais e aplicar isso.

O especismo interseccional

Embora a interseccionalidade pretenda unir diferentes causas e tratar todas as opressões para superá-las, ela acaba por entrar em conflitos quase que irrevogáveis, tendo uma só resolução e colocando um dos grupos em segundo plano. Estes conflitos quando são de causa humana versus causa animal, acabam por prevalecer as causas humanas porque a maioria das pessoas, veganas ou não, acreditam que  que causar sofrimento à outros humanos é um problema mais crítico e importante, e portanto, que deve ser resolvido primeiro. Isso é declaradamente uma expressão do especismo, porque, em conflitos entre humanos as pessoas fazem de tudo para não escolherem um lado.

Mas como não é racismo mas é especismo? Vejamos, no caso das pessoas que defendem o direito à crença e expressão dos islâmicos, quando ela entra em conflito com os direitos LGBT+, tendem a dizer que são contra ambas discriminações, não se auto-acusando de islamofóbicas. Admitem aí que é possível combater ambos preconceitos discriminatórios. Já os veganos quando dizem que defendem à liberdade de crença e expressão das religiões de origem africana, mas que discordam do sacrifício – por violar os interesses dos animais – são acusados de racismo.

Não há porque esperar até que os problemas humanos sejam resolvidos para depois reduzirmos a violência e o sofrimento que causamos a outros seres sencientes. Não estamos falando aqui sobre questões fundamentais de sobrevivência humana e sim de práticas que podem ser evitadas, mas que são protegidas por dogmas religiosos “invioláveis” ou um “direito sagrado”, como uma vez disse o político Eduardo Suplicy, e não pela defesa dos animais.

Em ambos os casos intersecções devem priorizar os direitos fundamentais dos oprimidos e não os interesses supérfluos daqueles que oprimem, então assim como os direitos LGBT devem se sobrepor as crenças religiosas que os negam, os Direitos Animais devem se sobrepor as crenças religiosas que os negam. O oprimido não deve ter direito a oprimir alguém ainda mais vulnerável.

Os erros do argumento

A filosofia do veganismo se opõe à qualquer tipo de exploração animal, não sendo para atacar apenas alguma religião ou cultura, se opondo portanto, pelo antropocentrismo moral e especismo presente em todas elas. Dizer que veganos são racistas por se colocarem contra uma prática de exploração animal por outras motivações incorre em várias falácias lógicas.

Neste caso caímos também em duas falácias de falsa dicotomia:

  • Ou concorda com o movimento negro e que a interseccionalidade dos movimentos ou se é racista.
  • Primeiro libertamos o povo negro, depois os animais.

E também a uma falácia de derrapagem:

  • Se formos contra os sacrifícios de animais em religiões de origem africana, iremos também contra a tradição religiosa em si, o que enfraquecerá o movimento negro que já é oprimido.

E também uma falácia de generalização precipitada:

  • Se um vegano ataca uma prática de não-veganos oprimidos, ele está ao lado daqueles que os fazem para oprimir, logo são também opressores.
  • Se o veganismo ataca práticas de exploração animal das minorias ele é um veganismo despolitizado pois ajuda a oprimir humanos.

A falha da interseccionalidade

O interseccionalismo não é ruim pois têm a intenção de superar todos conflitos fazendo ligações entre causas nos espaços ativistas. As veganas acabam por levar o veganismo aos espaços feministas, mostrando a semelhança entre as opressões e que podemos e devemos combater ambas, no entanto, nem sempre é bem aceita a visão de que feministas devem ser vegetarianas.

O problema para o veganismo é quando os veganos começam a fazer apelos identitários de outros movimentos em nome da interseccionalidade. Naturalmente em quase todos os conflitos os animais já são deixados por último, que benefício reforçar isso trará ao veganismo?

Os teóricos do veganismo sempre demonstraram em suas obras que todas as opressões devem ser combatidas, apesar de uma teoria de combate à todas desigualdades injustas, eles não são interseccionalistas da identidade.

O direito dos oprimidos de oprimir

É inegável que há um histórico de discriminação e preconceito contra o povo negro, o mundo eurocêntrico sempre valorou mais os povos brancos. Por outro lado os animais também tem um histórico discriminação e estão em uma condição ainda mais vulnerável que as explorações humanas: eles são mortos anualmente aos bilhões para o consumo humano. A justiça deve fornecer proteção à todos aqueles que são mais vulneráveis, mas em caso de conflito o veganismo deve preservar os animais que é sua pauta principal, não colocar o direito à crença sobre os direitos fundamentais dos animais. Os ritos de todas as religiões podem ser mudados para preservar os animais, o direito à crença não deve ser sobreposto sobre o direito fundamental à vida e ao bom viver.

Vale lembrar que o objetivo do veganismo é o fim de todo tipo de exploração animal e não de uma específica, portanto, é necessário se opor à todo sacrifício independente da religião pois os animais não são meios, e sim fins em si mesmos.

Os povos oprimidos também cometem opressões, ou tem práticas que violam interesses de outros indivíduos. Estas coisas devem ser repudiadas, independente do prisma ou corrente que queremos proteger.

Todo sacrifício de animal é cruel

Na natureza os animais matam uns aos outros para sobreviver, o que não é o caso de boa parte dos humanos. Atualmente sabe-se que não é necessário matar animais para sobrevivermos, muito menos em nome de entretenimento, moda ou religião.

Ainda estamos longe de leis que protejam de verdade os interesses fundamentais dos animais, o que se aplica é a proteção de uma morte menos dolorosa para os animais, aos olhos da lei todos animais deveriam com métodos com o mínimo de dor, o que não se aplica nos casos de sacrifícios animais para carne kosher, no abate de religiões de matriz africana ou mesmo em mortes em fazendas sem processos automatizados. Na esfera prática, a degola sem método anestésico é bastante cruel e doloroso para o animal, ou seja, pensando de forma ideal para preservar os vulneráveis, deveria ser considerado maus-tratos independente de quem o faz, seja o animal morto para celebrar o natal, para carne halal ou para religiões de matrizes africanas.

Indo além, outro ponto importante é que defensores dos cultos com sacrifícios alegam que os animais são mortos sem dor, mas anterior à isto devemos lembrar que os animais desejam não morrer e que, portanto, não há maneira não cruel de tirar a vida deles.

 

 

 

Anúncios