Um mês após a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), é necessário questionar não apenas as falhas ambientais do evento, mas fundamentalmente seu fracasso em considerar os interesses dos animais como indivíduos sencientes capazes de sofrer.
Distinguindo ambientalismo de ética animal
É crucial compreender que preocupações ambientais e preocupações com o bem-estar dos animais sencientes são questões éticas distintas, embora frequentemente confundidas e, claro, que podem se sobrepor por vezes. O ambientalismo como visão ética foca na preservação de ecossistemas, espécies e recursos naturais principalmente por seu valor para os humanos ou para a “biodiversidade” abstrata. Já a ética animal baseada na senciência reconhece que cada animal capaz de sentir dor e prazer possui interesses moralmente relevantes que devem ser considerados independentemente de seu papel ecológico.
Muitos veganos e defensores dos direitos animais adotam posições ambientalistas de forma acrítica, sem perceber que certas medidas de “conservação” podem aumentar o sofrimento de animais enquanto indivíduos. Programas de controle populacional, reintrodução de predadores, ou mesmo a manutenção de ecossistemas “selvagens” podem perpetuar enormes quantidades de sofrimento entre animais que vivem na natureza – vítimas de predação, inanição, doenças e condições climáticas extremas.
O sofrimento negligenciado dos animais selvagens
A COP30 ocorreu em Belém, próxima à Amazônia, mas o debate ignorou completamente a realidade do sofrimento massivo dos animais. Enquanto organizações como a World Animal Protection criticaram a pecuária industrial, mantiveram-se dentro de uma estrutura argumentativa que prioriza a “preservação” sem questionar se a vida selvagem é, de fato, boa para os animais que a vivenciam.
A ética animal séria exige que reconheçamos: bilhões de animais sencientes na natureza sofrem tremendamente devido a causas naturais. Este sofrimento é real, moralmente relevante, e frequentemente ignorado pelo movimento de defesa animal que prefere focar apenas no sofrimento causado diretamente por humanos.
Por que ainda devemos nos importar com o meio ambiente?
Apesar dessas distinções críticas, existem razões sólidas baseadas na senciência para nos preocuparmos com a degradação ambiental:
- Impactos diretos na qualidade de vida animal: Mudanças climáticas, poluição e destruição de habitat causam sofrimento adicional aos animais sencientes – tanto domésticos quanto selvagens – através de eventos extremos, escassez de recursos e perturbações em seus ambientes.
- Bem-estar humano e capacidade de ajudar: Um planeta habitável é necessário para que os humanos – os únicos agentes morais conhecidos – possam eventualmente desenvolver tecnologias e conhecimento para reduzir o sofrimento de todos os sencientes, incluindo animais selvagens.
- Prevenção de sofrimento evitável: Enquanto o sofrimento natural já é imenso, a degradação antropogênica adiciona camadas extras de sofrimento desnecessário que podemos evitar.
A pecuária industrial: uma questão de senciência, não apenas de clima
A agricultura animal é responsável por 53% do aumento da temperatura global entre 1750 e 2020, e aproximadamente 80% do desmatamento amazônico. No entanto, o problema fundamental não é primariamente ambiental, mas ético: a pecuária industrial aprisiona e causa sofrimento a dezenas de bilhões de animais sencientes anualmente.
Os argumentos indiretos são insuficientes
Defender os animais através de argumentos ambientais, de saúde ou de sustentabilidade é estrategicamente questionável e eticamente insuficiente. Estes argumentos indiretos:
- Não reconhecem o valor moral intrínseco dos animais como indivíduos sencientes
- Podem justificar práticas que reduzem impacto ambiental mas mantêm sofrimento animal (como fazendas “sustentáveis”)
- Desviam o foco do que realmente importa: a capacidade de experienciar subjetivamente a existência
Se eliminarmos a pecuária industrial amanhã apenas por razões climáticas, mas continuarmos explorando animais de outras formas ou ignorando seu sofrimento na natureza, não teremos avançado eticamente.
Todos os animais sencientes devem estar no cálculo
Kelly Dent, da World Animal Protection, afirmou que “a ação climática não pode ser apenas sobre os humanos”. Esta observação precisa ir mais longe: qualquer discussão sobre condições ambientais deve incluir todos os animais sencientes no cálculo moral – não apenas como componentes de ecossistemas, mas como indivíduos cujo sofrimento e bem-estar importam intrinsecamente.
Isso significa:
- Considerar como políticas ambientais afetam o bem-estar de animais individuais, não apenas populações ou espécies
- Reconhecer que preservar um ecossistema “intacto” pode perpetuar sofrimento massivo
- Investir em pesquisa sobre como podemos eventualmente reduzir o sofrimento de animais selvagens de forma segura e eficaz
- Avaliar intervenções ambientais através da lente do impacto no bem-estar dos sencientes afetados
Além da COP31: Uma nova postura ética
Para a COP31 e além, precisamos de uma mudança paradigmática que:
- Reconheça explicitamente a senciência como base moral: Não basta mencionar “bem-estar animal” – é necessário fundamentar políticas no reconhecimento de que animais são indivíduos sencientes com interesses moralmente relevantes.
- Abandone a pecuária industrial por razões éticas primárias: A transição para sistemas alimentares baseados em plantas deve ser justificada primeiro pelo imenso sofrimento causado aos animais, com benefícios ambientais como consequência positiva.
- Inclua animais selvagens nas considerações morais: Políticas ambientais devem avaliar honestamente se aumentam ou diminuem o sofrimento total de animais sencientes.
- Resista à captura por lobbies: Mais de 300 lobistas da agricultura industrial participaram da COP30, muitos como parte de delegações oficiais. Esta influência compromete tanto objetivos ambientais quanto éticos.
- Desenvolva uma ética de longo prazo: Focar em criar condições para que a humanidade possa eventualmente intervir de forma benéfica para reduzir todo sofrimento evitável, incluindo aquele que ocorre naturalmente.
Conclusão
A COP30 falhou não apenas em medidas ambientais, mas fundamentalmente em reconhecer a realidade moral central: bilhões de animais sencientes sofrem – tanto em fazendas industriais quanto na natureza – e este sofrimento deve ser nossa preocupação ética primária.
Cuidar do planeta é importante, mas não pelos motivos antropocêntricos usuais ou por uma reverência mística à “Natureza”. É importante porque um ambiente estável é necessário para proteger sencientes existentes de sofrimento adicional e para criar condições onde possamos, eventualmente, reduzir o vasto sofrimento que permeia a vida selvagem.
O verdadeiro fracasso da COP30 foi não iniciar esta conversa mais profunda sobre o que realmente devemos moralmente aos trilhões de animais sencientes com quem compartilhamos o planeta – e sobre como nossas políticas ambientais podem ser reimaginadas para servir aos interesses deles, não apenas aos nossos.





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