A parte mais saudável das dietas veganas

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Você já ouviu alguém dizer que dietas ‘veganas’ (sem produtos de origem animal) podem ser prejudiciais à saúde? Porém, essa é uma ideia equivocada. A ciência revela que qualquer pessoa pode ter uma dieta saudável desse tipo, desde que equilibrada.

Essa não é apenas uma questão de opinião. Diversas instituições respeitadas, nacionais e internacionais, de saúde e nutrição respaldam essa afirmação com evidências científicas sólidas. Guias de diretrizes alimentares de grandes países, incluindo o Brasil, endossam dietas sem produtos animais como seguras. Ainda que no senso comum persista a ideia de que veganos são menos saudáveis, a questão de que dietas veganas são seguras está cientificamente consolidada.

Embora a saúde dos veganos seja um ponto recorrente, ela não é o núcleo da discussão. Quando debatemos escolhas de consumo alimentares, é essencial considerar todas as partes afetadas, incluindo os animais, que são as verdadeiras vítimas. A discussão poucas vezes é centrada no bem dos animais, ou seja, mesmo entre os defensores dos animais o especismo é raramente discutido ou percebido.

O mesmo ocorre quando é falado de saúde, o foco muitas vezes está restrito aos humanos, negligenciando as consequências para os animais, que são, na verdade, a maioria dos indivíduos afetados. Veja alguém da área da saúde falando sobre o consumo de animais, preocupa-se sobre a saúde do humano e a evitação da morte mas nada se fala sobre a saúde, o sofrimento e a morte intencional que é causada aos animais de outras espécies.

Precisamos encarar a pergunta “o consumo de carne faz bem?” de forma a ver todos os envolvidos, não só os humanos. Por isso é importante expandirmos o debate, além da questão descritiva.

Questões científicas e questões morais

A ciência é a melhor ferramenta que temos para descrever como funcionam os fenômenos da natureza. No entanto, seu papel é descritivo. Já a ética, ou filosofia moral, aborda o que devemos ou não fazer, seu papel é normativo.

Enquanto a ciência pode nos ajuda a descobrir se um fenômeno acontece, como por exemplo se um alimento é ou não saudável, ela não pode pode determinar se isso é certo ou errado. Na ética são estudados os fundamentos morais e as justificativas que temos para nossos valores e escolhas sobre o que devemos escolher. Por isso, esta área que nos ajuda a refletir se nossas escolhas alimentares são mais ou menos corretas, de deveríamos ou não matar animais para comê-los.

Assim como perguntar se dietas veganas são saudáveis para humanos é uma questão científica, também seria possível questionar se o consumo de carne humana é saudável. No entanto, nenhuma dessas perguntas consegue responder se essas práticas são moralmente corretas, pois não é papel da ciência. Chegar as respostas para questões descritivas (se comer carne animal ou humana é saudável ou não), não pode mostrar se isso é correto ou não moralmente.

Em ambos os casos, esse tipo de análise científica não abrange questões morais, se é certo o sofrimento infligido aos outros. Todos os cientistas do mundo poderiam com um compêndio de evidências declarar que a carne humana é saudável, ainda sim isso não tornaria o canibalismo moralmente justificado. O canibalismo envolve prejudicar outro indivíduo, sem necessidade para tal, o mesmo pode ser visto no consumo de animais.

Se alguém propor o canibalismo para fins científicos a maioria das pessoas pensaria que isso é um absurdo, haja visto que a sociedade tem como como prescrição o respeito entre humanos. Porém, o consumo de animais é amplamente aceito, e ignorado pelo senso comum, por isso, quando o assunto é saúde, as vítimas de outras espécies acabam padecendo.

Assim como discutimos os impactos éticos do consumo humano levando a sério as vítimas, devemos também refletir sobre o impacto de nossas escolhas alimentares nos animais. Essa é a importância de aprendermos a diferenciar aquilo que é científico, daquilo que é moral, para aprendermos a analisar se aquilo que fazemos tem boas justificativas.

Os valores morais que seguimos influenciam nas nossas ações, na forma que moldamos as sociedades e nas pesquisas que realizamos. Investimos nossos recursos, que são limitados, para descobrir como prejudicar os outros em pró de uma pequena minoria, aumentando o sofrimento no mundo, quando deveríamos estar investindo em como não fazer isso, isso porque há uma grande lacuna no debate moral dentro da ciência, que tem como fundamento a visão de que os humanos importam mais que tudo, mas sem bons fundamentos para isso.

Antes de pensarmos como descrevermos o mundo, precisamos pensar qual a melhor forma de fazermos isso e causando o menor impacto negativo possível.

Discutindo o que é relevante moralmente

A questão de dietas veganas é importante. Quando sabemos que o consumo de produtos de origem animal não é fundamental para garantirmos nossa saúde, fica claro que essa prática é uma questão de conveniência, não de necessidade. Mesmo que não fosse saudável viver sem produtos animais em nossa dieta, a moralidade nos leva a buscar constantemente por alternativas melhores. Com nossa inteligência e inovação poderíamos desenvolver tecnologias para mudar essa barreira moral, haja visto que já nos permitiram resolver inúmeros desafios humanos – utilizamos a medicina, a farmácia, a computação, a engenharia e diversas outras áreas do conhecimento, tudo isso para ‘reprogramar’ a natureza e nos beneficiar.

Dietas vão muito além da alimentação. Analisando moralmente o consumo de animais, há décadas, diversos intelectuais vem mostrando, que essa escolha é tendenciosa e injustificada moralmente, além de apontar seu impacto extremamente negativo, que é a maior fonte de sofrimento causado intencionalmente no planeta.

Se vamos pensar de forma honesta sobre questões de certo e errado precisarmos colocar em discussão todos os envolvidos, assim conseguimos traçar uma análise de forma imparcial e justa. Esse tipo de raciocínio crítico nos leva a procurar se os fundamentos para nossas escolhas são justificadas, se o impacto das nossas escolhas será mais positivo ou negativo e se estamos escolhendo a melhor dentre todas opções disponíveis, por exemplo.

Como podemos averiguar cientificamente, se pensarmos apenas nos humanos, dietas veganas são saudáveis, assim como qualquer dieta adequada para suprir as necessidades básicas. Porém, moralmente, a questão da dieta não se restringe apenas à saúde dos humanos. As escolhas daquilo que consumimos e comemos também são morais, isto porque podem prejudicar outros indivíduos.

Discutir a saúde humana sem discutir a saúde dos outros animais já parte de uma perspectiva limitada, esse prisma é claramente tendencioso ao ignorar uma visão mais universal e ampla de saúde, assim como uma visão mais ampla de justiça e de liberdade.

A saúde dos animais

Existem excelentes textos que discutem o impacto do consumo de produtos vegetais e das dietas veganas, porém eles geralmente se concentram apenas na perspectiva humana. Eles analisam as evidências científicas e comparam com dietas que incluem produtos de origem animal. No entanto, ignoram um ponto essencial: a saúde dos próprios animais. Esses seres sencientes também têm um interesse vital em sua saúde, um fator que frequentemente é negligenciado quando são tratados como meros produtos.

Outro caso comum é quando alguém deixa de ser vegano visando apenas seu próprio bem-estar, está desconsiderando ou sendo indiferente ao bem-estar de inúmeros outros indivíduos. Assim como os humanos, esses seres também precisam de saúde para ter uma boa vida, o que é negado à eles nas indústrias de exploração animal.

Toda vez que alguém deixar de ser vegano por questões de saúde ou quiser discutir se ser vegano é saudável além de mostrar as evidências é preciso ir além e mostrar a questão moral.

A pergunta necessária

Precisamos pensar constantemente no impacto das nossas escolhas, incluindo o consumo de animais. Se estamos falando ser mensurar o impacto de forma ampla e realista, o debate acaba por ser bastante limitado.

Para mensurar as consequências também precisamos perguntar: “Saudável para quem?” Se considerarmos todos que podem ser afetados por uma dieta vegana, ela acaba sendo, inquestionavelmente, a mais saudável por seu impacto geral. Ou seja, mesmo no caso de haver um produto vegano que é menos benéfico pra saúde de um humano que um produto de origem animal, no saldo total agregado, o produto vegano é muito mais benéfico para a saúde de todos os envolvidos, pois deixa de fazer mal aos outros animais.

Perguntar sobre a saúde de quem prejudica ignorando quem está sendo prejudicado, representa o dano generalizado à saúde das vítimas, que, neste caso, são os animais de outras espécies. Ao colocar os animais na equação, assumindo uma visão mais ampla de saúde para todos os seres sencientes, o veganismo se mostra definitivamente mais saudável.

Uma visão de saúde universal e inclusiva

A exploração animal para consumo causa sofrimento e morte a trilhões de indivíduos anualmente, sendo a maior fonte de sofrimento intencional no planeta. Apesar dos graves e desnecessários impactos nos animais, muitos humanos continuam a justificar essas práticas por cultura, prazer ou por benefícios financeiros.

Refletir sobre nossas escolhas de consumo e alimentação nos conduz a uma perspectiva mais inclusiva, que visa construir um mundo mais justo para todos os seres capazes de sofrer. Para realmente promover a saúde de todos os envolvidos, precisamos de um conceito de saúde universal.

Mesmo nos debates sobre veganismo, é comum que o foco se restrinja à saúde humana, ignorando as verdadeiras vítimas: os animais. Porém, ao incluirmos o impacto negativo gerado pela exploração animal, fica evidente que o veganismo e as dietas veganas representam a opção mais saudável para todos.

Todos podemos nos debruçar em questões descritivas, mas precisamos abrir os olhos e deixar de ignorar os impactos que causamos. Para construirmos um mundo melhor, é essencial buscarmos a redução do sofrimento e da morte desnecessária, promovendo o bem-estar de todos os animais, e não apenas dos humanos.

Promover saúde para todos, sem discriminações, é uma questão fundamental de justiça. Quando ampliamos nossa visão de saúde para incluir todos os seres sencientes, fica claro que uma dieta sem produtos de origem animal não é apenas a mais saudável, mas também a mais ética.

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