A partir de 1º de janeiro, o hipismo terá uma reformulação significativa em sua controversa “regra do sangue”, que atualmente desqualifica automaticamente qualquer cavaleiro cujo animal apresente sangramento durante competições. A mudança vem após um incidente emblemático nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, quando o brasileiro Pedro Veniss foi eliminado junto com toda a equipe olímpica do país após seu cavalo, Nimrod de Muze, apresentar um arranhão no flanco durante inspeção sanitária de rotina, mesmo após completar um percurso impecável em Versalhes.
A nova regulamentação da FEI (Federação Equestre Internacional) substitui a desqualificação imediata por um sistema que concede aos comissários poder discricionário para avaliar cada caso, incluindo advertências tipo cartão amarelo e suspensões para reincidentes. A federação afirma que a decisão, tomada após consultas com atletas, federações nacionais e especialistas, busca o melhor interesse dos cavalos e o aprimoramento do esporte. Contudo, a medida dividiu radicalmente a comunidade equestre: enquanto mais de 100 mil pessoas assinaram uma petição contra a mudança, importantes atletas defendem que a regra anterior era excessivamente rígida ao equiparar pequenos acidentes a casos graves de maus-tratos.
A controvérsia expõe uma tensão profunda sobre a exploração animal nos esportes equestres. Críticos como Claudia Sanders, editora da revista Dressur-Studien, argumentam que qualquer flexibilização representa um retrocesso perigoso na proteção dos cavalos, que não podem defender-se sozinhos e dependem inteiramente da responsabilidade humana. Para esses opositores, o esporte já enfrenta crescente desaprovação pública quanto ao uso de animais para entretenimento, e afrouxar as regras em um momento marcado por escândalos — como a suspensão da britânica Charlotte Dujardin após ser filmada chicoteando repetidamente um cavalo — apenas agrava a percepção de que interesses comerciais e pressões de figuras influentes prevalecem sobre o bem-estar animal.
Defensores da mudança, como o medalhista olímpico Rodrigo Pessoa, que também foi prejudicado pela eliminação brasileira em Paris, consideram a nova regra mais justa e proporcional. Pessoa argumenta que quatro anos de trabalho e dedicação não deveriam ser perdidos por um arranhão acidental, e que permitir discricionariedade aos oficiais para distinguir entre ferimentos incidentais e aqueles causados por uso excessivo de esporas ou freios não equivale a permitir crueldade. Segundo ele, pessoas que acreditam que a mudança visa permitir maus-tratos aos cavalos simplesmente não compreendem a realidade do esporte e como essas lesões acidentais ocorrem durante as competições.
As novas regras trazem também aspectos mais rigorosos que alguns consideram ignorados no debate público. Cavaleiros reincidentes agora enfrentarão suspensão, não apenas eliminação de uma bateria específica, e cavalos lesionados precisarão de liberação veterinária antes de competir novamente — exigência que não existia anteriormente. Eleonora Moroni Ottaviani, diretora do International Jumping Riders Club, defende que o novo sistema equilibra melhor a resposta a acidentes genuínos com punições severas para abusadores deliberados. Dados da FEI mostram que, de aproximadamente 340 mil baterias nos últimos 12 meses até outubro, houve apenas 101 eliminações por sangramento (menos de 3%), com apenas quatro cavaleiros eliminados mais de uma vez.
O embate reflete questões mais amplas sobre o futuro dos esportes equestres em uma sociedade cada vez mais sensível ao uso de animais. Andrew McLean, consultor oficial de bem-estar equino da FEI, chamou a mudança de “bizarra e estúpida”, afirmando que a federação contrariou as recomendações de seu próprio grupo de defesa animal. A tensão entre preservar a tradição equestre e atender às crescentes demandas por práticas éticas permanece no centro do debate, enquanto o esporte busca equilibrar a competitividade de alto nível com a responsabilidade moral pelos animais que tornam essas competições possíveis.





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