Sencientismo

O sencientismo, também chamado de senciocentrismo ou ética centrada na senciência, é a posição filosófica segundo a qual a senciência é o critério para que um indivíduo mereça consideração moral.

Por senciência entende-se a capacidade de ter experiências subjetivas positivas e negativas, em outras palavras, a capacidade de sentir prazer e sofrimento. Um ser senciente não é apenas um organismo vivo que reage a estímulos: é alguém para quem as coisas podem ir bem ou mal, alguém que tem um ponto de vista sobre a própria existência.

Para o sencientismo, essa capacidade, e não a espécie, a inteligência ou o grau de parentesco com os seres humanos, é o que torna um indivíduo digno de importar moralmente por si mesmo.

A pessoa adepta do sencientismo é chamada sencientista.

A ideia central

A pergunta que o sencientismo coloca no centro da ética não é “este ser é humano?”, nem “este ser é racional?”, mas sim: este ser é capaz de sofrer?

Se a resposta for sim, esse ser tem interesses — em não sofrer, em continuar vivendo, em buscar bem-estar — e esses interesses merecem ser levados em conta, independentemente de a quem pertençam. Isso vale para:

  • Animais humanos e não humanos;
  • Sistemas digitais ou robôs que, no futuro, venham a ter experiências subjetivas reais;
  • Formas de vida senciente em outros planetas, caso existam.

Essa ideia leva a uma consequência importante: julgar que um ser merece menos consideração moral apenas por pertencer a uma espécie diferente da nossa, e não por qualquer diferença relevante em sua capacidade de sofrer, é uma forma de discriminação chamada especismo.

História do sencientismo

Embora a palavra seja do século XX, a intuição de que a capacidade de sentir importa moralmente é muito mais antiga.

Na Grécia Antiga, Pitágoras e seus seguidores já distinguiam animais de plantas com base na capacidade de sentir, atribuindo aos animais uma alma dotada de razão e emoção, e usavam essa distinção para justificar a recusa em comer carne. Mais tarde, Porfírio (em Da Abstinência) e Plutarco (em Sobre o Consumo de Carne Animal) desenvolveram esse raciocínio, argumentando explicitamente que a capacidade de sentir dava aos animais direito a consideração moral.

No século XVIII, o filósofo utilitarista inglês Jeremy Bentham deu ao sencientismo sua formulação moderna. Em sua obra de 1789, Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação, Bentham defendeu que qualquer ser capaz de ter experiências subjetivas deveria ser considerado moralmente relevante. Comparando o tratamento dado a pessoas escravizadas com a crueldade contra animais, ele questionou por que a razão ou a fala deveriam ser o critério que separa quem merece consideração moral de quem não merece, já que, segundo ele, nem um bebê recém-nascido atenderia a esse critério tão bem quanto um cavalo adulto. Para Bentham, a pergunta certa nunca foi “eles conseguem raciocinar?” ou “eles conseguem falar?”, mas sim se são capazes de sofrer.

Em 1899, o filósofo estadunidense J. Howard Moore, em Better World Philosophy, descreveu todo ser senciente como estando em constante luta pela sobrevivência. Para Moore, é justamente a existência de seres capazes de sentir felicidade e sofrimento que dá origem às próprias noções de certo e errado, sem senciência, não haveria ética. Ele chamou de zoocentrismo a posição segundo a qual todos os seres sencientes merecem consideração e cuidado universais, embora reconhecesse que essa ideia era, para os padrões de sua época, difícil de aceitar.

Já o termo “sencientismo” é relativamente recente. Foi usado pela primeira vez em 1977, pelo pensador John Rodman, para descrever a filosofia de Peter Singer como uma forma de “sencientismo zoocêntrico”. Pouco depois, em 1980, o teólogo Andrew Linzey empregou o termo para descrever uma atitude que privilegia seres sencientes em relação a seres não sencientes.

Em que o sencientismo se diferencia de outras posições

O sencientismo é apenas uma entre várias respostas possíveis à pergunta “quem, ou o quê, merece consideração moral?”. Compará-lo com outras posições ajuda a entender melhor sua proposta.

PosiçãoO que confere valor moralConsequência prática
SencientismoA capacidade de ter experiências subjetivas (senciência)Todo ser senciente importa por si mesmo, independentemente de espécie, sistema ou ecossistema
AntropocentrismoPertencer à espécie humanaSó humanos têm valor moral pleno; o resto importa apenas na medida em que afeta interesses humanos
BiocentrismoEstar vivoPlantas, fungos e microrganismos têm valor moral individual, sejam sencientes ou não
Holismo éticoPropriedades de totalidades (raridade, complexidade, beleza de espécies ou ecossistemas)O bem-estar de indivíduos sencientes pode ser sacrificado em nome do equilíbrio do sistema
EcocentrismoO funcionamento do ecossistema como um todoSeres sencientes valem apenas como peças de um sistema maior, não por seu próprio bem-estar

Essa diferença de critério não é só teórica, ela leva a conclusões práticas muito diferentes. Uma política ambiental pode ser considerada correta do ponto de vista ecológico, por exemplo, um programa de controle de uma espécie “invasora”, ou a caça como forma de manejo populacional, e, ainda assim, causar sofrimento e morte a um grande número de animais sencientes. Para o holismo e o ecocentrismo, isso pode ser aceitável se preservar o equilíbrio do ecossistema. Para o sencientismo, o sofrimento causado a cada indivíduo continua sendo moralmente relevante, mesmo quando a prática é ecologicamente “sustentável”.

Senciocracia: sencientismo aplicado à política

Se o sencientismo é uma teoria sobre quem merece consideração moral, a senciocracia é sua tradução para o campo político: um modelo teórico de governo ou de organização social baseado na representação dos interesses de todos os seres sencientes — humanos e não humanos.

Alguns pensadores que desenvolveram propostas nessa linha:

  • Sue Donaldson e Will Kymlicka, em Zoopolis: A Political Theory of Animal Rights;
  • Alasdair Cochrane, em Sentientist Politics: A Theory of Global Inter-Species Justice;
  • Magnus Vinding, em Reasoned Politics;
  • John Adenitire e Raffael Fasel, em Animals and the Constitution: Towards Sentience-Based Constitutionalism.

Veja a nossa página dedicada sobre Senciocracia.

Por que isso importa

O sencientismo não é apenas uma curiosidade acadêmica: é o alicerce filosófico da maior parte do movimento de ética animal contemporâneo, incluindo boa parte do trabalho reunido nesta enciclopédia. Ao deslocar a pergunta de “quem é humano?” para “quem é capaz de sofrer?”, ele oferece um critério moral que não depende de espécie, aparência ou utilidade para os interesses humanos, e que, justamente por isso, é frequentemente citado como o argumento mais direto contra o especismo.