Veganos podem consumir produtos “veganos” de grandes empresas que exploram animais?

O tema sobre produtos “veganos” (vegetarianos-estritos) de grandes empresas, que são símbolos na exploração de animais, levanta um debate intenso entre diferentes correntes de pensamento dentro do movimento vegano. Tal divergência aparece de forma recorrente na comunidade vegana brasileira.

Essa polarização entre visões reformistas e revolucionárias gera uma tensão dentro da comunidade vegana, mas também levanta questões importantes: até que ponto é possível ser completamente vegano dentro de um sistema capitalista? Devemos boicotar todas as empresas que exploram animais, mesmo que isso signifique reduzir significativamente as opções de consumo vegano? Ou podemos usar o mercado como ferramenta para promover mudanças, ainda que de forma limitada e gradual?

Na questão produto vs empresa, a discussão coloca em lados opostos duas correntes de pensamento que, apesar de compartilharem o objetivo comum de reduzir a exploração animal, divergem nas estratégias para alcançar essa meta.

De um lado, geralmente temos os adeptos do veganismo popular (relacionado à ideia de poder popular e ligado à visões anticapitalistas como o socialismo e o marxismo), que defende que o consumo de produtos veganos de grandes corporações não-veganas seriam uma forma de veganwashing (usar a palavra veganismo, desprovida do valor que carrega apenas para se beneficiar) e de fortalecimento da exploração animal.

Essa prática que de consumo de grandes empresas, na visão deles, enfraquece a causa, pois, embora os produtos sejam de base vegetal, o lucro dessas empresas ainda financia atividades exploratórias e insustentáveis, perpetuando o sistema que precisa ser combatido. Para eles, essas empresas, por são símbolos e grandes forças do capitalismo e ajudam a manter a comoditização e a exploração dos animais e dos humanos.

Do outro lado há aqueles com uma visão mais liberal, que dizem que veganos podem consumir produtos sem exploração animal de grandes empresas que exploram animais, não traçando linha que depende do tamanho da empresa. Afirmar isso parece contraditório, mas não é, e há uma razão por trás disso.

Essa visão afirma que o mercado tem uma forte tendência de se adaptar as demandas, assim, apoiar produtos veganos dessas grandes empresas seria uma maneira de aumentar a oferta de opções veganas, pois pressionaria o mercado a oferecer mais opções livres de exploração animal, facilitando o acesso e a disseminação do veganismo. Isso mostra que mesmo que essas grandes empresas façam veganwashing, isso poderia ser benéfico para os animais.

Em resumo, a ideia é que, quanto mais pessoas consumirem produtos à base de plantas e sem exploração animal (sejam eles de pequenas ou grandes empresas), mais o mercado responderá a essa demanda, potencialmente reduzindo a exploração animal no geral.

Esse impasse sobre nomear e consumir produtos vegetais de produtos de grandes empresas que exploram animais, portanto, reflete uma divergência fundamental entre visões reformistas e revolucionárias e qualquer posição que assumamos será controversa, isso porque há pontos válidos nas duas posições. Então como devemos nos decidir? Precisamos de pesquisa.

Por exemplo, se no futuro existirem evidências robustas que consumir produtos à base de vegetais de grandes mercados exploradores prejudicaria o veganismo, os veganos deveriam deixar de fazê-lo. Talvez também precisariam consumir produtos e serviços exclusivamente de empresas e produtores veganos, isso porque destinar todos os recursos para veganos, também financiaria a exploração animal, mesmo que um pequeno grau, o que seria mais coerente com a filosofia de evitar a exploração animal em todas as suas formas.

No entanto, atualmente, traçar essa linha com alta exigência política, é questionável, e serve apenas para quem acredita fortemente em uma sociedade anticapitalista. Ainda que assumir a visão anticapitalista no veganismo seja plausível, tais práticas podem ser ditas inviáveis no contexto atual, onde a maioria das pessoas vive dentro de uma lógica de mercado e as implicações seriam conquistar menos adeptos na luta contra a exploração, dada a falta de comodidade para mudar.

Até que surja um grande corpo de evidências que apontem para uma resposta mais adequada de qual vertente devemos seguir (aquela que seria melhor para alcançarmos uma sociedade vegana), a decisão fica à escolha de cada indivíduo. Assim, alguns podem preferir boicotar grandes corporações, enquanto outros vão ver valor em utilizar o poder do mercado para expandir o alcance do veganismo, mesmo que temporariamente dentro de um sistema imperfeito.

Em última instância, o debate está em aberto e aponta para a complexidade do veganismo no mundo atual, cada lado tendo seus méritos. A escolha dependerá da prioridade de cada um: apoiar empresas veganas menores e mais éticas, ou utilizar o mercado para ampliar o alcance do veganismo, mesmo que isso signifique consumir de grandes corporações.

Como não há resposta definitiva, precisamos entender que, independente da decisão, os veganos que escolhem ambas as estratégias são veganos, todos estão buscando o mesmo objetivo, uma sociedade sem exploração animal, e se esforçam para atingi-lo. Claro, precisamos estar alertas para direcionar nossos esforços para determinada estratégia à medida que a resposta estiver mais clara, com base em mais evidências, e não apenas no reino da ideologia.

Tentando dar uma sugestão razoável entre as duas posições: veganos podem consumir produtos “veganos” de empresas que exploram animais, mas se houver uma opção com qualidade e acessível de empresas veganas, é recomendado que se consuma ela, pois é maior a probabilidade dos recursos não caírem na exploração-animal. Fortaleçamos sempre as pessoas e empresas veganas, ou as que estão mais distantes da exploração animal, se nos deixa mais tranquilos.


Texto original publicado pelo ativista Julio Cesar Prava em setembro de 2024.