Perguntas e Respostas

Esta página é dedicada a refutar argumentos comuns utilizados na defesa da exploração animal e no consumo de produtos de origem animal. Nela você encontra perguntas e respostas expostas de forma bastante objetiva.

Perguntas e respostas

  • Qual o problema de ser esquerda e não ser vegano se podemos ser um e não ser o outro?

De fato ninguém precisa carregar um pacote de ideias associado a sua posição política, mas inevitavelmente, por meio da lógica, podemos saber se uma visão tende mais ao conservadorismo ou ao progresso. Ter a ideia de que animais são objetos que servem aos humanos é uma ideia conservadora – pois investir na exploração deles gera sofrimento desnecessário e traz mais malefícios ao planeta que benefícios – e não uma ideia progressista ou revolucionária.

Há quem diga que é um problema, uma contradição, ser de esquerda e ter ideias conservadoras, mas também não é raro que isto aconteça. Se por um lado podemos nos dizer a favor da liberdade, por outro podemos ser conservadores. Assim, não adianta dizer-se a favor do progresso no que diz respeito aos humanos mas continuar ver os animais como servos, produtos ou objetos. Não é incomum ver pessoas tendo posições conservadoras e progressistas quando tratamos de questões diferentes e este é um destes casos. Não obstante podemos alinhar nossa conduta e levarmos a sério direitos fundamentais tratando-os como invioláveis, tanto para humanos quanto para animais. (por Julio Cesar Prava)

Confira este texto que aborda melhor a questão: Antiveganos “de esquerda”: o despertar do reacionarismo dentro de quem diz defender igualdade e justiça social

  • Os animais domésticos, tais como as vacas e os porcos, e também os ratos de laboratório não existiriam se nós mesmos não os tivéssemos trazido à existência para nossos fins. Então, isso não significa que podemos tratar esses animais como nossos recursos?

Não. O fato de sermos, de algum modo, responsáveis pela existência de um ser não nos dá o direito de tratar esse ser como nosso recurso. Se esse fosse o caso, então poderíamos tratar nossos filhos como recursos. Afinal de contas, nossos filhos nem existiriam, se não fosse pelas nossas ações—desde a nossa decisão de conceber até nossa decisão de não abortar. E embora nos seja outorgada uma certa liberdade para decidirmos como tratar nossos filhos, há limites: não podemos tratá-los como tratamos os animais. Não podemos escravizá-los, submetê-los à prostituição ou vender seus órgãos. Não podemos matá-los. De fato, há uma norma cultural segundo a qual trazer uma criança à existência cria, nos pais, a obrigação moral de cuidar dela e não explorá-la.

Deve-se notar que uma das pretensas justificações para a escravidão humana nos Estados Unidos foi a de que muitos daqueles que eram escravizados não existiriam se não fosse pela instituição da escravidão, em primeiro lugar. Os primeiros escravos trazidos aos Estados Unidos foram forçados a se reproduzir e seus filhos foram considerados propriedade. Embora esse tipo de argumento nos pareça absurdo nos dias de hoje, ele demonstra que não podemos assumir a legitimidade da instituição da propriedade—de humanos ou não humanos—e depois perguntar se é aceitável tratar uma propriedade como propriedade. A resposta já está predeterminada. Em vez disso, devemos primeiro perguntar se a instituição da propriedade de animais (ou de humanos) pode ser justificada moralmente. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • Os direitos foram inventados pelo ser humano. Como eles podem ser aplicáveis aos animais?

Assim como o status moral de um humano ou animal não é determinado por quem causou a existência desse humano ou desse animal, a aplicação de um conceito moral não é determinada por quem criou esse conceito. Se os benefícios morais fossem só para os criadores dos conceitos morais, então a maior parte da humanidade ainda estaria fora da comunidade moral. Os conceitos de direitos, conforme os entendemos atualmente, foram, na realidade, concebidos como um modo de proteger os interesses dos ricos proprietários de terra brancos e do sexo masculino; de fato, historicamente, a maioria dos conceitos morais foi criada por pessoas privilegiadas do sexo masculino para beneficiar outras pessoas privilegiadas do sexo masculino. Com o passar do tempo, reconhecemos que o princípio da igual consideração requeria que tratássemos casos semelhantes de modo semelhante, e subsequentemente estendemos os direitos (e outros benefícios morais) a outros humanos. Em particular, o princípio da igual consideração requeria que considerássemos moralmente odiosa a posse de alguns humanos por outros. Se formos aplicar o princípio da igual consideração aos animais, então devemos estender aos animais o direito de não ser tratados como recursos.

É irrelevante se os animais criaram os direitos ou mesmo se conseguem entender o conceito de direitos. Nós não exigimos que os humanos sejam potenciais criadores de direitos, nem que compreendam o conceito de direitos, para ser beneficiários de direitos. Por exemplo, um humano com deficiência mental grave pode não ter a capacidade de entender o que é um direito, mas isso não significa que não devamos protegê-lo com, pelo menos, o direito básico de não ser tratado como um recurso alheio. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • A instituição da propriedade de animais de estimação viola o direito básico dos animais a não ser considerados coisas?

Sim. Os animais de estimação, ou pets, são nossa propriedade. Cães, gatos, hamsters, coelhos e outros animais são produzidos em massa, feito pinos em uma fábrica, ou, como é o caso de aves e animais exóticos, são capturados na natureza e transportados por longas distâncias, em viagens durante as quais muitos deles morrem. Os animais de estimação são comercializados exatamente como as outras mercadorias. Embora algumas pessoas possam tratar bem seus companheiros animais, há mais pessoas ainda que tratam os delas mal. Nos Estados Unidos, a maioria dos cachorros não vive sequer dois anos em um lar, e já é largada em um abrigo ou passada para outro dono; mais de 70% das pessoas que adotam animais acabam dando-os para alguém, levando-os para abrigos ou abandonando-os. Todos nós sabemos de casos de horror em que cães ficam presos por correntes curtas durante a maior parte de suas vidas, sozinhos. Nossas cidades estão repletas de gatos e cães de rua que têm vidas deploráveis, passam fome ou frio, sucumbem a doenças, ou são maltratados por humanos. Pessoas que dizem amar seus companheiros animais os mutilam insensatamente, mandando recortar suas orelhas, decepar seus rabos, remover suas unhas para que eles não arranhem os móveis.

Pode ser que você trate seu companheiro animal como um membro da sua família e efetivamente lhe atribua valor inerente ou o direito básico de não ser tratado como seu recurso. Mas esse tratamento que você lhe dá significa, na realidade, que você considera que sua propriedade animal tem um valor mais alto do que o valor de mercado; se você mudar de ideia e espancar seu cachorro diariamente com o propósito de discipliná-lo, ou se não alimentar seu gato para que ele fique mais motivado a caçar os ratos no porão da sua loja, ou se matar seu animal porque não quer mais ter despesa com ele, sua decisão será protegida pela lei. Você tem a liberdade de dar o valor que quiser à sua propriedade. Você poderá decidir fazer o polimento do seu carro com frequência, ou poderá deixar a pintura se desgastar. A escolha é sua. Contanto que você dê um mínimo de manutenção ao seu carro para que ele passe na inspeção, qualquer outra decisão que você tomar quanto ao veículo, incluindo a de dá-lo a um ferro-velho, é problema seu. Contanto que você dê um mínimo necessário de comida, água e abrigo ao seu animal de estimação, qualquer outra decisão que você tomar quanto a ele, exceto a de torturá-lo sem qualquer propósito que seja, é problema seu, incluindo a decisão de largá-lo num abrigo (onde muitos animais são ou mortos ou vendidos à pesquisa biomédica) ou de providenciar a morte dele pelas mãos de um veterinário.

Há muitos anos adotei um hamster de uma colega de classe na faculdade de Direito. Uma noite o hamster adoeceu e eu liguei para um atendimento veterinário de emergência. O veterinário disse que o preço mínimo de uma consulta de emergência era 50 dólares e me perguntou por que eu estaria querendo gastar isso quando podia comprar um “novo” hamster em qualquer pet shop por uns 3 dólares. De todo modo eu levei o hamster ao veterinário, mas aquele acontecimento foi uma das primeiras vezes em que tomei consciência do status de mercadoria dos animais.

Moro com sete companheiros caninos salvos do abandono e os amo muito, então este assunto, para mim, não é brincadeira. Embora eu os considere membros da minha família, eles continuam sendo minha propriedade e, um belo dia, eu poderia resolver providenciar a morte de todos. Por mais que eu goste de morar com cachorros, mesmo se restassem somente um cão e uma cadela no mundo, eu não seria a favor de fazê-los se reproduzir a fim de podermos ter mais “pets” e assim perpetuar sua condição de propriedade. Na verdade, qualquer pessoa que realmente se importe com cachorros deveria visitar uma “fábrica de filhotes”—um lugar onde cachorros são paridos às centenas, ou aos milhares, e tratados como meras mercadorias. As cadelas são forçadas a dar cria repetidas vezes, até ficarem “gastas”, e depois são ou mortas ou vendidas à pesquisa biomédica. É claro que devemos cuidar de todos os animais domésticos que estão vivos no presente momento, mas não deveríamos continuar a trazer mais animais à existência a fim de poder possuí-los como animais de estimação. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • Se você é a favor de abolir o uso de animais como recursos dos humanos, você não se importa mais com os animais do que com aqueles humanos sofrendo de doenças que possivelmente pudessem ser curadas a partir de pesquisas com animais?

Não, claro que não. Essa questão é indistinguível, tanto moral quanto logicamente, daquela de saber se quem defendia a abolição da escravidão humana se importava menos com o bem-estar dos sulistas que ficariam economicamente arruinados, quando a escravidão fosse abolida, do que com os escravos.

A questão não é com quem nos importamos mais ou a quem damos mais valor; a questão é se é moralmente justificável tratar seres sencientes—humanos ou não humanos—como mercadorias, ou exclusivamente como meios para os fins dos outros. Por exemplo, geralmente não pensamos que deveríamos usar algum humano como sujeito involuntário de experimentos biomédicos, apesar de que obteríamos dados muito melhores sobre doenças humanas se usássemos humanos em vez de animais, na experimentação. Afinal de contas, a aplicação de dados obtidos a partir de experimentos com animais ao contexto humano—supondo-se que os dados dos animais sejam relevantes—requer uma extrapolação frequentemente difícil e sempre imprecisa. Poderíamos evitar essas dificuldades usando humanos, o que eliminaria a necessidade da extrapolação. Mas não fazemos isso porque, embora possamos divergir quanto a muitas questões morais, a maioria de nós concorda que usar humanos involuntários como sujeitos em experimentos está, logo de saída, fora de cogitação. Ninguém insinua que nos importamos mais com aqueles que não queremos usar como sujeitos experimentais do que com aqueles que se beneficiariam desse uso. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • O uso de animais pelos humanos não é uma “tradição”, ou “natural”, e, portanto, justificado moralmente?

Toda forma de discriminação na história da humanidade foi defendida como “tradicional”. O sexismo costuma ser justificado com base na ideia de que a subserviência das mulheres aos homens é tradicional: “O lugar de uma mulher é seu lar”. A escravidão humana foi uma tradição na maioria das culturas, às vezes. O fato de algum comportamento poder ser caracterizado como tradicional não tem nada a ver com se esse comportamento é moralmente aceitável ou não.

Além de se apoiarem na tradição, algumas pessoas caracterizam nosso uso de animais como “natural” e depois declaram que o uso é moralmente aceitável. De novo, qualificar alguma coisa como natural, em si, não diz nada sobre a moralidade da prática. Em primeiro lugar, quase toda forma de discriminação já praticada foi descrita como natural e como tradicional. As duas noções são, com frequência, usadas de maneira intercambiável. Já justificamos a escravidão humana baseados na ideia de que ela representa uma hierarquia natural entre proprietários de escravos e escravos. Justificamos o sexismo baseados na ideia de que ele representa a superioridade natural dos homens em relação às mulheres. Além disso, é um pouco estranho qualificar como “natural”, em qualquer sentido da palavra, a maneira moderna de usarmos os animais como mercadorias. A fim de maximizar lucros, nós criamos ambientes e procedimentos completamente antinaturais para criar animais para consumo. Fazemos experimentos bizarros em que transplantamos genes e órgãos de animais em humanos e vice-versa. Agora estamos clonando animais. Nada disso pode ser qualificado como natural. Os rótulos “natural” e “tradicional” são apenas isso: rótulos. Eles não são razões. Se as pessoas defendem a imposição da dor e do sofrimento a um animal baseadas no que é tradicional ou natural, isso geralmente significa que elas não podem justificar sua conduta de outro modo.

Uma variante dessa pergunta se refere às tradições de certos grupos. Por exemplo, em maio de 1999, a tribo Makah, do estado de Washington, matou sua primeira baleia-cinzenta em mais de setenta anos. O abate da baleia, que foi realizado com arpões de aço, armas antitanque, barcos de caça motorizados e munição que penetra em blindagens, e que contou com 310.000 dólares do governo federal, foi defendido com base no fato de que a caça à baleia era uma tradição Makah. Mas o mesmo argumento poderia ser (e é) apresentado para defender mutilações de clitóris na África e a queima de esposas até a morte na Índia. A questão não é se a conduta é parte de uma cultura; toda conduta é parte de alguma cultura. A questão é se a conduta pode ser moralmente justificada.

Finalmente, algumas pessoas argumentam que, já que os animais não humanos comem outros animais não humanos na natureza, nosso uso de animais é natural. Há quatro respostas a essa posição. Em primeiro lugar, embora alguns animais comam outros na natureza, muitos não comem. Muitos animais são vegetarianos. Além disso, nossa ideia de que “a natureza é cruel” não nos deixa ver que há muito mais cooperação na natureza do que conseguimos imaginar. Segundo, se os animais comem outros animais é uma questão que não importa nesta discussão. Como poderia ser relevante se os animais comem ou não comem outros animais? Alguns animais são carnívoros e não podem existir sem comer carne. Nós não estamos dentro dessa categoria; podemos passar muito bem sem comer carne, e cada vez mais pessoas estão se convencendo de que tanto nossa saúde quanto o ambiente se beneficiariam se mudássemos nossa dieta, parando de consumir produtos animais. Terceiro, os animais fazem toda sorte de coisas que os humanos não consideram moralmente apropriadas. Por exemplo, os cachorros copulam e defecam na rua. Isso significa que nós deveríamos seguir seu exemplo? Quarto, é interessante que, quando nos convém, tentamos justificar nossa exploração dos animais com base em nossa suposta “superioridade”. E quando nossa suposta “superioridade” atrapalha alguma coisa que queremos fazer, nós de repente nos descrevemos como apenas mais uma espécie de animal selvagem, com tanto direito de comer galinhas quanto as raposas. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • Se nós não explorássemos os animais, não teríamos uma sociedade tal como a conhecemos. Esse fato não prova que o uso de animais pelos humanos é justificado moralmente?

Não. Em primeiro lugar, a pergunta toma por certo que nós não teríamos criado alternativas ao uso de animais, se tivesse sido necessário criá-las porque faltassem animais não humanos ou então porque tomássemos a decisão moral de não explorá-los como recursos. Segundo, mesmo se o uso de animais fosse necessário para a sociedade tal como a conhecemos atualmente, o mesmo argumento poderia ser aplicado a qualquer atividade humana. Por exemplo, sem as guerras, o patriarcado e outras formas de violência e exploração, não teríamos uma sociedade tal como a conhecemos. O fato de que dada atividade fosse um meio necessário para aquilo que alguns de nós consideramos fins desejáveis não prova que esse meio fosse moralmente justificado. Os americanos de hoje não desfrutariam o nível de prosperidade que desfrutam, se não fosse pela escravidão humana; isso não quer dizer que a escravidão fosse uma prática moralmente aceitável. Terceiro, pode-se argumentar que nossa sociedade atual, com sua violência, poluição, distribuição desigual de recursos e várias formas de injustiça, não é um fim tão desejável quanto alguns pensam, e não deveríamos estar tão ávidos por endossar os meios que nos deixaram na situação em que estamos hoje. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • Ao igualar especismo a racismo e sexismo, você não está igualando animais, pessoas não brancas e mulheres?

Não. O racismo, o sexismo, o especismo e outras formas de discriminação são todos análogos, pois todos compartilham a noção errada de que alguma característica moralmente irrelevante (raça, sexo, espécie) pode ser usada para excluir seres que possuem interesses da comunidade moral, ou para subestimar interesses, numa explícita violação do princípio da igual consideração. Por exemplo, o especismo e a escravidão humana são semelhantes pois, em todos os casos, os animais e os humanos escravizados têm um interesse básico em não ser tratados como coisas, e ainda assim são tratados como coisas com base em critérios moralmente irrelevantes. Negar esse direito básico aos animais simplesmente porque eles são animais é como dizer que não deveríamos abolir a escravidão baseada na raça por causa da suposta inferioridade da raça dos escravos. O argumento usado para apoiar a escravidão e o argumento usado para apoiar a exploração animal são estruturalmente semelhantes: excluímos seres que possuem interesses da comunidade moral porque há alguma suposta diferença entre “eles” e “nós”, a qual não tem nada a ver com a inclusão desses seres na comunidade moral. A posição dos direitos animais sustenta que se acreditamos que os animais têm importância moral, o princípio da igual consideração requer que paremos de tratá-los como coisas.

Uma pergunta relacionada a essa, que surge frequentemente neste contexto, é se o especismo é “tão mau” quanto o racismo, o sexismo ou outras formas de discriminação. De um modo geral, não é útil estabelecer um ranking de males. O fato de Hitler matar judeus foi “pior” do que o fato de Hitler matar católicos ou então ciganos? A escravidão é “pior” do que o genocídio? A escravidão que não é baseada em raça é “pior” do que a escravidão baseada em raça? O sexismo é “pior” do que a escravidão e o genocídio, ou é “pior” do que a escravidão mas não é pior do que o genocídio? Francamente, eu nem sei ao certo o que essas perguntas significam, mas desconfio que as pessoas que as fazem supõem, implicitamente, que um grupo seja “melhor” do que outro. De qualquer modo, todas essas formas de discriminação são terríveis, e terríveis de diferentes maneiras. Mas todas têm uma coisa em comum: todas tratam os humanos como coisas sem interesses passíveis de proteção. Nesse sentido, todas essas formas de discriminação—por diferentes que sejam entre si—são semelhantes ao especismo, que resulta em tratarmos os animais como coisas.

Finalmente, há algumas pessoas que argumentam que, ao dizermos que alguns animais têm mais habilidade cognitiva do que alguns humanos, tais como os portadores de deficiência mental grave ou os extremamente senis, estamos igualando esses humanos aos animais e caracterizando-os de um modo desrespeitoso. De novo, não é esse o ponto da argumentação a favor dos direitos animais. Por séculos temos justificado o fato de tratarmos os animais como recursos porque, supostamente, eles não possuem alguma característica que nós possuímos. Mas alguns animais têm uma característica “especial” em um grau maior do que alguns de nós, e alguns humanos nem mesmo têm tal característica. O ponto essencial é que, embora uma característica em particular possa ser útil para alguns propósitos, a única característica exigida para a importância moral é a senciência. Nós não tratamos, nem deveríamos tratar, humanos deficientes como recursos de outros humanos. E se realmente acreditamos que os animais têm interesses moralmente significativos, então temos de aplicar o princípio da igual consideração e não tratá-los como recursos também. A argumentação a favor dos direitos animais não diminui o respeito pela vida humana; ao contrário, aumenta o respeito por todas as formas de vida. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

Resposta 2:

Quando um vegano fala que animais estão sendo escravizados e que o especismo é uma opressão como o sexismo, o racismo e a homofobia, ele não está sendo conivente e dizendo que são inferiores os grupos que acabam sendo oprimidos a partir de quem tem estas lógicas de superioridade. O argumento afirma que os animais são indivíduos vulneráveis que vivem num sistema de escravidão, pois vivem como propriedades e tem a exploração e mercantilização de seus corpos, e que isso é desnecessário e pode ser mudado. Inferir que este argumento é racista, sexista, homofóbico e que aquele que o usa tem estas visões, de fato, não tem ligação nenhuma com o argumento proposto. De certo a lógica de superioridade por características exclusivas e não pela capacidade da senciência deveria ser repudiada por todos os veganos, mas ainda há veganos sexistas, machistas e homofóbicos, o que não quer dizer que esta lógica seja aplicada para suportar tais indivíduos.

  • Hitler era vegetariano; o que isso nos diz sobre os vegetarianos?

Não nos diz nada além de que algumas pessoas más também podem ser vegetarianas. A própria pergunta é baseada em um silogismo inválido: Hitler era vegetariano; Hitler era mau; portanto, vegetarianos são maus. Stalin comia carne e não era nenhum anjo. Ele foi responsável pela morte de milhões de pessoas inocentes. O que isso nos diz sobre as pessoas que comem carne? Assim como não podemos concluir que todas as pessoas que comem carne têm algo em comum com Stalin além do fato de comer carne, também não podemos concluir que todos os vegetarianos têm algo em comum com Hitler além do vegetarianismo. Além disso, não se sabe ao certo se Hitler era de fato vegetariano. Em todo caso, o interesse dos nazistas em reduzir o consumo de carne não era uma questão de status moral dos animais; em vez disso, refletia uma preocupação em usar métodos orgânicos no cuidado da saúde e em rejeitar ingredientes artificiais na comida e nos produtos farmacêuticos, preocupação essa que estava vinculada ao objetivo nazista mais amplo da “higiene racial” (*).

Outra versão dessa pergunta é: já que os nazistas também eram a favor dos direitos animais, isso significa que a teoria moral dos direitos animais esteja arruinada e procure desvalorizar os seres humanos? Mais uma vez, a pergunta é absurda. Em primeiro lugar, ela é baseada em um erro factual. Os nazistas não eram a favor dos direitos animais. As leis do bem-estar animal alemãs restringiam a vivissecção até certo ponto, mas não refletiam uma preferência social pela abolição do status de propriedade dos animais. Afinal de contas, os nazistas mataram banalmente milhões de humanos e animais durante a segunda guerra mundial, um comportamento incompatível com a posição dos direitos, humanos ou outros. Dizer que os nazistas apoiavam os direitos animais não é mais correto do que dizer que os americanos apoiam os direitos animais porque têm uma Lei (federal) do Bem-estar Animal.

Mas, e se, ao contrário da realidade, os nazistas tivessem defendido a abolição de toda exploração animal? O que isso nos diria, com relação à ideia dos direitos animais? A resposta é absolutamente clara: isso não nos diria nada sobre a posição dos direitos animais ser certa ou errada. Essa questão só pode ser resolvida determinando-se se os argumentos morais a favor dos direitos animais são válidos ou não. Os nazistas também apoiavam vigorosamente o casamento. Isso significa que o casamento seja uma instituição inerentemente imoral? Os nazistas também acreditavam que praticar esportes fosse uma atividade essencial para o desenvolvimento de um caráter forte. Isso significa que as competições esportivas sejam inerentemente imorais? Jesus Cristo pregava um evangelho a favor da distribuição igualitária de recursos. Gandhi difundia uma mensagem semelhante, assim como Stalin. Mas Stalin também desvalorizava seres humanos. Podemos concluir que a ideia de uma distribuição mais igualitária de recursos contém uma falha moral inerente que macula Jesus e Gandhi? Não, claro que não. Não desvalorizamos mais a vida humana ao atribuir importância moral aos interesses dos animais, do que desvalorizamos a vida dos seres humanos “normais” ao atribuir valor moral a humanos portadores de deficiência mental grave e proibir seu uso em experimentos. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • Onde você traça o limite quanto a quem pode ter direitos? Os insetos têm direitos?

Eu traço o limite na senciência porque, conforme argumentei, os seres sencientes têm interesses, e a posse de interesses é a condição necessária e suficiente para se fazer parte da comunidade moral. Os insetos são sencientes? Eles são seres conscientes com mentes que experienciam dor e prazer? Não sei. Mas o fato de eu não saber onde, exatamente, traçar o limite, ou de talvez achar difícil traçar o limite, não me dispensa da obrigação de traçar o limite em algum lugar, nem me autoriza a usar os animais como eu bem quiser. Embora eu possa não saber se os insetos são sencientes, eu realmente sei que vacas, porcos, galinhas, chimpanzés, cavalos, veados, cães, gatos e camundongos são sencientes. De fato, agora a senciência dos peixes já está amplamente reconhecida. Portanto, o fato de eu não saber em que lado da linha limítrofe eu devo colocar os insetos não me dispensa da minha obrigação moral para com os animais que eu já sei que são sencientes.

Em termos gerais, a intenção dessa pergunta é demonstrar que se não soubermos onde traçar o limite numa questão de moralidade, ou se for difícil traçar o limite, então não devemos traçar limite nenhum. Essa forma de raciocinar é inválida. Considere o seguinte exemplo. Existe muita divergência quanto ao escopo e à extensão dos direitos humanos. Algumas pessoas argumentam que a educação e a assistência médica são direitos fundamentais que um governo civilizado deveria proporcionar a todos; outras argumentam que a educação e a assistência médica são mercadorias como qualquer outra, e não um assunto dos direitos, e que as pessoas têm de pagar por elas. Mas creio que todos nós concordaríamos com a ideia de que, sejam quais forem nossas divergências quanto aos direitos humanos—por mais dúvidas que tenhamos quanto a onde traçar o limite—, o genocídio, por exemplo, é moralmente errado. Nós não dizemos que é moralmente aceitável exterminar populações inteiras porque divergimos quanto a se os humanos têm direito à assistência médica. Semelhantemente, nossa dúvida e nossa divergência quanto à senciência das formigas não são um alvará para ignorarmos os interesses dos chimpanzés, vacas, porcos, galinhas e outros animais que sabemos que são sencientes. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • Os humanos que não são sencientes, como aqueles cuja atividade cerebral cessou de maneira irreversível, têm direito a não ser tratados como coisas?

Se um humano realmente não for senciente—não for consciente de absolutamente nada e nunca recobrará a consciência de coisa alguma—então, por definição, esse humano não pode ter interesse em não sofrer (nem em qualquer outra coisa). Numa situação desse tipo, pode-se argumentar de modo convincente que é moralmente aceitável usar os órgãos desse humano para salvar outras pessoas—e é comum fazer isso, se o humano tiver concordado previamente em doar seus órgãos, ou se sua família consentir em fazê-lo.

É claro que devemos nos preocupar quanto a se um humano com uma aparente morte cerebral não tem, realmente, nenhuma atividade cognitiva. Também temos de ser sensíveis às preocupações dos parentes desse humano comatoso; eles podem se opor ao uso instrumental do humano por várias razões, por exemplo, se seguirem uma religião que seja contra o transplante de órgãos. Mas os humanos com morte cerebral irreversível realmente não são diferentes das plantas; eles estão vivos, mas não são conscientes e não têm interesses passíveis de proteção. Não faz sentido dar a esses humanos o direito básico de não ser tratados como recursos alheios. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • Se quisermos tratar interesses semelhantes semelhantemente, nosso reconhecimento de que os animais têm o direito básico de não ser propriedade significa que o aborto também deveria ser proibido?

O aborto suscita várias questões difíceis, particularmente por causa da dimensão religiosa da controvérsia. Muitos daqueles que se opõem ao aborto acreditam que a alma surge no momento da concepção. Essa crença leva algumas pessoas que são contra o aborto a se oporem a qualquer medida que vá interferir com o desenvolvimento subsequente do feto, incluindo o uso de dispositivos intrauterinos ou drogas que previnem a implantação do óvulo fecundado na parede do útero. Para essas pessoas que são contra o aborto, o fato de que um feto ou um óvulo fecundado não é senciente é irrelevante; o feto tem “interesses” espirituais e é considerado um ser moral pleno aos olhos de Deus, tão logo possua uma alma.

Outro fator complicador dentro da discussão sobre o aborto é que, por uma questão cultural, o status de uma grávida de “mãe” e do feto de “bebê” tende a se efetivar imediatamente após a mulher descobrir que está prenhe, particularmente em casos em que a mulher quer ter um filho. Isto é, a partir do momento da concepção, ou do momento da descoberta da concepção, tendemos a pensar no feto como a pessoa humana—o bebê—que esse feto se tornará. Mas essa caracterização não altera o fato biológico de que um óvulo fecundado não tem interesses à maneira do bebê.

Se abordarmos a questão do aborto fora do quadro da religião e das almas, e fora das convenções sociais que caracterizam uma mulher grávida como “mãe” e um feto como “bebê” desde o momento da concepção, torna-se muito mais difícil entender como se pode dizer que os fetos—particularmente em estágios iniciais—possam ter interesses. Embora não se tenha certeza de que algum feto seja senciente, está claro que os fetos em estágios iniciais não são, e portanto eles não têm interesse em não sofrer—eles não podem sofrer. Além disso, não está claro como é que fetos sem senciência possam ter interesse em continuar a existir. Embora um feto normal vá continuar a se desenvolver e vá resultar no nascimento de uma pessoa humana, o feto sem senciência não pode, ele próprio, ter interesse em continuar a existir.

Seres sencientes são aqueles que são conscientes da dor e do prazer; aqueles que têm algum tipo de mente e algum sentido de si. O dano da morte para um ser senciente é que ele não poderá mais ter experiências conscientes. Se você me mata sem dor enquanto eu estou dormindo, você me causa um dano porque me priva de continuar a ter experiências como um ser senciente, experiências essas que eu, em virtude do fato de não ter escolhido me suicidar, desejo ter. E nossa experiência dos outros seres sencientes, aqueles que não são humanos, sustenta, de maneira razoável, a posição de que todos os seres sencientes têm em comum um interesse em continuar a viver—a senciência é meramente um meio para a existência continuada dos organismos capazes de ter experiências mentais de prazer e dor. Nós não podemos comparar, por analogia, um feto a uma pessoa adormecida; o feto nunca foi senciente e portanto nunca possuiu os interesses que são característicos de todos os seres sencientes.

Se alegarmos que um óvulo fecundado não senciente tem interesse na existência continuada simplesmente porque há uma alta probabilidade de em nove meses ele se tornar uma criança com interesses, então estamos comprometidos com a visão de que um óvulo fecundado tem interesse na existência continuada já no momento da concepção. E se pudermos dizer que um óvulo fecundado tem interesse na existência continuada já na concepção, fica difícil entender por que não diríamos, também, que o espermatozoide e um óvulo têm interesse na concepção antes de sua união ocorrer. A principal diferença entre, de um lado, o óvulo fecundado e, de outro, o espermatozoide e um óvulo que ainda não foi fecundado concerne à probabilidade (a probabilidade de um óvulo fecundado eventualmente se tornar um bebê humano é maior do que a probabilidade de um determinado espermatozoide fecundar um óvulo), e nada mais.

Na medida em que se possa dizer, por exemplo, que é “do interesse” do feto que a mulher grávida não fume cigarros, tal asserção não é diferente de dizer que é “do interesse” de um motor ser adequadamente lubrificado, ou de uma planta ser regada. Embora possa ser aconselhável que a grávida não fume se ela tiver interesse em ter um bebê saudável (assim como é aconselhável que ponhamos óleo no motor dos nossos carros ou reguemos nossas plantas), o feto não senciente ainda não tem um bem-estar experiencial, e não prefere, não quer e nem deseja coisa alguma. Na ausência de uma crença religiosa no surgimento das almas nos fetos, é difícil entender por que o aborto de um feto em estágios iniciais seja moralmente objetável, ou como o aborto possa ser considerado um dano a um feto não senciente. Se o aborto de um feto não senciente for moralmente objetável, então também seria objetável o uso dos dispositivos intrauterinos ou das drogas, tais como o RU 486, que evitam que o óvulo fertilizado se prenda à parede do útero. E podemos estar comprometidos com a visão de que um espermatozoide e um óvulo têm interesse em se unir, de forma que o uso de contraceptivos viola os interesses do espermatozoide e do óvulo. De novo: na ausência de um contexto religioso, essas posições parecem completamente insustentáveis.

E se determinarmos que alguns fetos são sencientes? Os fetos em estágio avançado certamente reagem a certos estímulos. Pode ser que esses fetos sejam sencientes e tenham um bem-estar experiencial. Nesse caso, faria sentido dizer que esses fetos têm interesses. Mas, mesmo se aceitarmos que os fetos sencientes têm um direito básico que previne seu tratamento inteiramente instrumental, a questão do aborto apresenta um raro conflito de direitos. Um titular de direitos existe dentro do corpo de outra titular de direitos, e depende dela para a existência mesma que serve como predicado para o feto ter interesses, em primeiro lugar. Esse conflito é único, e a proteção dos interesses fetais implica o perigo da intrusão do estado no corpo da mulher e em seu interesse na privacidade, de uma maneira que nenhuma outra proteção ao direito básico de outra pessoa requer. Se um pai ou uma mãe estiver abusando de sua criança de três anos, o estado pode tirar a criança deles a fim de proteger os interesses dela. O estado não pode proteger os interesses fetais sem se intrometer na autonomia corporal da mulher e forçá-la a continuar uma gravidez indesejada. Mas pode ser que a senciência dos fetos milite a favor de métodos abortivos que sejam seguros para a mulher porém preservem a vida do feto. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • Se nos tornarmos vegetarianos, os animais sofrerão danos inevitáveis quando plantarmos vegetais, e qual a diferença entre, de um lado, criar e matar animais para comida e, de outro, matar os animais sem querer, como parte da produção de safras agrícolas?

Se passarmos de uma produção de comida à base de carnes para uma produção de alimentos à base de plantas, inevitavelmente deslocaremos, e possivelmente mataremos, animais sencientes quando plantarmos vegetais. Entretanto, há com certeza uma significativa diferença entre, de um lado, criar e matar animais para comida e, de outro, prejudicar os animais sem querer, durante a plantação dos vegetais, atividade que é, ela mesma, realizada com a intenção de prevenir a morte de seres sencientes.

A fim de entender este ponto, considere o seguinte exemplo. Nós construímos estradas. Permitimos que as pessoas dirijam automóveis. Sabemos que, estatisticamente falando, quando construímos uma estrada, alguns humanos—que não sabemos de antemão quem são—serão prejudicados como resultado de acidentes automobilísticos. Ainda assim, há uma diferença moral fundamental entre realizar uma atividade que tem o dano ao humano como uma consequência inevitável mas não intencional, e matar intencionalmente determinados humanos. De forma semelhante, o fato de que os animais possam sofrer danos (mesmo se não usarmos produtos químicos tóxicos e mesmo se tomarmos um enorme cuidado para evitar prejudicá-los) como consequência não intencional de plantarmos vegetais não significa que seja moralmente aceitável matar animais intencionalmente.

Uma questão relacionada a essa é: por que as plantas não têm direitos, dado que estão vivas? Essa é a pergunta que todo vegetariano escuta quando está na companhia de comedores de carne. Em outras circunstâncias, esses comedores de carne podem ser seres racionais e inteligentes, mas, quando se deparam com um vegetariano, seu incômodo quanto à sua dieta normalmente vem à tona na forma de um comportamento defensivo.

Ninguém pensa, de verdade, que as plantas sejam o mesmo que não humanos sencientes. Se eu comesse seu tomate e seu cachorro, você não encararia esses atos como semelhantes. Até onde se sabe, as plantas não são sencientes. Elas não são conscientes e capazes de experienciar dor. As plantas não têm sistema nervoso central, endorfina, receptores de benzodiazepina, nem qualquer outro sinal de senciência. As plantas não têm interesses; os animais, sim. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • Não é incoerente valer-se dos remédios ou dos procedimentos desenvolvidos por meio do uso de animais e, ao mesmo tempo, defender a posição dos direitos animais?

Não, não é. Aqueles que apoiam a exploração animal frequentemente argumentam que é incoerente aceitar os “benefícios” do uso de animais mas criticar o uso de animais.

Essa posição evidentemente não faz sentido. A maioria de nós se opõe à discriminação racial e, ainda assim, nós vivemos em uma sociedade em que as pessoas brancas de classe média desfrutam os benefícios da discriminação racial que ocorreu no passado; isto é, a maioria desfruta um padrão de vida que não teria para desfrutar, se tivesse havido, no passado, uma distribuição igualitária, e não discriminatória, de recursos, incluindo educação e oportunidades de emprego. Muitos de nós apoiam medidas, tais como a ação afirmativa,que visam corrigir a discriminação ocorrida no passado. Mas aqueles que se opõem à discriminação racial não são obrigados a deixar os Estados Unidos ou a cometer suicídio porque não podem evitar o fato de que as pessoas brancas são beneficiárias da discriminação que houve contra as pessoas não brancas no passado.

Considere outro exemplo: suponha que fiquemos sabendo que a companhia de abastecimento de água da nossa região emprega crianças, e nós objetemos ao trabalho infantil. Somos obrigados a morrer de desidratação porque a companhia de abastecimento de água optou por violar os direitos das crianças? Não, claro que não. Nós seríamos obrigados a apoiar a abolição desse uso de crianças, mas não seríamos obrigados a morrer. De modo semelhante, devemos nos unir e exigir coletivamente o fim da exploração animal, mas não somos obrigados a aceitar a exploração animal ou renunciar a benefícios que ela possa oferecer.

Certamente poderíamos desenvolver drogas e procedimentos cirúrgicos sem o uso de animais, e muita gente preferiria que fizéssemos isso. Contudo, as pessoas que têm objeções ao uso de animais para esses propósitos não têm controle, enquanto indivíduos, sobre as regulações do governo ou sobre as políticas corporativas concernentes aos animais. Dizer que essas pessoas não podem, coerentemente, criticar as ações do governo ou da indústria, enquanto obtêm benefícios a partir dessas ações, sobre as quais elas não têm controle, é um absurdo em termos de lógica. Em termos de ideologia política, é um endosso dos mais preocupantes da obediência cega às políticas do estado corporativo. De fato, a noção de que devemos ou abraçar a exploração animal, ou rejeitar qualquer coisa que envolva o uso de animais, é sinistramente comparável ao reacionário slogan “América, ame-a ou deixe-a”, bradado pelos pseudopatriotas que criticavam as pessoas contrárias ao envolvimento dos Estados Unidos na guerra do Vietnã.

Além disso, os humanos coisificaram e mercantilizaram tanto os animais, que é praticamente impossível evitar por completo a exploração animal. Os subprodutos animais são utilizados em uma grande variedade de coisas, inclusive no asfalto das estradas e em tecidos sintéticos. Mas a impossibilidade de evitar todos os contatos com a exploração animal não significa que não possamos evitar a formas mais óbvias e graves de exploração. Um indivíduo que não esteja perdido em um bote salva-vidas, ou no topo de uma montanha, tem sempre o poder de evitar comer carnes e laticínios, que são produtos que não poderiam ser feitos sem o uso de animais, ao contrário das drogas e dos procedimentos médicos, que poderiam ser desenvolvidos sem testes em animais. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • É provável que a tentativa de se conseguir um tratamento animal mais “humanitário” leve, eventualmente, ao reconhecimento de que os animais têm o direito básico de não ser tratados como coisas, e à consequente abolição do uso institucionalizado de animais?

Não, não é provável. As leis anticrueldade exigindo o tratamento humanitário dos animais têm sido populares nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha por mais de duzentos anos, e estamos usando mais animais, e de modos ainda mais horripilantes, do que jamais o fizemos. Tem havido algumas mudanças, sem dúvida. Em alguns lugares, como a Grã-Bretanha, os vitelos têm mais espaço e um pouco de interação social antes de ser abatidos; a armadilha de mandíbulas está proibida em alguns estados americanos, e os animais usados para a produção de peles são caçados com armadilhas “acolchoadas” ou criados em pequenas jaulas de arame antes de ser mortos com gás ou eletrocussão. Conforme a Lei (federal) do Bem-estar Animal, os primatas devem receber alguma estimulação psicológica enquanto nós os utilizamos em horrendos experimentos, nos quais os infectamos com doenças ou tentamos apurar quanta radiação eles conseguem suportar antes que as funções de seu organismo fiquem anormais. Algumas práticas, tais como as rinhas, foram declaradas ilegais, mas, conforme já argumentei, essas proibições nos dizem mais sobre hierarquia de classes sociais e preconceito do que sobre nossa preocupação moral com os animais. Pondo tudo na balança, as mudanças que vimos ocorrerem como resultado das leis do bem-estar animal são puramente de fachada.

Isso não deveria nos surpreender. Para as leis anticrueldade, os animais são propriedade dos humanos, e é nesse contexto que o suposto equilíbrio entre os interesses dos humanos e dos animais ocorre. Mas, como vimos, não podemos, realmente, equilibrar os interesses dos proprietários com os de sua propriedade, porque a propriedade não pode ter interesses que sejam passíveis de proteção contra o dono da propriedade. O princípio do tratamento humanitário, conforme aplicado pelas leis do bem-estar animal, exige apenas que os donos da propriedade animal proporcionem a ela aquele nível de cuidado (e não mais) que for necessário ao propósito em particular. Se estivermos usando animais em experimentos, eles devem receber aquele nível de cuidado, e não mais, que for necessário à produção de dados válidos. Se estivermos usando animais que criamos para o propósito de produzir casacos de pele, eles devem receber aquele nível de cuidado, e não mais, que é exigido para a produção de casacos macios e brilhantes. Se estivermos criando animais para comida, esses animais devem receber aquele nível de cuidado, e não mais, que é exigido para a produção de uma carne que possa ser vendida por um determinado preço a fim de suprir uma determinada demanda. Se estivermos usando um cão para tomar conta da nossa propriedade, devemos oferecer o nível de cuidado que é exigido para sustentar o cão para esse propósito. Contanto que demos ao cão o mínimo necessário de comida, água e abrigo—um cão morto não serve ao propósito—podemos prender esse cão com uma correia de um metro e bater nele, mesmo excessivamente, para propósitos “disciplinares”.

Afirmamos que reconhecemos que o interesse dos animais em não sofrer é moralmente significativo, mas nossas práticas envolvendo os animais provam que a nossa afirmação é falsa. Se for para realmente honrarmos os interesses morais dos animais, então devemos abolir a exploração animal institucionalizada, e não meramente regular o uso de animais por meio de medidas bem-estaristas que tomam por certa a legitimidade do status dos animais como propriedade. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • Se os animais têm direitos, isso não significa que teríamos de punir o ato de matar animais do mesmo modo que punimos o ato de matar humanos?

Não, claro que não. É verdade que se nós, como sociedade, atribuíssemos de fato importância moral aos interesses dos animais e reconhecêssemos nossa obrigação de abolir, e não meramente regular, a exploração animal, é muito provável que incorporaríamos essa visão em leis penais que, formalmente, proibiriam e puniriam o tratamento dos animais como recursos. Mas isso não significaria que devemos punir o ato de matar um animal praticado por um humano exatamente do mesmo modo que punimos o ato de matar um humano praticado por outro humano. Por exemplo, nosso reconhecimento de que os animais têm valor moral não exige que processemos por homicídio culposo alguém que, ao guiar de maneira irresponsável, atinja um guaxinim. O litígio contra humanos que matam outros humanos serve a muitos propósitos que não são relevantes para os animais. Por exemplo, as ações penais permitem, às famílias das vítimas do crime, a experiência de alguma forma de conclusão ou “cicatrização”, e embora haja evidência etológica de que muitos animais não humanos experienciam sofrimento com a perda de membros de sua família ou seu grupo, um julgamento penal não faria sentido para eles. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • Se os animais têm direitos, isso não significa que temos de intervir para fazê-los parar de matar outros animais, ou que devemos agir afirmativamente, de outras maneiras, para prevenir que algum tipo de mal chegue até os animais e lhes cause dano?

Não. O direito básico de não ser tratado como uma coisa significa que não podemos tratar os animais exclusivamente como meios para os fins dos humanos—do mesmo modo que não podemos tratar humanos exclusivamente como meios para os fins de outros humanos. Muito embora tenhamos leis prevenindo que as pessoas possuam humanos, ou os utilizem como sujeitos involuntários de experimentos biomédicos, geralmente não exigimos que os humanos previnam o dano a outros humanos em todas as situações. Nenhuma lei exige que Jane previna que Simon cause dano a John, contanto que Jane e Simon não sejam conspiradores em um crime contra John, nem atuem em concerto de alguma outra maneira, e contanto que Jane não tenha um relacionamento com John que crie aquela obrigação.

Além disso, nos Estados Unidos ao menos, a lei geralmente não impõe, aos humanos, nenhuma “obrigação de socorrer”, mesmo quando há outros humanos envolvidos. Se eu estiver andando pela rua e vir uma pessoa desmaiada, com o rosto para baixo, se afogando em uma pequena poça d’água, a lei não me impõe nenhuma obrigação de auxiliar essa pessoa, mesmo se eu só precisar virá-la, algo que posso fazer sem correr riscos ou sem inconveniência séria para mim.

O ponto essencial da questão é que o direito básico dos humanos a não ser tratados como coisas não garante que humanos vão socorrer outros humanos, ou que sejamos obrigados a intervir para prevenir que males partindo de animais ou de outros humanos atinjam humanos. De modo semelhante, o direito básico dos animais a não ser tratados como coisas significa que não podemos tratar os animais como nossos recursos. Isso não quer dizer, necessariamente, que tenhamos a obrigação moral ou legal de ajudá-los ou de intervir para prevenir que males cheguem até eles. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • A questão de determinar se o direito básico a não ser tratado como nosso recurso deveria ser dado aos animais não é uma questão de opinião? Que direito alguém tem de dizer que as outras pessoas não devem comer carne ou outro produto animal, ou de dizer de que outras maneiras as pessoas devem usar ou tratar os animais?

A questão dos direitos animais, como qualquer outra questão moral, não é uma questão de opinião. Essa pergunta é indistinguível, lógica e moralmente, da pergunta sobre a moralidade da escravidão humana ser, ou não, uma questão de opinião. Nós decidimos que a escravidão é moralmente repreensível não por uma mera questão de opinião, mas porque a escravidão trata humanos exclusivamente como recursos alheios e os degrada à condição de coisas, privando-os assim de importância moral.

A noção de que os direitos animais são uma questão de opinião está diretamente relacionada ao status que os animais têm de propriedade dos humanos; essa pergunta, assim como a maioria das outras aqui examinadas, toma por certa a legitimidade de se considerar os animais como coisas que existem apenas como meios para os fins dos humanos. Como consideramos os animais nossa propriedade, acreditamos ter o direito de determinar seu valor do modo que julgarmos adequado. No entanto, se não tivermos justificação moral para tratar os animais como nossa propriedade, então a questão de determinar se devemos comer carne, ou usar animais em experimentos, ou lhes impor dor e sofrimento por esporte ou entretenimento não é uma questão de opinião, da mesma forma que o status moral da escravidão humana também não é uma questão de opinião.

Além disso, enquanto os animais forem tratados como propriedade, continuaremos pensando que o que constitui um tratamento “humanitário” da sua propriedade animal é realmenteuma questão de opinião, porque é você quem decide quanto sua propriedade vale. Da mesma forma que temos opiniões quanto ao valor das outras coisas que possuímos, podemos ter opiniões quanto ao valor da nossa propriedade animal. Embora possamos dar à nossa propriedade um valor alto demais ou baixo demais em relação ao seu valor de mercado, essa questão geralmente não é considerada uma questão moral. Então, quando Jane critica Simon por bater em seu cão regularmente a fim de garantir que ele seja um cão de guarda feroz e eficiente, é perfeitamente justificável, para Simon, responder a Jane que a avaliação que ela faz da propriedade dele não é uma questão moral onde “qualquer um pode pôr a mão”, mas uma questão de direitos dele à propriedade.

Num outro nível, essa questão está ligada a um assunto discutido na Introdução: a posição de que toda moralidade é relativa, uma questão de convenção, conveniência ou tradição, sem nenhuma pretensão válida à verdade objetiva. Se esse fosse o caso, então a moralidade do genocídio, da escravidão humana ou do abuso sexual infantil não passaria de uma questão de opinião. Embora seja verdade que as proposições morais não possam ser provadas à maneira das proposições matemáticas, isso não significa que “vale tudo”. Algumas visões morais são sustentadas por razões melhores do que outras, e algumas “combinam” melhor com outras visões que já temos. A visão de que podemos tratar os animais como coisas, simplesmente porque somos humanos e eles não, é especismo puro e simples. A visão de que não devemos tratar os animais como coisas é coerente com nossa noção geral de que os animais têm interesses moralmente significativos. Não tratamos nenhum humano exclusivamente como recurso dos outros; já abolimos a instituição da propriedade humana. Vimos que, para os propósitos do direito a não ser tratado como uma coisa, não há nenhuma razão moralmente sólida para tratarmos os animais diferentemente dos humanos; e que a posição dos direitos animais não significa que não possamos preferir o humano ao animal em situações de real emergência ou conflito, onde o conflito não tenha sido fabricado por nós mesmos ao violarmos o princípio da igual consideração. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • A posição dos direitos animais não representa um ponto de vista “religioso”?

Não, não necessariamente, embora a ideia de que não devemos tratar os animais como coisas esteja, de fato, presente em alguns sistemas religiosos majoritariamente não ocidentais, como o jainismo, o budismo e o hinduísmo. A ironia é que a noção da superioridade humana, usada para justificar práticas como a criação animal, a vivissecção e outras, frequentemente representa uma posição religiosa. De um modo geral, a tradição judaico-cristã não apenas endossou a visão dos animais como coisas, mas também constituiu um apoio fundamental às noções da superioridade humana em relação aos animais e do direito humano ao uso dos animais como recursos. Vimos, por exemplo, que a noção ocidental moderna de que os animais são propriedade vem diretamente de uma determinada interpretação do Velho Testamento, segundo a qual Deus criou os animais como recursos para o uso humano. Com frequência, a base para os argumentos a favor das distinções qualitativas entre os humanos e os animais não tem passado de uma suposta superioridade concedida aos humanos por Deus, a qual, por sua vez, se baseia na sorte que os humanos tiveram de ser feitos “à imagem de Deus”.

A posição dos direitos animais articulada neste livro não se apoia em nenhuma crença teológica; ela requer apenas uma simples aplicação do princípio da igual consideração. Os humanos não possuem de modo exclusivo nenhuma característica especial, nem estão livres de nenhum defeito que atribuem aos animais. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • É claro que a quantidade de sofrimento animal incidental ao uso que fazemos dos não humanos é horrenda, e não deveríamos estar usando animais para propósitos “frívolos”, por exemplo, o entretenimento. Mas como você pode esperar que as pessoas desistam de comer carne?

Sob vários aspectos, esta é uma questão apropriada para concluir nossa discussão porque a pergunta, em si, revela mais sobre a história da relação humanos/animais do que qualquer teoria, e demonstra nossa confusão quanto às questões morais em geral.

Muitos humanos gostam de comer carne. Eles sentem tanto prazer comendo carne que acham difícil manter-se neutros quando consideram as questões morais acerca dos animais. Mas a análise moral requer, no mínimo, que não deixemos nossas tendências óbvias interferirem. A criação animal destinada a comida é a mais significativa fonte de sofrimento animal no mundo atualmente, e é absolutamente desnecessária. De fato, a criação animal tem efeitos devastadores sobre o ambiente, e um número crescente de profissionais da saúde tem afirmado que a carne e os outros produtos de origem animal são prejudiciais à saúde humana. Poderíamos viver sem matar animais e seríamos capazes de alimentar ainda mais humanos—os seres com os quais sempre dizemos nos preocupar quando procuramos justificar a exploração animal—se abandonássemos completamente a criação animal.

O desejo de comer carne obscureceu algumas das melhores mentes da história da humanidade. Charles Darwin reconhecia que os animais não eram qualitativamente diferentes dos humanos e possuíam muitas das características que haviam sido vistas como exclusivamente humanas—mas ele continuou a comê-los. Jeremy Bentham argumentava que os animais tinham interesses moralmente significativos porque podiam sofrer, mas também continuou a comê-los.

É difícil abandonar velhos hábitos, mas isso não quer dizer que eles sejam moralmente justificáveis. É precisamente nas situações em que questões morais e fortes preferências pessoais entram em jogo que devemos tomar mais cuidado para pensar com clareza. Mas, como mostra o caso da carne, às vezes são nossas preferências brutais que determinam nosso pensamento moral, e não o inverso. Já ouvi isto de muita gente: “Sim, eu sei que é moralmente errado comer carne, mas simplesmente adoro hambúrguer”.

Lamentavelmente para aqueles que gostam de comer carne, isso não é um argumento, e ter um fraco por carne não justifica, de modo algum, a violação de um princípio moral. Nossa conduta meramente demonstra que, apesar do que dizemos sobre a importância moral dos interesses dos animais, estamos dispostos a ignorar esses interesses sempre que isso nos beneficia—mesmo quando o benefício não passa do nosso prazer ou conveniência.

Se levarmos a moralidade a sério, temos de encarar de frente o que ela dita: se é errado Simon torturar cães por prazer, então é moralmente errado comermos carne. (por Gary L. Francione, trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?)

  • Os veganos são radicais?

Em um certo sentido todas as pessoas do mundo são radicais. A maioria de nós é radicalmente contra a violência, radicalmente contra o abuso infantil, a injustiça… Não há nada de errado em ser radical em questões que julgamos justas.

O contrário de ser radical é ser moderado. Mas será que é sempre certo sermos moderados? Que imagem devemos ter de uma pessoa que tenha uma visão permissiva em relação a questões como a escravidão, o estupro e tantas outras?

Sim, veganos são radicais porque não aceitam de forma alguma a exploração animal, assim como não aceitam de forma alguma a exploração humana. Não aceitar significa fazer algo a respeito, mesmo que isso signifique questionar o modo de vida que estamos acostumados a ter. (por Leonardo Mendel)

Resposta 2

O veganismo é dito como algo radical pela maioria das pessoas, isto acontece porque elas pensam que animais são inferiores e podem ser usados para suprir nossas vontades. Ser a favor dos gays ou da igualdade das mulheres também é radical para quem tentam justificar que tais coisas são erradas ou algum tipo de pecado. O vegano pensa exatamente o contrário, é radical a maioria da sociedade que tem acesso a informação ainda matar animais e tratá-los como objetos quando não necessita mais disso. A ética animal não é extremista, ela é razoável e podemos aplicá-la. Só se atribui o rótulo de radical a fim de desmerecê-la, porque para sermos veganos precisamos mudar nossos hábitos e sairmos da zona de conforto. (por Julio Cesar Prava)

Falácias

Uma falácia é um argumento que contém falha lógica mesmo parecendo correto, o que significa que ela se baseia em um erro de raciocínio. Os alicerces para estas ideias vêm de uma variedade de fontes, mas o resultado é o mesmo: as pessoas escolhem não desafiar as suas concepções erradas mesmo que estas concepções se revelem falsas sob escrutínio.

  • Os animais não importam porque não são suficientemente inteligentes
Falácia
Os animais não são tão intelectual ou emocionalmente sofisticados como os seres humanos e/ou não sentem dor da mesma forma que nós, portanto é aceitável matá-los e comê-los.
Resposta
Todos os animais podem ser intelectual e emocionalmente sofisticados relativamente à sua espécie, e muitos têm pensamentos e emoções mais complexos do que os das crianças ou dos deficientes mentais. Além disso, não é lógico ou imparcial negar considerações éticas a indivíduos que imaginamos que pensam ou sentem de uma forma diferente da nossa.
Defendemos os direitos básicos de humanos que não alcançam certos padrões intelectuais ou emocionais, por isso é lógico que devamos defender esses direitos para todos os seres sencientes. Negá-los a animais não-humanos é puro especiesismo, e, portanto, indefensável. Para além disso, é problemático manter a opinião de que a inteligência e capacidade emocional existem numa escala linear em que os insetos ocupam uma das extremidades e os humanos ocupam a outra. Por exemplo, as abelhas são peritas na linguagem da dança e comunicam muitas coisas através dela. Deverão os humanos que não conseguem comunicar através da dança interpretativa serem considerados menos inteligentes do que as abelhas? Finalmente, mesmo se um padrão intelectual ou emocional fosse justificativa para matar um ser senciente, não existe nenhuma base científica que sustente que a capacidade para a inteligência ou emoção seja equivalente à capacidade de sofrer. De fato, há um grande suporte científico que sugere o contrário, que como os animais não-humanos não possuem a capacidade de contextualizar o seu sofrimento como os humanos, o seu sofrimento é muito maior. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • É um absurdo numa ética que inclua os animais
Falácia
É absurdo falar de ética para os animais. Animais não compreendem ética. ‘Direitos’, ‘obrigações’ e ‘moral’ são conceitos de seres humanos para seres humanos. Aplicá-los aos animais não faz sentido.
Resposta
O argumento acima toma uma definição como se ela fosse autojustificada e, portanto, incontestável. Mas o que temos aqui é a chamada “falácia da definição”: converter afirmações normativas e valorativas (pró- Homo sapiens neste caso) em matéria de definição, supondo estar dispensada da necessidade de justificação moral. Desse modo, a questão da aceitabilidade e inevitabilidade do antropocentrismo moral é simplesmente transformada na questão da aceitabilidade e inevitabilidade de sua definição. Esse passo é filosoficamente ilegítimo porque suas suposições não estão imunes à contestação ou problematização.
Podemos entender esse ponto de outro modo. Compare o que seriam as regras de aceitação dos membros da comunidade moral com as regras para membros dos outros clubes sociais que normalmente conhecemos. É claro que alguém pode fundar um clube privativo formado apenas, digamos, por pessoas de origem ariana. Mas se você disser que apenas homens altos, de cabelos loiros e olhos azuis podem ingressar numa comunidade (“clube”) moral, você deverá explicar o porquê dessa regra restritiva, ou será acusado de discriminação preconceituosa (racista neste caso). É precisamente disso que trata a Ética.
O fato de uma idéia se originar apenas entre humanos é logicamente independente da abrangência da aplicação dessa idéia. Ou seja, “apenas humanos têm uma ética” é uma coisa; “a ética se aplica apenas aos humanos” é outra. Considere a seguinte analogia: a idéia de “genes” só surge entre a comunidade humana – ratos não compreendem nem falam sobre genética. Mas não são apenas os humanos que dispõem de genes – ratos também os têm. Seria correto afirmar que ratos não têm genes (ou direitos morais) porque ratos não pertencem a uma comunidade na qual a concepção de genética (ou de moralidade) surge? Em suma, há uma diferença crucial entre, de um lado, as condições de formação de conceitos e, de outro, as condições de aplicação desses conceitos. O Argumento Conceitual confunde ambas.
O argumento descrito comete também a chamada “falácia modal”: transforma uma equivalência contingente numa necessidade lógica. Mas não há nada nos conceitos morais que exija restringir sua aplicação aos seres humanos a fim de que possam continuar a serem aplicados às pessoas. Isso significa que seria concebível que criaturas zoologicamente diferentes dos humanos possam ser semelhantes a eles nos aspectos moralmente relevantes. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Animais comem animais, assim como eu
Falácia
Porque lobos e outros predadores comem animais, e pelo fato de seres humanos também serem animais, é OK para nós humanos comermos animais.
Resposta
Outros animais não humanos fazem várias coisas que nós consideramos antiéticas; eles roubam, estupram, comem suas crias e engajam em uma série de outras atividades que não são e nem deveriam ser utilizadas como fundamentos lógicos para o nosso comportamento. Isso significa que é ilógico argumentar que nós devemos seguir a mesma dieta que outros animais não humanos possuem. Logo, é provavelmente inútil considerar o comportamento de jacarés, furões e outros predadores como modelos para o nosso próprio comportamento.
Argumentar que o comportamento humano deve se basear em comportamentos de outros animais é bastante vago, pra começar. Mas se formos seguir esse raciocínio, por que não escolhermos exemplos tais como os do hipopótamo e o da girafa em vez de tubarões, shitas e ursos? Por que não nos compararmos então com urubus e passarmos a comer carniça na beira da estrada? Por que não comparamos nós mesmo com besouros rola-bosta e passarmos a nos alimentar de bolas de fezes secas? O fato é que humanos são um caso especial no reino animal, esse é o motivo. Da mesma forma são abutres, cabras, elefantes e grilos. Cada um representa uma espécie com necessidades e capacidades de escolhas diferentes e individuais. Claro que humanos são capazes de um alto grau de raciocínio, mas essa característica apenas deveria nos tornar ainda mais sensíveis aos aspectos morais das nossas atitudes perante outros animais não humanos. E, ainda que tenhamos a capacidade de matarmos e comermos outros animais, isso não é necessário para a nossa sobrevivência. Nós não somos leões e nós sabemos que não existe justificativa para tiramos a vida de outro ser vivo a não ser a de satisfazer nossas próprias preferências gastronômicas pessoais. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
Resposta 2
A natureza dos animais não humanos serve de base para outras tentativas de justificação do tratamento que lhes infligimos. É frequentemente afirmado, como objecção ao vegetarianismo, que tendo em conta que outros animais matam para comer, também nós podemos fazer isso. Esta analogia estava já ultrapassada em 1785, quando William Paley a demoliu ao referir-se ao fato de os seres humanos poderem viver sem matar e os outros animais terem de o fazer para sobreviver. Isto é verdadeiro em relação à maioria dos casos; é possível apontar algumas excepções – animais que poderiam sobreviver sem comer carne, mas que o fazem ocasionalmente, como os chimpanzés, por exemplo – mas não são estas as espécies que habitualmente encontramos nos nossos pratos. De qualquer forma, mesmo que outros animais que podem viver com uma dieta vegetariana por vezes matem para comer, isso não apoiaria a afirmação de que o mesmo é moralmente defensável em relação a nós. É estranho que os humanos, normalmente considerando-se superiores aos outros animais, recorram (se isso legitimar as suas preferências alimentares) a argumentos que impliquem olhar para os outros animais em busca de orientação e inspiração moral. Claro que o que está em causa é que os não humanos não são capazes de considerar as alternativas ou de refletir em termos morais sobre a correção ou incorreção de matar para comer – fazem-no, simplesmente. Podemos lamentar que o mundo seja assim, mas não faz sentido responsabilizar moralmente ou culpabilizar os animais por aquilo que eles fazem. Pelo contrário, qualquer leitor deste livro é capaz de fazer uma escolha moral sobre esta matéria. Não podemos fugir à responsabilidade da nossa escolha imitando seres que são incapazes de fazer este tipo de escolha. (por Peter Singer, trecho do livro Libertação Animal)
  • Na natureza os mais fracos são eliminados
Falácia
Na natureza os mais fracos são eliminados. Um animal não respeita o outro. Pelo contrário, eles se matam. O mundo é constituído de predadores e presas, e nós, como mais um predador, estamos no topo da cadeia alimentar. Sendo o predador mais poderoso, temos o direito de explorar as outras criaturas.
Resposta
Este argumento sugere que imitemos a conduta dos animais. Ora, na natureza, os animais tomam a comida uns dos outros. Isso significa que não é errado uma pessoa roubar a comida de outra? Na natureza, os animais algumas vezes também matam e comem humanos. Segue- se daí que podemos imitá-los nisso também, matando e comendo outras pessoas? A resposta é sim, se formos adotar o comportamento de animais como um modelo para o comportamento humano.
Este argumento sugere que imitemos a conduta dos animais. Ora, na natureza, os animais tomam a comida uns dos outros. Isso significa que não é errado uma pessoa roubar a comida de outra? Na natureza, os animais algumas vezes também matam e comem humanos. Segue- se daí que podemos imitá-los nisso também, matando e comendo outras pessoas? A resposta é sim, se formos adotar o comportamento de animais como um modelo para o comportamento humano.
É verdade que muitos animais matam e comem uns aos outros. Mas a maioria dos animais que matam o fazem para se alimentar. Eles não poderiam sobreviver se não o fizessem. Eles não têm escolha: ou matam ou morrem de fome. Para aqueles de nós que vivem em sociedades agrícolas modernas, este não é o caso. Não precisamos matar animais para sobreviver. Ocupamos o topo da cadeia alimentar precisamente porque escolhemos comer animais. Se escolhêssemos não mais comê-los, deixaríamos de ocupar tal posição.
Já que um dos principais traços que nos separa dos outros animais é exatamente a nossa capacidade moral, seria absurdo buscar uma orientação moral no comportamento – amoral – deles. Os animais (a imensa maioria pelo menos) não podem evitar seu comportamento natural, nem podem prever o resultado desse comportamento. Isso significa que esses animais não são agentes morais. Eles não podem empreender uma ação à luz de princípios morais, a ponto de torná-la ética ou antiética. Falar em agir eticamente implica poder tomar decisões, manejando intenções e desejos. Já que os animais não são capazes disso, eles não podem servir de modelo de conduta para nós: “[…] como agentes morais, nós fazemos escolhas morais conforme os princípios do certo e errado, e não precisamos agir simplesmente por instinto no que tange à nossa conduta alimentar. Justificar comer carne [apelando para o Argumento Ecológico] equivale a ignorar totalmente nossa natureza moral. Podemos moldar nossa natureza de acordo com o certo e errado e, de qualquer modo, isso não nos obriga a comer carne para viver ou viver bem.
Há muitos animais que não matam outros, os chamados herbívoros e frugívoros. Esses incluem os chimpanzés, os mais próximos de nós na cadeia da evolução. Por que não tomamos esses animais como exemplo de comportamento, em vez dos animais carnívoros?
Pensar que “a competição entre as espécies” é a lei básica da evolução é enganador: a competição relevante para a seleção natural (aquela que mata e produz mudanças genéticas) ocorre principalmente dentro das espécies, e não entre elas.
Em outras palavras, a noção de competição não fornece uma justificativa ampla para o que temos usualmente feito aos animais. Nossos interesses mais urgentes não estão tão ameaçados assim. Evidentemente, há casos em que a competição entre humanos e as outras espécies é inevitável e drástica: por exemplo, “pragas” de lavouras, como insetos, roedores, pássaros e até elefantes poderiam ser mortos se isso fosse necessário para que as pessoas sobrevivessem à fome. Mas a competição na natureza, como lei natural, não é uma justificativa para que eliminemos a maioria das outras espécies. Nossas relações com a maior parte dos animais não são relações de competição, isto é, relações de “vida-oumorte”, onde é a nossa sobrevivência que está em risco. De qualquer modo, uma infinidade de animais que matamos (como galinhas, porcos e vacas) não são nossos rivais nessa competição, já que não utilizam os mesmos recursos limitados e necessários à sobrevivência humana.
Conforme a teoria da seleção natural, duas espécies estão em competição se elas estiverem usando os mesmos recursos limitados. Nesse caso, se nada se alterar, uma das duas espécies competidoras irá conseqüentemente desaparecer. Mas, mesmo quando uma espécie vence outra nessa competição, isso ocorre por meio da melhor adaptação ao ambiente e à escassez de recursos – e não pela destruição agressiva do outro competidor a fim de se apoderar violentamente dos recursos sob disputa. Uma espécie sobrevive geralmente, não porque mata seus rivais, mas porque aprende a usar alguma coisa diferente ou aperfeiçoa o uso daquilo que já possui. Por exemplo, um animal que vive numa área desértica aprende a tornar mais eficiente o uso da pouca água disponível. Por essa mesma razão, a espécie humana também não precisa matar outros animais (nossos supostos competidores) a fim de aumentar os recursos disponíveis.
Do fato de que membros de uma mesma espécie sejam rivais naturais por alimento, território e fêmeas, não se segue que os indivíduos mais agressivos terão mais sucesso na natureza. Stephen Clark observa: “Em testam suas forças de modo a não causarem danos graves a outros. Eles muitas vezes não usam suas armas mais poderosas contra seus rivais, e os derrotados aceitam sua sorte”. Note que um lobo geralmente não mata, mas poupa seu rival derrotado. “Ele deseja estabelecer sua posição superior, e isso ele faz. Nós não precisamos supor que o lobo quer matar seu rival, mas desaprova esse querer e, conseqüentemente, se contém. É provavelmente melhor supormos que qualquer desejo de matar que ele possa ter simplesmente evapora quando seu rival derrotado renuncia à luta.” Obviamente isso não provaria que os lobos dispõem da virtude da compaixão, mas simplesmente mostra que esse animal prefere um tipo de ação (que contradiz o que supõe o Argumento Ecológico) a outro que poderia ter preferido.
É certo que o sofrimento faz parte da vida. Mas isso não nos autoriza a redistribuí-lo pelo mundo. Ademais, há uma diferença fundamental, em termos morais, entre infligir dor deliberadamente e não intervir para evitar/ reduzir o sofrimento que ocorre naturalmente. A questão aqui é: o fato de que você é incapaz de impedir todo o sofrimento no mundo significa que você não precisa tentar não causar dor nos outros (e em você mesmo)? É claro que não. Isso também vale em relação à morte. Mesmo que seja natural e inevitável que todos animais e humanos morram algum dia, isso não significa que você deve se suicidar, nem lhe dá o direito de matar os animais e pessoas que encontrar pela frente.
Os animais não “acreditam” na ecologia. Eles não entregam suas vidas voluntariamente para que se cumpra a imponente Lei da Natureza. Nem o mais convicto dos ecologistas age assim. Qualquer animal (humano e não-humano) se lança por inteiro na luta por sua própria vida individual, com todas suas forças, sem nenhuma reserva, mostrando por meio dessa luta que recusa o sofrimento e a morte. Isto é, ratos, porcos e você leitor dão mais importância à experiência concreta da dor/morte que ameaça seus corpos do que a ordem ecológica de que tomam parte. Tudo isso indica que há uma diferença moral crucial entre o sofrimento (metafísico), como traço existencial de todas as formas de vida animal, e o sofrimento (concreto) que resulta quando um animal se encontra em uma determinada situação dolorosa.
De fato, você mesmo confirma isso cada vez que sai de casa para consultar o seu médico. E quando seu filho adoece, você leva-o ao pediatra ou o deixa morrer, já que é a implacável e sábia “lei da sobrevivência” que está em funcionamento? Note que a tarefa da medicina é manter vivas as pessoas que não foram “selecionados naturalmente”. Então, seguindo o Argumento Ecológico, a medicina não deveria ser usada: as pessoas doentes deveriam ser abandonadas para morrer, porque isso estaria de acordo com a ordem natural das coisas. Conforme o Argumento Ecológico, deveríamos deixar os mais fracos e incapazes serem eliminados, como quer a Natureza. E se não pensamos assim quando se trata de humanos, por que adotar essa justificativa quando se trata de animais?
A resposta para isso é: discriminação preconceituosa.
Este argumento supõe que algo é correto por ser natural. Quem adota esse argumento provavelmente pensa que uma ética voltada aos animais está propondo, indevidamente, a repressão de um comportamento natural do ser humano, qual seja, o de ser um caçador/coletor.66 Mas há vários outros modos de “comportamento natural” que condenaríamos em nós mesmos e nos outros: satisfação desmedida dos apetites sexuais (p.ex., sobre a mulher do nosso vizinho), pegar qualquer coisa que se deseje (o carro do nosso vizinho), caçar qualquer coisa que se mova (o cão do nosso vizinho) e atacar uma pessoa durante um acesso de fúria (o próprio vizinho). Sem a repressão desses “comportamentos naturais” não teríamos o que chamamos hoje de civilização.
Admitamos por um momento que o comportamento agressivo entre os animais (humanos e não-humanos) seja mesmo natural, no sentido de que, seguindo a trilha evolucionária, resultou da adaptação dos indivíduos às necessidades de sobrevivência no mundo.67 Ora, isso não significa que a Ética deve consentir com a agressividade. Isso não implica que a violência não deva ser controlada pela reflexão moral.
Podemos entender essa questão por intermédio de outras condutas humanas que também seriam “naturais”. Por exemplo, nas sociedades primitivas, os machos são os caçadores, os guerreiros e os que decidem. As fêmeas permanecem em casa e são submissas aos machos. Essa forte tendência (de dominação masculina – os homens no comando e as mulheres obedientes cuidando dos bebês em casa) ainda continua em muitas sociedades urbanas atuais, e parece ter uma origem genética. Portanto, quem defende a autonomia das mulheres está indo contra a própria natureza das coisas? Se a dominação masculina está em nossos genes, a causa feminista não tem sentido? Não devemos desejar que as mulheres se emancipem? Quem pensa assim comete dois enganos:
1 Devemos distinguir potencialidade e determinismo. O nosso comportamento potencial é que é circunscrito pela nossa biologia, genética ou seleção natural. Não somos escravos de forças genético-ambientais, nem neurológicas ou bioquímicas. A biologia de um modo geral pode influir no que as pessoas pensam sobre o justo, mas algo completamente diferente é afirmar que a biologia ou a ecologia determinam o que é o justo. No caso mencionado, a dominação masculina é apenas uma das várias formas de organização social consistentes com o que nossos genes permitem. A dominação masculina não é um imperativo genético.
2 Suponhamos que fosse verdade que a dominação masculina é uma decorrência inevitável da natureza humana. Disso se segue que a denúncia de seus males é falsa? De fato, é importante conhecermos as “leis da natureza” para podermos avaliar as conseqüências dos nossos atos, mas isso não significa que um ato natural seja correto. No nosso exemplo, a crítica feminista ainda permanece correta ao afirmar que as vidas das mulheres se tornam empobrecidas ao serem destinadas a um status social inferior, e que, portanto, devemos rechaçar e tentar minimizar os efeitos do machismo. O que se seguiria, no máximo, é que a dominação masculina não pode ser erradicada. Pense na seguinte analogia: suponhamos que descobríssemos que uma determinada doença é incurável. Saber disso não implicaria em estarmos obrigados a considerar essa doença como algo bom, tampouco ter que parar com nossos esforços para aliviar o sofrimento das vítimas dessa doença.
Em suma, o Argumento Ecológico comete a seguinte “falácia genética”: explicar biologicamente, digamos, o comportamento polígamo dos homens (em maximizar a proliferação dos seus genes por meio de mais de uma fêmea) não significa justificar eticamente o adultério, chamando-o de “natural”. Ou explicar biologicamente porque damos maior atenção aos membros da nossa própria raça não equivale a autorizar o racismo em termos morais.
E haveria ainda o problema suplementar de que divulgar, por exemplo, que adultérios são inevitavelmente induzidos por impulsos bioquímicos ou de seleção natural induziria futuros adultérios – que de outra maneira não ocorreriam: “Chamar coisas passadas de inexoráveis torna maior o número de coisas futuras inexoráveis. Dizer às pessoas que não são culpadas de erros passados é tornar prováveis erros futuros.
Enfim, ainda que uma concepção moral do tipo sociobiológico seja capaz de contribuir para nossa compreensão dos fenômenos morais, ela não pode dar conta da Ética no seu âmago. Podemos admitir que uma taxa maciça de sofrimento e morte no mundo atenda eficientemente aos propósitos da natureza. Podemos até mesmo aceitar que a psicologia evolucionista seja capaz de explicar biologicamente como surgiram as tendências (de grande efeito prático) para o bem e o mal na espécie humana. 70 Mas isso não significa que o progresso ético da sociedade e o que chamamos de bem e de mal devam imitar a natureza. Tampouco nos priva da indignação moral ao nos sentirmos maltratados e desrespeitados pelos outros. Por essa razão, a biologia não é capaz de nos esclarecer se um determinado comportamento é bom ou mau em termos morais. Uma concepção evolucionária é inútil para nos oferecer uma orientação do agir. Ou seja, ela é inútil para a Ética.
Ocorre que, pensando como crianças, tomamos por necessários alguns fatos que são contingentes. Quando somos muitos jovens, consideramos que a posição que ocupa nossa família é necessariamente o centro do universo. Mais tarde, supomos que a posição superior da nossa espécie se encontra também cosmicamente garantida. Cremos que, em todos mundos possíveis, nos situamos na cúspide da árvore biológica. Com efeito, se pensarmos que a nossa relação com outras espécies obedece à maneira como as coisas (necessariamente) têm que ser, não faz sentido que nos questionemos sobre a ética de tal relação.
Ao não reconhecermos que é por pura casualidade que ocupamos o ápice na hierarquia de poder na escala ecológica, nossa consciência moral se detém nos limites da espécie humana. Por não ponderarmos que poderíamos ser nós a ocupar um lugar inferior na escala de dominação das espécies, não refletimos sobre nossa conduta para com os animais. Em outras palavras, não nos fazemos a seguinte pergunta: como seria se estivéssemos na mesma situação em que os animais se encontram em relação a nós? Ao não admitirmos a casualidade e contingência da nossa situação biológica no planeta, enquanto Homo sapiens, nos esquivamos das conseqüências morais que teríamos que tirar daí.
Ora, a natureza fez com que a espécie humana fosse a dominante. Até aí, sorte nossa. Mas imaginemos um cenário envolvendo extraterrestres inteligentes, no qual seriam os alienígenas que enfrentariam questões éticas a respeito de como tratar os humanos, cabendo a nós então sofrer uma situação de espécie subjugada. Agora devemos perguntar: se a natureza do universo fosse tal que os ETs pudessem aterrissar aqui e nos dominar, a lei “o mais forte domina o mais fraco” continuaria a dar uma fundamentação ética para o agir? Imagine também que esses extraterrestres invasores pretendessem realizar experiências médicas com o objetivo de beneficiar eles próprios. Suponhamos que eles tivessem a intenção de vender humanos para diversos fins, sendo que algumas pessoas seriam usadas como animais de companhia e a maioria delas acabasse em matadouros:
“Nosso especismo instintivo vacila quando contemplamos qual seria nossa situação se estivéssemos no lado perdedor da dominação exercida por outra espécie. Só nos permitimos considerar essa contingência em determinados contextos imaginários isolados, mas não no modo da dura realidade moral e política. É significativo que esses contextos, de maneira típica, impliquem horror, medo e perda de controle. Em sua maior parte os contemplamos hoje no cinema. Estou me referindo, naturalmente, às películas de ficção científica e de horror. Nelas se exploram alternativas imaginárias à nossa supremacia biológica.” (por Carlos Naconecy, trecho do livro Ética & Animais: Um guia de argumentação filosófica)
  • Ser um ambientalista não-vegano já é o bastante
Falácia
O veganismo não promove um impacto grande no planeta, então é bom o bastante ser um ambientalista sem precisar ser vegano.
Resposta
Entre 18% e 51% das emissões de gases do efeito estufa são diretamente atribuídas à respiração do gado, metano, manufatura de produtos animais e outras fontes relacionadas, isso comparado aos 13% de todos os meios de transporte no planeta combinados. O Agronegócio também utiliza e polui quase metade da terra disponível no planeta e é responsável por mais de 90% do desmatamento da Floresta Amazônica, além de ser o principal contribuidor para a destruição de habitat da vida selvagem e ser a causa primária da extinção de espécies e da criação de zonas mortas nos oceanos. Por fim, enquanto a perfuração para extração de petróleo e gás natural consome até 140 bilhões de litros de água doce anualmente somente nos Estados Unidos, a pecuária consome pelo menos 34 trilhões de litros de água doce anualmente.
A maioria dos problemas ambientais com os quais lidamos hoje é diretamente causada pelo agronegócio animal, e a solução mais efetiva para esses problemas é a adoção de um estilo de vida vegano. Um ano de veganismo salva cerca de 725 mil litros de água doce, o que equivale a 66 anos de uso de chuveiro. Ao escolher um estilo de vida vegano, com uma dieta de base vegetal, a emissão de dióxido de carbono individual é automaticamente reduzida em 50%, uilizam-se 91% menos petróleo, 92% menos água e 89% menos terra. A cada dia um único vegano salva mais de 1000 litros de água doce, 20 quilos de cereais, 3 metros quadrados de florestas, 9 quilos de CO2 e a vida de pelo menos um animal. Então se você quer fazer sua parte para a Terra ou se você se considera um ambientalista, o único curso de ação adequado é a adoção de um estilo de vida vegano com sua dieta de base vegetal. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Dentes caninos fazem de mim carnívoro(a)
Falácia
Humanos desenvolveram dentes caninos para cortar carne, e isso demonstra que é natural e normal para nós comermos carne.
Resposta
Quando nós humanos comemos carne, nós não a cortamos com os nossos caninos. Em vez disso, nós cozinhamos a carne para amaciá-la e depois a cortamos com utensílios de cozinha específicos. Só então nós a mastigamos com os nossos dentes e, para isso, utilizamos nossos molares, dentes que são especialmente adaptados para alimentação herbívora.
Usar a dentição como um indicador da dieta é pouco fiável. Cães e gatos domésticos têm estruturas dentais semelhantes, mas os gatos são carnívoros obrigatórios e os cães podem ser veganos. Os gorilas são herbívoros com longos caninos. Os nossos próprios dentes estão mais próximos dos dentes dos herbívoros do que dos carnívoros, mas temos a capacidade de digerir a carne e as secreções de outras espécies, o que significa que podemos fazer a escolha entre comer plantas, animais, ou ambos. É evidente que a dentição das espécies não determina de forma confiável os seus requisitos alimentares. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Comer laticínios não é antiético
Falácia
Produzir leite é uma atividade normal e natural que não causa nem morte nem sofrimento à vaca. Logo, comer laticínios não é uma questão que envolve Ética.
Resposta
Sofrimento e morte são componentes necessários na produção de leite atual. Vacas são anualmente forçadas a engravidarem para produzirem leite, o que significa que mais de 200.000.000 (duzentos milhões) de filhotes são gerados a cada ano no mundo. As fêmeas são criadas para produzirem leite enquanto que os bezerros são acorrentados em pequenas celas onde sequer conseguem se virar, sendo mantidos assim até momento do abate para produção de carne de vitela, ainda em seus primeiros meses de vida.
Independentemente do sexo, vacas são proibidas de criarem seus filhotes. Eles são afastados à força no mesmo dia em que nascem, o que termina causando um tremendo estresse emocional tanto para a mãe quanto para o filhote. Para piorar, vacas têm uma expectativa de vida de cerca de vinte anos e elas podem facilmente produzir leite por cerca de oito desses vinte anos, mas o constante estado de estresse, gravidez e doenças imposto pela indústria de leite reduzem sua expectativa de vida para apenas cinco anos, idade em que terminam por serem abatidas como qualquer outro gado de corte. Todo esse processo ocorre em grandes fazendas de produção de leite e também em pequenas, bucólicas fazendas familiares. Vacas leiteiras e seus filhotes sofrem, não importa onde nascem ou são criados. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Comer carne é uma escolha pessoal
Falácia
Comer carne é uma escolha pessoal tal qual a escolha de ser vegano, então todos deveríamos viver e deixar viver.
Resposta
Do ponto de vista da Ética, é geralmente aceito que o direito de escolha de um indivíduo termina no momento em que esta escolha passa a prejudicar o outro. Logo, ainda que o ato seja considerado costumeiro e legalmente aceito, matar e comer animais sem necessidade não é ético.
O fato de algo ser permitido pela lei ou pela sociedade não o torna ético ou algo moralmente melhor. Se pararmos para obeservar melhor, é logicamente inconsistente afirmar que é errado maltratar animais como gatos e cachorros e ao mesmo tempo afirmar que comer animais como porcos e galinhas é uma questão de escolha, uma vez que nos alimentarmos deles não é algo necessário para nossa sobrevivência. Logo está claro que comer carne é apenas uma questão de escolha em um sentido mais superficial, visto que é errado tanto do ponto de vista ético quanto do ponto de vista moral.
  • Comer carne é natural porque somos onívoros(as)
Falácia
Humanos desenvolveram-se como uma espécie onívora, então comer carne é natural para nós.
Resposta
O argumento de que humanos são comedores de carne naturais é geralmente baseado no princípio de que nós temos a habilidade de digerir carne, ovos e leite. Embora isso seja verdade, isso não é tudo. Como onívoros, nós estamos fisiologicamente aptos a viver de forma completamente saudável com uma alimentação livre de derivados animais, o que é algo que seres humanos já vêm fazendo ao longo de toda a sua história e pré-história.
Mesmo se aceitarmos de pronto a premissa de que comer carne é natural para nós humanos, o uso deste argumento se baseia na concepção de que se algo é natural, então é automaticamente válido, justificável, inevitável, bom ou ideal. Comer animais não representa nenhuma dessas qualidades. Além disso, é preciso levar em conta que muitos humanos têm intolerância à lactose e muitos médicos recomendam uma dieta de base vegetal para atingir um estado de saúde ideal. Além disso, se considerarmos que tirar a vida de um ser vivo senciente é, por definição, uma questão ética – especialmente quando não existe uma verdadeira razão para isso – o argumento de que comer carne é natural acaba se mostrando equivocado tanto do ponto de vista fisiológico quanto do ponto de vista ético e moral. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Comer ovos não é antiético
Falácia
Botar ovos é normal e natural para as galinhas e elas não sofrem ou morrem por isso. Logo, comer ovos não envolve nenhum problema ético.
Resposta
Alimentar-se de ovos contribui para a crueldade contra galinhas. Pintinhos machos são abatidos de várias formas ao nascerem pelo fato de não serem úteis para postura de ovos nem engordarem como os frangos de corte. As galinhas poedeiras sofrem a vida inteira: seus bicos são cortados sem anestesia, elas são mantidas em condições estressantes, espaços imundos e apertados e são abatidas quando param de produzir ovos numa escala aceitável.
Esses problemas estão presentes mesmo nas fazendas mais bucólicas. Por exemplo, galinhas poedeiras são frequentemente abatidas e comidas quando sua produção de ovos diminui. E mesmo as fazendas que optam por manter as aves em idade mais avançada, a origem das aves continua sendo a mesma: as incubadoras que abatem os pintinhos machos. Além disso, tais idílicas fazendas familiares são uma grande exceção na indústria de ovos. A grande maioria dos ovos disponíveis no mercado vem de fazendas de produção em massa ou de criação intensiva. Em parte isso acontece porque não existe um jeito de produzir um número de ovos que satisfaça a demanda do mercado sem o uso de tais métodos de produção, e em parte porque a indústria de ovos é guiada pela sua margem de lucro e não pela compaixão, e acaba sendo mais lucrativo utilizar os métodos de criação intensiva. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Humanos morreriam de fome em um mundo vegano
Falácia
Se parássemos de matar animais pela carne humanos morreriam de fome, pois não haveria comida para todo mundo.
Resposta
A escassez de comida é um argumento a favor do veganismo, não contra. À medida que a população mundial aumenta e mais pessoas passam a ter acesso à carne, menos comida se torna disponível no total. Isso acontece porque perdemos uma considerável quantidade de energia proveniente de colheitas, como as de soja e cereais, que usamos para alimentarmos os animais de criação antes de os consumirmos. Dependendo dos números em que você quer confiar e do tipo de animal que ingerimos, cada meio quilo de carne requer entre dois e sete quilos de alimentos para ser produzida. Ao adotar uma dieta à base de vegetais, as fazendas que atualmente cultivam esses alimentos para animais de criação seriam capazes de cultivar esses alimentos diretamente para as pessoas.
No geral, aproximadamente 40% das terras aráveis do mundo são usadas para produção de comida enquanto que apenas um quarto desses alimentos é destinado ao consumo humano. O resto, espantosos 30% das terras aráveis do mundo, é usado para produzir alimento para animais utilizando um terço da água potável do planeta. Pior ainda, a carne proveniente dessa agricultura animal industrializada não é dividida igualmente. Por exemplo, americanos consumem aproximadamente 120 quilos de carne por ano ao passo que bengalêses consomem 2. Enquanto isso boa parte do mundo não recebe comida ou exporta alimentos para animais para países com alta demanda de carne. Isso cria um desequilíbrio de produção versus consumo entre os países mais ricos e mais pobres do planeta. Por isso, até pesquisadores conservadores recomendam uma diminuição global no consumo de carne enquanto que a maioria aconselha a adoção em massa de dietas vegetarianas ou veganas para assegurar a segurança alimentar da população mundial em crescimento. A adoção em massa de uma dieta de base vegetal garantiria terras aráveis e estoque de água potável do planeta para a produção de comida diretamente para pessoas e não para pecuária. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Eu apenas como carne produzida em condições humanas
Falácia
É importante que os animais sejam bem tratados, por isso eu só como animais criados em condições livres de sofrimento e abatidos de forma rápida e humana.
Resposta
É normal e saudável que as pessoa tenham empatia com os animais que comem, que se preocupem se eles vivem ou não felizes, e esperem que sejam abatidos de forma humana. No entanto, se é antiético maltratar estes animais, então também é antiético matá-los.
Matar animais para alimentação é bem pior do que fazê-los sofrer. Claro, é admirável que as pessoas se preocupem tanto com estes animais que tomem passos para reduzir o seu sofrimento (por exemplo comprando ovos “do campo” ou carne “sem sofrimento”). No entanto, porque essas pessoas escolhem não reconhecer o direito destes mesmos animais a viver toda a duração natural das suas vidas, e porque abatê-los é uma violação muito maior do que maltratá-los, as pessoas que comem carne “sem sofrimento” estão numa contradição irreconciliável. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Eu estou no topo da cadeia alimentar
Falácia
Seres humanos estão no ápice da cadeia alimentar e, assim como qualquer outro ser na natureza, nós matamos e comemos os animais que estão abaixo na cadeia.
Resposta
Os termos “cadeia alimentar”e “rede alimentar” referem-se a um sistema natural ecológico pelo qual produtores em um habitat específico são comidos por consumidores no mesmo habitat. O termo “círculo da vida” não possui absolutamente nenhum significado em termos científicos. Em nenhum dos casos os termos fazem referência ao uso de animais para consumo humano, uma vez que humanos não existem como consumidores em um ecossistema onde gado, porcos, cachorros, peixes e outros animais são produtores.
O único propósito dos termos “cadeia alimentar” e “círculo da vida” no contexto de escolha de alimentação humana é o de legitimizar o abate de indivíduos sencientes ao promover a ideia de que o abate é uma natural e necessária parte da vida humana. Sob este aspecto, a justificativa do “predador top” para comer animar é falha em duas frentes: primeiro, os próprios termos não se aplicam à relação ecológica que temos com os animais ou sequer mesmo possuem sentido; segundo, nós não precisamos comer animais para sobreviver, logo o imperativo moral por trás do “manda quem pode” não é eticamente defensável. Por analogia, um ladrão de banco então poderia declarar estar no topo da cadeia corporativa por ter agido com base em sua habilidade de tomar aquilo que pertencia a outros. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Os nossos primeiros antepassados comiam carne
Falácia
Humanos sempre comeram carne ao longo de toda a sua existência, portanto não há nada de errado em continuar a comer carne.
Resposta
Existem muitas hipóteses sobre a comida que os nossos primeiros antepassados comiam, o efeito que tinha na sua saúde e os impactos evolucionários das suas dietas. No entanto, embora seja realmente fato que eles comiam outros animais, também é verdade que nem sempre o faziam, assim como é verdade que indivíduos, grupos e sociedades têm prosperado em dietas de base vegetal ao longo da história.
Mesmo que soubéssemos o que todos os nossos primeiros antepassados comiam em todas as regiões do planeta durante toda a nossa história evolucionária, ainda assim seria ilógico afirmar que, pelo fato de terem incluído carne em sua dieta em algum momento, nós deveríamos continuar a fazê-lo. De fato, um robusto corpo de pesquisa médica concluiu que o consumo de carne e de secreções animais é prejuducial a nós humanos, e já sabemos também que a criação industrial de animais é destrutiva para o planeta. Além disso, esta razão para se comer carne ignora um importante argumento ético, o de que ocorrência história não necessariamente equivale à razão . Os nossos antepassados faziam muitas coisas que atualmente consideramos problemáticas como por exemplo, eles mantinham escravos. Portanto é ilógico concluir que, simplesmente porque alguns dos nossos antepassados comiam carne, deveríamos continuar a fazê-lo hoje. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Nossas tradições permitem ou exigem comer carne
Falácia
Porque minha cultura ou tradição permite ou exige que eu coma carne, eu sou moralmente livre ou obrigado a fazer isso.
Resposta
É fácil confundir cultura e tradição com ética, mas essas são coisas separadas, e é importante as entendermos dessa maneira. Houve um tempo em que manter escravos era culturamente aceitável, mas mesmo assim, não era ético. Em algumas partes do mundo, multilação genital feminina é um procedimento não-médico tradicional, mas não é ético. Essas são apenas duas das várias razões do porque é problemático igualar práticas culturais e tradicionais a comportamentos éticos.
Tenha em mente que o propósito das culturas e tradições não é comer comidas específicas ou envolver-se em atividades específicas. Em vez disso, servem para fortalecer vínculos familiares e sociais. Isso significa que é possível participar dessas coisas sem comprometer a compaixão por todos os seres. Comidas alternativas podem ser preparadas, e atividades alternativas encorajadas para que você mantenha sua consistência ética, o que pode até incentivar a adoção de práticas culturais e tradições mais compassivas na sua família e comunidade. Se você não quiser mais fazer parte do abatimento de seres sencientes, você tem o poder de mudar. Você é quem você é, e você não precisa seguir práticas culturais e tradições que contradizem seu senso ético. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Plantas estão vivas
Falácia
A planta, um potencial ser pensante ou senciente, precisa ser morto para que seja comido, tal qual um animal. Não existe diferença entre as duas situações.
Resposta
Veganos têm como regra o princípio de não causar sofrimento a seres sencientes. Plantas não possuem nervos, muito menos um sistema nervoso central, e não podem sentir dor ou responder a estímulos ou circumstância de uma maneira deliberada (o que não deve ser confundido com as suas reações involuntárias). Diferentemente dos animais, as plantas não dispôem de capacidade ou potencial para experienciar dor ou outros sentimentos atribuídos aos animais sencientes, logo não existe o mesmo impedimento ético na alimentação de base vegetal.
As palavras “vida”, “viver” e “vivo(a)” têm sentidos completamente diferentes quando utilizadas para descrever plantas e animais. Uma planta viva não é um ser consciente e não é capaz de sentir dor. Um animal vivo pode ser consciente e sentir dor. É questionável assumir que as plantas desenvolveram uma ainda não detectada habilidade de pensar e sentir, mas não a habilidade de fazer uso dessa estratégia evolutiva (escapar, por exemplo). Independentemente disso, cada meio quilo de carne requer entre aproximadamente dois e dezesseis quilos de biomassa vegetal para ser produzido, dependendo da espécie e das condições. Dada a quantidade adicional de plantas que seriam mortas para manter uma dieta à base de carne, o argumento de que plantas são sencientes acaba sendo favorável à adoção de uma dieta vegana. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Usar lã não é antiético
Falácia
A produção de lã é normal e natural para as ovelhas, e a sua extração não as prejudica ou mata. Portanto, usar lã não é um problema ético.
Resposta
A maior parte da lã provém de ovelhas tosquiadas em quintas industriais, onde são sujeitas a brutalidade, remoção de pregas de pele (“mulesing”), e abate bem antes do fim de sua expectativa de vida natural. Além do mais, as ovelhas na indústria da lã são alvo de reprodução seletiva. As que apresentam mais pregas na pele são selecionada por produzirem mais lã. Esta característica, no entanto, as torna mais vulneráveis à infestação por larvas de insetos parasitas e a ferimentos durante a tosquia. Por último, os carneiros são menos valorizados do que as ovelhas porque não produzem bebés. Por conta disso, são castrados sem anestésico ou abatidos para consumo de carne enquanto ainda jovens. Logo fica claro que que as ovelhas sofrem e morrem na indústria da lã, tornando o uso da lã um problema ético.
Nas fazenda industriais, as ovelhas são privadas de comida e água nas vinte e quatro horas antes da tosquia para que se comportem de forma mais dócil. Os tosquiadores as trata como objetos, removendo a lã em poucos segundos, o que as aterroriza e frequentemente resulta em pele raspada e cortada. Estes ferimentos atraem moscas e promovem miíase (infestação por larvas parasitas), especialmente em volta da cauda onde a pele se enruga. Para combater isto, a pele das nádegas das ovelhas é removida sem anestésico, em um processo conhecido como “mulesing”, que cria escarificações menos suscetíveis a infestação. Anos de vida em confinamento e em condições antissépticas, brutalidade e ferimentos deliberados encurtam a duração de vida das ovelhas, que são enviadas para o abate assim que sua produção de lã diminui. Este tratamento das ovelhas resulta em lucros maiores para a indústria da lã às custas das próprias ovelhas, tornando a produção de lã um exemplo típico da exploração de um animal não-humano motivado pelo desejo humano. Assim, para usarmos lã, temos de decidir que o nosso desejo é mais importante do que os direitos e necessidades das ovelhas que a produziram, sendo esta uma decisão unicamente ética. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Alimentação vegana é sem graça
Falácia
As pessoas não vão se tornar veganas porque dietas de base vegetal são sem graça e pouco apetitosas.
Resposta
Muitas opções alimentares já são veganas, tais como pão, massa, arroz, frutas, vegetais etc. Todos esses alimentos podem ser preparados de várias maneiras e outros pratos podem ter suas próprias versões veganas através de simples subtituições de ingredientes. Além disso, muitas culturas possuem longas e saborosas tradições culinárias à base de plantas as quais são uma boa oportunidade para veganos expandirem seu gostos alimentares. Logo, mudar para uma dieta de base vegetal não significa perder boas experiências gastronômicas e, sim, desenvolver novos hábitos e descobrir novas preferências.
Algumas pessoas temem que ao mudar para uma dieta de base vegetal elas serão forçadas a comer apenas tofu e alface, ou seja, elas temem que nunca mais poderão comer “comida de verdade”. Veganos, no entanto, comem uma variedade de alimentos, tanto saudáveis quanto não saudáveis. É possível se tornar vegano de uma forma benéfica à saúde, mas também é possível ser vegano e se alimentar apenas de fast food e industrializados. A simples verdade é que a dieta de base vegetal é tão diversa que veganos nunca precisam se restringir a alimentos de que não gostam. Porém, mesmo que a dieta vegana fosse pouco saborosa e sem graça, ainda assim isso não é uma razão defensável, do ponto de vista ético, para continuar a matança de animais sencientes a fim de se alimentar de sua carne e secreções. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Educar uma criança com valores veganos é lavagem cerebral
Falácia
Educar uma criança com valores veganos é uma forma de lavagem cerebral porque crianças são jovens demais para fazerem uma escolha informada sobre o assunto. Crianças têm direito a comer carne, portanto forçá-las a seguir um estilo de vida vegano é antiético.
Resposta
Pais são responsáveis pelo bem-estar físico de seus filhos pequenos e são também responsáveis por lhes dar aconselhamento ético. Os estudos apontam que uma dieta de base vegetal é saudável para pessoas de todas as idades, incluindo crianças. Portanto, pais veganos estão seguindo orientações nutricionais apropriadas. O veganismo é a posição filosófica de que usar animais para benefício humano é antiético, portanto os pais veganos estão simplesmente ensinando aos seus filhos compaixão através do veganismo, tal como qualquer pai ensinaria uma criança a ser bondosa.
Pais veganos não são diferentes de outros pais ao tentarem criar filhos compassivos, com valores éticos e morais fortes. De fato, pode-se dizer que os pais que ensinam as suas crianças a serem compassivas e a respeitarem todos os animais em vez de apenas alguns estão a passar valores mais consistentes. Por exemplo, crianças veganas não estão propensas a desenvolverem dissonância cognitiva que outras crianças não vegans podem apresentar ao gostarem de gatos e cães e ao mesmo tempo ignorarem o abate de frangos e vacas. Além disso, espera-se que pais façam decisões eticamente apropriadas pelos filhos até eles serem capazes de digerir informação apropriada à sua idade e terem capacidade de formarem suas próprias conclusões sobre temas controversos. Pais e crianças veganos não são diferentes no que se refere ao tratamento de animais, por isso, oferecer informação apropriada sobre o veganismo enquanto se assegura a felicidade e saúde de seus filhos não constitui lavagem cerebral. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • O veganismo é uma dieta da moda
Falácia
A dieta vegana é uma nova moda que desaparecerá como todas as outras.
Resposta
O veganismo é a filosofia e modo de vida que procura excluir – tanto quanto possível e praticável – todas as formas de exploração e crueldade animal por qualquer razão, incluindo medicina, comida, vestuário, entretenimento dentre outras. Em termos alimentares o veganismo designa a prática de dispensar todos os produtos derivados total ou parcialmente dos animais. Para resumir, o veganismo é uma posição filosófica e não uma dieta.
A filosofia do veganismo tem uma longa e variada linhagem. Donald Watson definiu o termo “vegano” como parafraseado acima há quase cem anos em conjunção com The Vegan Society. Antes disso, muitos pensadores e escritores notáveis como o Dr. William Lambe e Percy Bysshe Shelley opuseram-se ao consumo de ovos e lacticínios por razões morais. O budismo tem uma grande história de compaixão pelos seres não-humanos e inclui muitos ensinamentos em oposição ao consumo de carne. Pitágoras também rejeitou o abate de animais para a sua mesa, dando origem à expressão “dieta pitagórica”, usada por muitos vegetarianos éticos até o século de XIX, quando o termo “vegetariano” foi finalmente cunhado. Portanto, fica claro que uma dieta de base vegetal é simplesmete uma manifestação de uma filosofia antiga e compassiva que valoriza a vida de seres não-humanos e advoga por não lhes fazer mal. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Os veganos não conseguem obter B12 suficiente
Falácia
Os veganos não conseguem obter vitamina B12 suficiente para uma saúde adequada a partir de uma dieta baseada em plantas.
Resposta
Embora seja verdade que a B12 não seja produzida por plantas, ela também não é produzida por animais. De fato, a B12 é um subproduto de uma síntese bacteriológica que ocorre no solo, em material vegetal fermentado, carne morta e nos intestinos dos animais. Felizmente esta bactéria é agora facilmente produzida em massa para consumo humano e há muitas opções alimentares fortificadas com a vitamina B12. Portanto, não há necessidade de comermos animais para obtermos B12 suficiente.
É um engano frequente pensar que a B12 vem da carne dos animais. No entanto, a verdade é bem mais complexa. Por exemplo, animais ruminantes como vacas e ovelhas têm estômagos com múltiplas câmaras, e estas são ambientes excelentes para a bactéria que produz a B12. Igualmente importante são as plantas que estes animais ingerem diretamente do solo, e que é outra fonte do nutriente. Em conjunto, os estômagos dos animais ruminantes e o solo presente na vegetação que eles consome providenciam-lhes a vitamina B12 de que os seus corpos necessitam. Nos humanos, no entanto, a bactéria que produz a B12 cresce no intestino grosso, que se localiza abaixo do íleon, onde é absorvida. Além disso, a maioria de nós não está disposta a comer vegetais não lavados, por isso não recebemos B12 do solo. Isto deixa-nos perante duas opções: ou consumimos a carne de animais mortos, que contém a B12 que o animal absorveu ou que nela foi produzida, ou podemos suplementar nossa alimentação com B12. É interessante que os animais criados em fazendas industriais são regularmente alimentados com suplementos de B12 por várias razões, portanto é lógico concluir que podemos também simplesmente tomar um suplemento de B12 em vez de passá-lo pelo corpo de um animal não-humano primeiro. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Os veganos não conseguem obter ferro suficiente
Falácia
Os veganos não conseguem obter ferro suficiente para uma saúde adequada a partir de uma dieta baseada em plantas.
Resposta
O ferro é necessário para a produção de hemoglobina, uma proteína que transfere oxigénio dos pulmões para os tecidos. Há dois tipos de ferro absorvido pelo corpo: heme e não-heme. O ferro heme não é regulado pelo corpo, o que significa que é sempre absorvido, enquanto que o ferro não-heme é regulado pelo corpo e absorvido quando necessário. Ambos estão presentes na carne, mas apenas o ferro não-heme está presente em plantas e comidas fortificadas. Esta informação é importante porque um excesso de ferro pode ser tão perigoso como a sua deficiência, e apenas aqueles que comem carne ou suplementos de ferro estão em perigo de um excesso. Inversamente, uma dieta baseada em plantas integrais pode satisfazer de forma segura as necessidades do corpo.
Algumas proeminentes organizações de saúde listam os vegetarianos e os veganos dentre outros grupos de risco para deficiência de ferro, o que pode levar à crença errada de que as dietas baseadas em plantas não providenciam ferro suficiente. Isto acontece porque, historicamente, a deficiência de ferro era um problema de saúde pública muito comum, e a absorção rápida de ferro heme ajudava a evidenciá-lo. No entanto, esta posição conservadora não chama a atenção para as consequências negativas do excesso de ferro, um problema em ascensão especialmente em homens mais velhos como resultado de um consumo crescente de carne. Estas consequências negativas incluem diabetes, doenças cardíacas e danos ao fígado, já que o ferro é um pró-oxidante que o corpo não consegue eliminar. Por outo lado, o corpo humano evoluiu para regular a absorção de ferro não-heme de forma a receber apenas o que pode usar, e existem muitas fontes seguras de ferro numa dieta baseada em plantas. Por exemplo, 85g de chocolate negro contém mais ferro do que uma porção igual de fígado de vaca, e 85 g de lentilhas contêm mais ferro do que 85 g de carne de vaca, pato, ou cordeiro. Portanto é fácil concluir que as plantas podem proporcionar quantidades igualmente abundantes e mais seguras de ferro do que a carne animal. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Os veganos não obtêm proteína suficiente
Falácia
Veganos não obtêm proteína suficiente em uma dieta baseada em vegetais para manter uma saúde normal.
Resposta
Os seres humanos necessitam que 6% da sua dieta sejam compostos de proteína, apesar de a maioria dos médicos recomendar 9% por segurança. Muitos frutos secos e vegetais contêm proteína suficiente para satisfazer este requisito nutricional, portanto as dietas baseadas em vegetais providenciam níveis adequados de proteína para a saúde humana.
Não há investigação científica crível que relacione uma dieta baseada em plantas a uma deficiência proteica. Além disso, não estamos enfrentando uma epidemia de kwashiorkor entre veganos ou entre quaisquer outras pessoas nos países desenvolvidos ou em desenvolvimento, mas estamos sim enfrentando doenças e problemas de saúde crónicos associados ao consumo excessivo de proteína. Também é de importância notar que temos exemplos de pessoas vivendo saudavelmente ao longo da história com dietas de base vegetal, e que cada vez mais pessoas escolhem seguir o mesmo exemplo, todos os anos, sem sofrer nenhuma deficiência proteica. Sendo todos os outros fatores iguais, veganos têm sido e continuam a ser pelo menos tão saudáveis quanto seus companheiros não veganos neste aspecto. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Os veganos também matam animais
Falácia
Os habitats são perturbados pelo cultivo de alimentos, e os animais são mortos durante a colheita, portanto, veganos também matam animais.
Resposta
De fato, as plantações perturbam os habitats de animais selvagens, os quais também são mortos no processo de colheita. No entanto, este argumento favorece uma dieta de base vegetal e não o contrário, uma vez que muito mais plantas são necessárias para a produção de uma certa quantidade de carne (por vezes numa proporção tão alta quanto 12:1), do que para a produção de uma quantidade igual de plantas para alimentação (cuja proporção é obviamente 1:1). Devido a isto, uma dieta de base vegetal causa menos sofrimento e morte do que uma que inclui animais.
É pertinente notar que a ideia do veganismo perfeito é uma ideia não-vegana. Tais exigências de perfeição são impostas por críticos do veganismo, muitas vezes como pretexto para acusarem veganos de não conseguirem atender a este critério imposto externamente. Dito isto, a verdadeira ética aplicada do veganismo concentra-se em causar o mínimo de dano possível ao menor número de seres. É também digno de nota o fato de que as mortes acidentais causadas pelo cultivo e colheita de plantas para alimentação são eticamente distintas das mortes intencionais causadas pela criação e abate de animais para alimentação. Embora isto não signifique que veganos sejam isentos da responsabilidade pelas mortes que causam, este fato serve para entender que essas mortes não violam os princípios éticos do veganismo aqui mencionados. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Veganos comeriam carne em uma ilha deserta
Falácia
Existem situações onde veganos comeriam carne se não tivessem escolha.
Resposta
Este argumento propõe um cenário hipotético (comer animais em uma ilha deserta) como justificativa para um comportamento na vida real (comer animais no dia a dia). No entanto, esse exercício imaginário não representa uma situação plausível em que pessoas podem se encontrar nem diz nada a respeito da moralidade do vegano que responde ao tópico. Por esses motivos, essa conversa tende a não ser produtiva.
Pode ser esclarecedor e informativo contrastar esse cenário hipotético com a realidade a fim de entender onde esses exemplos se encontram ou se sobrepõem. Por exemplo, podemos perguntar, “Se você vivesse em uma civilização onde há abundância de comida de base vegetal, você optaria por matar animais e os comer por nenhum motivo além do de satisfazer seu paladar?”. Podemos até abordar os reais cenários desastrosos que atualmente ameçam o mundo com questões como estas: “E se você pudesse fazer uma mudança simples e compassiva na sua vida que aumentaria o espaço de terras agrícolas, aumentaria quantidades de água potável, reduziria a destruição de floresta tropicais, reduziria a emissão de gases do efeito estufa, reduziria a ameaça de bactérias resistentes a antibióticos, diminuiria a poluição terrestre e aquática, preveniria a criação de zonas mortas nos oceanos, acabaria com sua participação na morte de seres sencientes e melhoraria a saúde humana em geral, tudo isso simplesmente através de uma mudança para uma dieta de base vegetal? Você faria isso?”. Esta é a realidade em que nós de fato vivemos e esta é a escolha que todos nós enfrentamos. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Não dá pra ser 100% vegano
Falácia
A filosofia do veganismo está errada porque não há como ser perfeitamente vegano.
Resposta
O veganismo é a posição filosófica que sustenta que a crueldade para com seres sencientes, assim como sua exploração, é algo eticamente indefensável e, portanto, deve ser evitada sempre que for possível. Os próprios veganos afirmam que esta posição não é absoluta e também não alegam serem perfeitos. Em verdade, a acusação de que os veganos falham no veganismo porque não podem ser perfeitos vem de fora, de pessoas que não entendem o conceito do veganismo.
O termo “vegano” é definido como “uma filosofia e forma de vida que procura excluir — tanto quanto possível e praticável — todas as formas de exploração e crueldade animal seja para alimentação, para produção de roupas ou qualquer outro propósito. Por extensão, o veganismo promove o desenvolvimento e uso de alternativas livres de animais para benefício dos seres humanos, não humanos e o meio ambiente. Em termos alimentares,o veganismo denota a prática de dispensar todos os produtos derivados total ou parcialmente de animais”. O significado da palavra “vegan” não pressupõe perfeição e os próprios veganos entendem que não é possível manter a sua posição filosófica em termos absolutos. No entanto, este entendimento de nenhuma forma os impede de fazerem mudanças positivas e significativas no mundo ao escolherem não prejudicar outro ser senciente sempre que possível. (texto traduzido do site yourveganfallacyis.com)
  • Agrotóxicos também causam câncer
Falácia
Agrotóxicos também causam câncer então devemos parar de comer vegetais.
Resposta

A contaminação de vegetais por agrotóxicos é menor do que a de animais devido à lipossolubilidade desses xenoxióticos; eles se acumulam em maior quantidade no tecido adiposo dos animais do que nos vegetais, que apresentam menor teor lipídico. [1] Além disso a carne carrega hormônios que podem ser nocivos a saúde.

[1] http://www.svb.org.br/livros/guia-alimentar.pdf

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