A pior opressão de todas: a exploração animal

Faz sentido alguém que está em uma situação de desigualdade focar sua luta para resolver isto, essa pessoa pode vir a afirmar que ela sofre, e pessoas que estão na mesma condição dela, e que não há opressão nenhuma maior que essa. É claro que para essa pessoas os maiores problemas são os dela, ela vive isso, é horrível, massacrante, uma dor imensa. É por este motivo que alguns acreditam que o capitalismo é aquilo que deve ser combatido, outros a cultura de hierarquização social e moral, outros a exploração animal (algo que demanda um maior círculo de compaixão). As pessoas tem uma tendência a defender aquilo que está mais lhe afetando, ou que simplesmente acha mais importante combater, mas problemas sociais não são apenas sobre um indivíduo e sim sobre a relação entre todos eles.

É comum vermos as pessoas falando por aí que aqueles que defendem animais deveriam estar usando seu tempo para defender humanos, numa dicotomia falsa, sem pensar que podemos fazer os dois. Essa mentalidade de pensamento (ou víes) de soma zero sugere que se você protestar contra uma injustiça, isso significa que você acaba a privilegiando em detrimento de outra injustiça, o que não é verdade. Nós simplesmente podemos deixar de maltratar animais enquanto lutamos por humanos e vice-versa.

Individualmente podemos mudar nossos hábitos para abrir mão de toda violência, dor e sofrimento. Podemos lutar pelas causas que nos interessam sem fazer mal aos outros, assim devemos tratar interesses semelhantes de forma semelhantes. É fato que o animal que chega no mesa, na roupa ou na pele alguém, teve seus interesses fundamentais violados, quando se pode evitar essa situação e não fazemos isso sim é uma imposição e hierarquização.

Assim como os outros grupos criticam as pessoas por as oprimirem, os veganos criticam quem explora animais por oprimi-los, mas isto acaba sendo levado como uma imposição, o que não é verdade, afinal nenhum vegano entra na casa das pessoas e as obriga a parar. Quando é afirmado que os animais estão numa condição pior muitos daqueles que são oprimidos, mas têm condições de não oprimir, acabam se ofendendo, numa espécie de conservadorismo e auto-defesa. Quando é apontada a dor e a crueldade com os animais as pessoas tomam as dores, falam para não fazermos hierarquização de problemas sociais, no entanto isto é um apelo subjetivo e a realidade é bastante objetiva, a realidade é que os animais estão sistematicamente em piores condições.

Eu particularmente atesto que os animais sofrem mais – apontarei as razões para isso a seguir -, mas não sou a favor das opressões contra os humanos (com exceção da auto-defesa). Quando digo que a exploração é a pior de todas isto é a exibição da realidade, não um argumento para só lutarmos pelos animais. Os animais numericamente são os seres que mais sofrem neste mundo e que são menos protegidos enquanto seres que sofrem e que desejam viver bem e livres.

Quantitativamente e qualitativamente os animais estão em piores condições: quantitativo porque há em números muito mais vítimas da exploração animal que da exploração humana e qualitativo porque há permissividade generalizada para tal – com raríssimas exceções -, os animais não têm seus interesses respeitados e seus direitos estabelecidos socialmente.

Em números mínimos explora-se 140 bilhões de animais por ano, enquanto no planeta existem apenas 7 bilhões de pessoas, nem todas sendo oprimidas. Por ano, de forma não-cumulativa – o que pioria em muito a situação – o número de vítimas da exploração humana não chega 0,05% – talvez nem a 0,01% – em detrimento à exploração de animais não-humanos. Se fosse equiparado o número de vítimas animais a humanidade se extinguiria em menos de um dia.

Existem regras que proibem que humanos sejam machucados, mortos, torturados, violados em praticamente todo mundo porém, em poucos lugares se proíbe ou se ataca efetivamente que animais não-humanos sejam vítimas de crueldade ou que possam servir aos interesses de humanos, além de existir uma cadeia de produção endossada socialmente para explorá-los e matá-los, assim o sofrimento animal e a vida dos animais são largamente negligenciados.

De fato, individualmente, um animal não-humano oprimido não está numa condição pior nem melhor que um humano oprimido: há humanos sendo explorados, mutilados, mortos assim como há humanos sendo explorados, mutilados, mortos. Mas a questão não é o que achamos sobre o mundo e sim a realidade que se apresenta nele, portanto, em questão de abrangência de exploração e de sistema opressivo, a exploração animal é a maior de todas e a mais difícil de ser combatida.

Discursivamente o subjetivo pode ser sobrepor ao objetivo, ferramenta bastante utilizada no movimento pós-construtivista e pós-moderno, mas a realidade não é mero discurso. Dor é dor, porém em números, podemos saber qual ideologia e sistema de exploração e opressão causa mais vítimas.

Individualmente não, mas sistematicamente, de forma quantitativa e qualitativa, a exploração animal, é esmagadoramente maior que toda a exploração humana.


Texto de autoria do ativista e designer Julio Cesar Prava, inédito na vegpedia.

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