A anarquia e os animais

A GRANDE FAMÍLIA

O homem adora viver em seus sonhos; o esforço que o pensamento deve exercer para tomar conta das realidades lhe parece muito difícil, e ele tenta escapar da tarefa se refugiando em opiniões prontas. Se “a dúvida é o travesseiro do sábio”, a fé fervorosa é o travesseiro do pobre de espírito. Se foi o tempo em que o poder de um deus supremo, que sentia no nosso lugar, desejava, agia fora de nós e conduzia de acordo com seu capricho o destino dos homens, nos era amplamente suficiente e nos fazia aceitar nosso destino fatal com resignação ou mesmo gratidão. Hoje em dia esse deus pessoal, no qual os mansos depositam confiança, agoniza em seus templos, e os mortais devem lhe substituir. Mas eles não têm mais nenhum poder augusto ao seu serviço: eles não têm nada além de palavras que eles procuram exibir como uma virtude secreta, como um poder mágico: por exemplo, a palavra “Progresso”.

Sem dúvida, é verdade que em muitos aspectos o homem progrediu: suas sensações se tornaram mais refinadas, eu creio, seus pensamentos mais sagazes e mais profundos, e a largura de sua humanidade, abrangente de um mundo mais vasto, foi prodigiosamente aumentada. Mas nenhum progresso pode ser feito sem uma regressão parcial. O ser humano cresce, mas ao crescer ele se move e ao avançar ele perde parte do chão que ocupou no passado. O ideal seria que o homem civilizado tivesse guardado a força do selvagem, que ele também tivesse a habilidade, que ele ainda possuísse o belo equilíbrio dos membros, a saúde natural, a tranquilidade moral, a simplicidade da vida, a intimidade com os animais dos campos, e a harmonia com a terra e tudo que a habita. Mas o que já foi regra hoje é exceção. Nos está provado por numerosos exemplos que o homem de vontade enérgica, amplamente favorecido pelo seu meio, pode igualar completamente o selvagem em todas as suas qualidades primordiais, e ainda é acrescido por sua consciência embebida em uma alma superior; mas quantos são aqueles que adquiriram sem perda, que são ao mesmo tempo os equivalentes do primitivo em sua floresta ou em sua pradaria e os equivalentes do artista ou do gênio moderno nas cidades operárias?

E se aqui ou ali um homem, singular em força de vontade e em dignidade de conduta, chega a igualar seus ancestrais em suas qualidades nativas, a ainda vai além das qualidades adquiridas, poderia ser dito com tristeza que, como um todo, a humanidade certamente perdeu algumas de suas conquistas iniciais. Assim, o mundo animal, do qual nós derivamos nossas origens e que foi nosso educador na arte da existência, que nos ensinou a caça e a pesca, a arte de nos curar e de construir nossas casas, a prática do trabalho em comum, a do suprimento, se tornou mais estranho a nós. Enquanto em relação aos animais, nós falamos hoje em dia de educação ou domesticação no sentido de escravidão, o primitivo pensava fraternalmente na associação. Ele viu nestes seres companheiros, e não servos, e de fato as criaturas – cães, pássaros, serpentes –, vinham de encontro a ele em caso de perigo comum, especialmente em tempos de tempestade ou inundação.

A indígena do Brasil se cerca voluntariamente de toda uma multidão de animais, e em sua cabana e na clareira circundante há antas, veados, gambás e até mesmo onças domésticas. Lá vemos macacos pulando nos galhos acima da cabana, queixadas fuçando o solo, tucanos, mutuns e papagaios empoleirando­se aqui e ali nos galhos que se movem, protegidos pelos cães e pelos grandes jacamins. E toda esta república se move sem que uma senhora impertinente tenha que distribuir insultos e golpes. O pastor quíchua, percorrendo o planalto dos Andes em companhia de sua lhama de carga, nunca tentou ganhar a assistência do animal amado de outro modo além de por carinho e encorajamento: um único ato de violência, e a lhama, ofendida em sua dignidade pessoal, se deitaria de raiva para não mais se levantar. Ela caminha no seu passo, nunca se deixa carregar um fardo pesado demais, fica parada por bastante tempo ao nascer do sol para contemplar o astro nascente, pede que lhe coroem com flores e fitas, que equilibrem uma bandeira acima de sua cabeça, e deseja que as crianças e as mulheres, ao chegar nas cabanas, a elogiem e a acariciem.

O cavalo do beduíno, outro primitivo, não entra na tenda, e as crianças não dormem entre suas pernas? A simpatia natural existente entre todos estes seres os unia em uma amplo sentimento de paz e amor. O pássaro vinha empoleirar­se na mão do homem, como ele faz hoje em dia nos chifres do touro, e o esquilo brincava ao alcance da mão do trabalhador do campo ou do pastor.

Mesmo na comunidade política, o primitivo não ignorava o animal. Em Fazokl, quando as pessoas depunham um rei, elas não nunca deixavam de lhe fazer este discurso: “Porque você não agrada mais os homens, as mulheres, as crianças e os burros, o melhor que você pode fazer é morrer, e nisso nós vamos te ajudar” (Lepsius, Cartas do Egito) . Há muito tempo atrás, o homem e o animal não mantinham segredos um do outro. “A fera falou”, diz a fábula, mas o importante era que o homem compreendia. E existem estórias mais encantadoras do que os contos da Índia meridional, as tradições talvez mais antigas do mundo, transmitidas aos invasores dravidianos pelos aborígenes? Elefantes, chacais, tigres, leões, jerboas, serpentes, caranguejos, macacos e homens conversam em total liberdade, constituindo, por assim dizer, a grande escola mútua do mundo primitivo, e, nesta escola, era mais frequente o animal ser o professor genuíno.

As associações entre o homem e os animais incluíam naquelas épocas primárias um número de espécies muito maior do que o que existe hoje em nosso mundo doméstico. Geoffroy St. Hilaire mencionou 47, formando, por assim dizer, o cortejo do homem; mas quantas espécies não enumeradas por ele já viveram na intimidade de seu irmão mais novo! Ele não incluiu os muitos companheiros da índia guarani, nem as serpentes que o dinka no Nilo chama pelo nome e com as quais ele divide o leite de suas vacas, nem os rinocerontes que pastam junto com outras criaturas nos prados de Assam, nem os crocodilos do Sind com que os artistas hindus decoram as imagens religiosas. Os arqueólogos constataram de maneira indubitável que os egípcios do império antigo tinham entre seus rebanhos de animais domésticos três, ou mesmo quatro, espécies de antílope e uma cabra, todos animais que, depois de terem se associado à existência do homem, se tornaram novamente selvagens. Mesmo os cães hienoides e os guepardos já foram transformados por caçadores em aliados fiéis. O Rig Veda celebra os pombos­correio “mais rápidos que as nuvens”. Ele vê neles deuses e deusas, e solicita que lhes ofereçam holocaustos e que lhes derramem libações. Muito certamente a estória mítica do dilúvio nos lembra da ciência de nossos ancestrais mais antigos na arte de utilizar a velocidade do pombo­correio. Foi uma pomba que Noé enviou da arca para explorar os restos das águas e as terras emergentes, e que lhe trouxe em seu bico um ramo de oliveira.

Como a praticamos hoje, a domesticação dos animais atesta também em muitos aspectos uma genuína deterioração moral, pois, longe de melhorar os animais, nós os enfeiamos, vilipendiamos e corrompemos. Nós poderíamos, é verdade, aumentar no animal tanta qualidade de força, de habilidade, de faro, de velocidade de corrida, mas em nosso papel de carnívoros, nós tivemos a preocupação principal de aumentar as massas de carne e gordura que andam em quatro patas, de produzir armazéns de carne ambulante que se movem com dificuldade do esterco ao abatedouro. Podemos dizer sinceramente que o porco é melhor que o javali ou a medrosa ovelha que o intrépido muflão? A grande arte dos criadores é a de castrar suas feras ou de obter híbridos que não podem se reproduzir. Eles treinam cavalos “por meio de morso, chicote e esporas” e depois se queixam que não encontram sua iniciativa intelectual. Mesmo quando domesticaram os animais sob as melhores condições, eles diminuíram sua força de resistência à doença, sua capacidade de adaptação a novos meios, fazendo deles seres artificiais, incapazes de viver espontaneamente na natureza livre.

A corrupção das espécies já é um grande mal, mas a ciência dos civilizados também é exercida para o extermínio. Nós sabemos quantas aves os caçadores europeus destruíram na Nova Zelândia e na Austrália, em Madagascar e nos arquipélagos polares, quantas morsas e outros cetáceos já desapareceram! A baleia fugiu de nossos mares temperados, e em breve nós não a encontraremos nem mesmo entre as geleiras do Oceano Ártico. Todos os grandes animais terrestres estão igualmente ameaçados. Nós conhecemos o destino do auroque e do bisão, nós prevemos o do rinoceronte, do hipopótamo e do elefante. Já que a estatística avalia a produção do marfim de elefante em 800 toneladas ao ano, o que é como dizer que os caçadores matam 40.000 elefantes, sem contar aqueles que, depois de terem sido feridos, vão morrer em arbustos longínquos. Quão distantes estamos do singalês dos velhos tempos, para quem “a décima oitava ciência do homem era adquirir a amizade de um elefante”, longe dos assírios da Índia, que entregaram dois brâmanes como companheiros ao colosso cativo a fim de que ele aprendesse a praticar as virtudes dignas de sua raça!

Que contraste existe entre os dois tipos de civilização que eu tive a oportunidade de ver uma vez em uma plantação no Brasil. Dois touros comprados a alto preço no velho mundo constituíam o orgulho do proprietário. Um deles, vindo de Jersey, puxava uma corrente que passava através de suas narinas, mugindo, esfumaçando, cavucando a terra com seus cascos, apontando seus chifres, observando seu guardião com um olhar maligno; o outro, um zebu, importado da Índia, nos seguia como um cão, implorando carícias com seus olhos doces. Nós pobres ignorantes “civilizados”, vivendo em nossas casas fechadas, fora da natureza que nos amedrontava, porque o sol estava quente demais ou o vento estava muito frio – nós esquecemos completamente o significado dos festivais que celebramos e que todos, com o desconhecimento do próprio cristianismo, Natal, Páscoa, Rogação e o Dia de Todos os Santos, foram primitivamente festivais da natureza. Nós entendemos o sentido das tradições que colocam o primeiro homem em um jardim de beleza, onde ele anda em liberdade com todos os animais, e as em que o “filho do Homem” nasceu em uma cama de palha entre o asno e o boi, os dois associados do trabalhador do campo?

E ainda, apesar do espaço que separa o homem de seus irmãos animais ter aumentado, e de nossa ação direta sobre aquelas espécies que permanecem livres na natureza selvagem ter diminuído, parece evidente que pelo menos um progresso menor foi realizado, graças à associação mais íntima que surgiu com aqueles animais domésticos não destinados para a nossa alimentação. Sem dúvida, até mesmo os cães foram parcialmente corrompidos: a maioria deles, acostumados a golpes como os soldados, se tornaram seres degradados que tremem perante o bastão e rastejam sob a fala ameaçadora do mestre; outros são treinados para se tornar furiosos, como os buldogues que mordem os pobres na panturrilha ou que pulam na garganta dos escravos; outros ainda, “galgos em anáguas”, contraem todos os vícios de suas senhoras, a gula, a vaidade, a luxúria e a insolência; os da China, que são criados para serem comidos, são de uma estupidez sem igual. Mas o cão verdadeiramente amado, criado para a bondade, a doçura e a nobreza de sentimento, ele não frequentemente realiza o ideal humano, ou mesmo sobre­humano, de devoção e de grandeza moral? E os gatos, que souberam melhor que os cães salvaguardar sua independência pessoal e originalidade de caráter, que são “aliados ao invés de adestrados”, eles também, desde os dias de selvageria primitiva na floresta, não fizeram avanços intelectuais e morais que partilham do maravilhoso? Não há um sentimento humano que na ocasião eles não compreendam ou partilhem, nenhuma ideia que eles não adivinhem, nenhum desejo que eles não antecipem. O poeta vê neles mágicos; de fato, algumas vezes eles parecem mais inteligentes que seus amigos humanos em seu pressentimento do futuro. E a tal “família feliz” exibida por malabaristas nas feiras não nos prova que ratos, camundongos, porquinhos­da­índia e muitas outras pequenas criaturas não pedem nada além de entrar com o homem no grande acordo da felicidade e bondade? Cada cela se transforma, se seus carcereiros não impuserem boa ordem, em uma escola de animais inferiores, ratos e camundongos, moscas e pulgas. Nós conhecemos a estória da aranha de Pelisson: o prisioneiro tinha retomado o gosto pela existência, graças à amiga da qual havia se tornado instrutor; mas um defensor da ordem apareceu, e, com sua bota vingadora da moral oficial, esmagou o animal que veio consolar o infeliz!

Estes fatos nos provam os enormes recursos possuídos pelo homem para a recuperação de sua influência sobre todo este mundo animado que ele deixa à mercê do destino, negligenciando associá­lo à sua própria vida. Quando nossa civilização, ferozmente individualista como é, dividindo o mundo em tantos pequenos Estados inimigos hostis quanto há propriedades privadas e casas de família, tiver sofrido sua última falência e tiver que recorrer ao apoio mútuo para a salvação comum, quando a busca pela amizade substituir a do bem­estar que cedo ou tarde será suficientemente assegurado, quando os naturalistas entusiastas nos tiverem revelado tudo o que há de charmoso, de amável, de humano, e frequentemente de mais que humano sobre a natureza das criaturas, nos lembraremos de todas essas espécies deixadas para trás no caminho do progresso, e nós tentaremos fazer deles não servos ou máquinas, mas genuínos companheiros. O estudo dos primitivos contribuiu para nos fazer compreender o homem policial de nossos dias; o estudo dos animais nos fará penetrar mais profundamente na ciência da vida, aumentará nosso conhecimento das coisas e nosso amor. Que nós ansiemos por voltar a ver a corça da floresta vir à nossa frente com seus olhos negros para ser acariciada, e o pássaro vir empoleirar­se triunfantemente no ombro da mulher amada, sabendo que também é belo, e exigindo sua parte do beijo!

A PROPÓSITO DO VEGETARIANISMO

Já que homens de valor tão elevado, higienistas e biólogos, já estudaram a fundo as questões relacionadas à nutrição normal, eu tomarei cuidado para não exibir aqui uma prova de incompetência ao dar também minha opinião sobre a alimentação animal e vegetal. Cada um em sua especialidade. Não sou nem químico nem médico, eu não falarei de nitrogênio nem de albumina, eu não reproduzirei as dosagens fornecidas pelos analistas e me contentarei simplesmente em contar minhas impressões pessoais, que certamente coincidirão com as de muitos vegetarianos. Eu perambularei por minha própria vida e pararei ocasionalmente para fazer alguma observação suscitada pelas pequenas aventuras da existência.

Antes de tudo, eu devo dizer, a busca pela verdade pura não teve nada a ver com as primeiras impressões que fizeram do pequeno menino que eu era um vegetariano em potencial, ainda usando um vestidinho de criança. Eu me lembro distintamente do horror ao sangue derramado. Uma pessoa de minha família colocou um prato na minha mão, me mandou ao açougueiro da vila e me pediu para trazer algum pedaço sangrento. Inocente e temeroso, eu saí alegremente para fazer a compra, e entrei no quintal onde ficavam os carrascos dos animais degolados. Eu me lembro ainda deste quintal sinistro, onde passavam homens assustadores, tendo à mão grandes facas que limpavam em seus aventais salpicados de sangue. Sob uma varanda, um cadáver enorme me parecia ocupar um espaço prodigioso; da carne branca, um líquido rosado escorria para o canal. E eu, tremendo e mudo, fiquei neste quintal ensanguentado, incapaz de avançar, mas aterrorizado demais para fugir. Eu não sei o que aconteceu comigo: minha memória não guardou nenhum vestígio. Parece­me ter ouvido falar que eu desmaiei e que o açougueiro compassivo me levou para a residência familiar; eu não pesava mais que um daqueles carneiros que ele degolava toda manhã.

Outras cenas assombram meus anos de infância e, como a do abatedouro, marcam várias épocas de minha história. Eu vejo o porco dos camponeses, açougueiros de ocasião e, portanto, mais cruéis: um deles sangrava lentamente o animal para que o sangue pingasse gota a gota, porque é indispensável, parece, para o bom preparo dos pudins, que a vítima tenha sofrido bastante. Ele de fato gritava em um choro contínuo, cortado por murmúrios infantis, de apelos desesperados, quase humanos: parecia que escutávamos uma criança, e o leitão doméstico não foi de fato por um ano a criança da casa, sobrealimentado com vistas à engorda, e respondeu com uma afeição genuína a todo o cuidado que não tinha outro objetivo além do de lhe produzir uma grossa camada de toucinho? E quando o coração responde ao coração, quando a dona de casa encarregada de cuidar do porco se apega à amizade de seu órfão e lhe acaricia, lhe elogia e fala dele, acham ridículo, como se fosse absurdo, quase degradante, amar um animal que nos ama! Uma das mais fortes impressões da minha infância é a de ter assistido a um destes dramas rurais: a degola de um porco, realizada por toda uma população insurgida contra uma boa velhinha, minha tia­avó, que não queria consentir com o assassinato de seu gordo amigo. A multidão da vila tinha entrado à força no chiqueiro; à força ela levou a criatura ao rústico abatedouro onde se encontrava o aparato para a degola, enquanto a triste senhora, caída sobre um banco, derramava lágrimas silenciosas. Eu fiquei ao lado dela e observei o choro, não sabendo se deveria compartilhar o seu pesar ou acreditar junto com a multidão que a degola do porco era justa, legítima, comandada pelo bom senso assim como pelo destino.

Cada um de nós, especialmente quem viveu em um meio popular, longe das cidades comuns, uniformes, onde tudo é metodicamente classificado e escondido, cada um de nós já pôde ser testemunha destes atos bárbaros, cometidos pelo carnívoro contra as criaturas que come. Não é preciso ir até a tal Porcópolis da América do Norte ou a um saladero de La Plata para contemplar os horrores dos massacres que constituem a condição primária de nossa alimentação habitual. Mas estas impressões somem com o tempo; elas cedem a esta educação funesta cotidiana que consiste em levar indivíduo à mediocridade, e tira dele tudo o que lhe faz um ser original, uma pessoa. Os pais, os educadores, oficiais e voluntários, os médicos, sem contar o indivíduo poderoso ao qual chamam de “Todo Mundo”, trabalham juntos para endurecer o caráter da criança a respeito desta “carne sobre patas”, que no entanto ama como nós, sente como nós, e também pode progredir sobre nossa influência, a menos que regrida conosco.

Porque esta é precisamente um das consequências mais prejudiciais de nossos hábitos carnívoros, que as espécies de animais sacrificadas ao apetite humano tenham sido sistemática e metodicamente desfiguradas, diminuídas, desvalorizadas em sua inteligência e seu valor moral. O próprio nome do animal no qual o javali foi transformado se tornou o mais grosseiro dos insultos; a massa de carne que vemos chafurdando em poças enauseantes é tão terrível de olhar que evitamos alegremente qualquer analogia de nome entre a criatura e os pratos que fazemos dela. Que diferença de forma e de galope entre o muflão que salta sobre as rochas das montanhas e a ovelha que, então destituída de qualquer iniciativa individual, mera carne estupidificada entregue ao medo, não se afasta mais do rebanho, e joga a si mesma debaixo dos dentes do cão que a persegue. A mesma degradação sobre o boi, que nós vemos hoje em dia se movendo com dificuldade nos pastos, transformado pelos criadores em uma enorme massa ambulante de formas geométricas, como se tivesse sido desenhado previamente pela faca do açougueiro. E é à produção destes monstros que nós aplicamos o termo “criação”! Eis como os homens cumprem sua missão de educadores quanto aos seus irmãos, os animais!

Quanto ao resto, não é assim que nós agimos em relação à natureza inteira? Solte um bando de engenheiros em um vale charmoso, no meio de prados e árvores, sobre os bancos de qualquer rio belo, e verá você em breve o que eles terão feito! Eles terão tido todo o cuidado em tornar seu trabalho pessoal também o mais evidente possível e em mascarar a natureza sob suas pilhas de pedras e carvão; da mesma maneira, eles todos estariam orgulhosos de ver a fumaça de suas locomotivas se entrecruzando no céu em uma rede imunda de faixas amareladas ou negras. É verdade que estes mesmos engenheiros alegam no momento embelezar a natureza. É assim como os artistas belgas protestando recentemente contra a devastação das paisagens ribeirinhas do Meuse, e o ministro se apressando em lhes comunicar que a partir de então eles ficariam contentes com ela: ele se comprometeu a construir as novas fábricas com torres góticas! Da mesma maneira os açougueiros expõem os cadáveres esquartejados, as carnes sanguinolentas sob os olhos do público, mesmo na lateral das ruas mais frequentadas, ao lado das floriculturas e perfumarias; da mesma maneira eles têm a audácia de colocar guirlandas de rosas por sob as carnes penduradas, e a estética está salva!

Surpreendemo­nos ao ler nos jornais que todas as atrocidades da guerra da China são não um pesadelo, mas uma realidade lamentável! Como pode ser que homens que tiveram a felicidade de ser acariciados por sua mãe e de aprender nas escolas as palavras de justiça e de bondade, como pode ser que estas feras com faces humanas sintam prazer em amarrar os chineses uns aos outros por suas vestimentas e seus rabos de cavalo para lhes jogar em um rio? Como pode ser que eles acabem com os feridos e façam os prisioneiros cavar suas covas na frente dos fuzis? E quem são estes assassinos assustadores? Eles são gente que nos assemelha, que estudam e leem como nós, que têm irmãos, amigos, uma esposa ou uma noiva; e, mais cedo ou mais tarde, nós podemos ter a chance de conhecê­los, de apertar sua mão sem encontrar os vestígios do sangue vertido! Mas não há alguma relação direta de causa e efeito entre a dieta destes carrascos que se dizem “civilizadores” e seus atos ferozes? Eles também se acostumaram a glorificar a carne sangrenta como geradora de saúde, de força e de inteligência. Eles também entram sem repugnância nos matadouros onde se escorrega sobre o pavimento avermelhado e onde se respira o odor insípido e doce do sangue! Não há portanto grande diferença entre o cadáver de um boi e o de um homem. Os membros amputados e as entranhas se misturando umas com as outras se parecem muito: o abate do primeiro facilita o assassinato do segundo, especialmente quando ressoa a ordem de um chefe e ou quando de longe vem as palavras do mestre coroado, “Seja impiedoso”.

Um provérbio francês diz que “qualquer caso ruim pode ser negado”. Este ditado teria uma certa quantidade de verdade se os soldados de cada nação tivessem cometido suas crueldades isoladamente; poderiam então ser colocadas sob a culpa da inveja, do ódio nacional, as atrocidades atribuídas a eles; mas na China, russos, franceses, ingleses, alemães não se escondem mais modestamente uns dos outros: as testemunhas oculares e os próprios atores nos informam em todas as línguas, uns com cinismo, outros com reticência. A verdade não pode mais ser negada; mas deve­se criar uma nova moral para lhe explicar. Esta moral é que há dois direitos das pessoas, um que se aplica aos amarelos, e a outra que é o privilégio das brancas. Assassinar, torturar os primeiros parece de agora em diante permitido, enquanto seria errado fazê­lo aos segundos. Mas em relação aos animais, a moral não é igualmente elástica? Ao provocar cachorros para rasgar uma raposa em pedaços, o cavalheiro aprende a lançar seus homens sobre o chinês que foge. As duas caçadas não são nada além de um mesmo esporte; entretanto, quando a vítima é um homem, a emoção, o prazer são provavelmente mais fortes. Que o diga aquele que invocou recentemente o nome de Átila para dar este monstro de exemplo a seus guerreiros!

Não é uma digressão mencionar os horrores da guerra em conexão com o massacre de gado e os banquetes para carnívoros. A dieta corresponde bem aos modos dos indivíduos. Sangue chama sangue. A este respeito, qualquer um pode consultar suas lembranças sobre os homens que conhece, e nenhuma dúvida pode permanecer em sua mente sobre o contraste que, de uma maneira geral, os vegetarianos apresentam com os gordos devoradores de carne, os ávidos bebedores de sangue, em amenidade de modos, na doçura do caráter, na igualdade da vida.

É verdade que estas são qualidades tidas em medíocre estima por aqueles “super­homens” que, sem serem superiores aos outros mortais, têm pelo menos mais arrogância e pretendem se elevar pelo desprezo dos humildes, pela exaltação dos fortes. De acordo com eles a doçura seria dos fracos e os doentes obstruem o caminho, e seria um ato de caridade se livrar deles. Se nós não os matássemos, que ao menos os deixássemos morrer! Mas é isto que, precisamente, torna os doces capazes de serem mais resistentes ao mal que os violentos: os sanguinários e os de ódio de cor não são normalmente aqueles que vivem mais tempo; os verdadeiramente fortes não são aqueles que carregam toda a força na superfície, na vermelhidão da face, na projeção dos músculos ou na corpulência da gordura reluzente. Ademais, a estatística poderá nos informar em breve de uma maneira positiva quanto a este respeito; ela já o teria feito se tanta gente interessada não tivesse ocupada em reunir de qualquer jeito os números verdadeiros ou falsos para defender suas respectivas teorias.

Quaisquer que eles sejam, nós dizemos simplesmente que para a grande maioria dos vegetarianos a questão não é saber se seus bíceps e tríceps são mais sólidos que os dos carnívoros, nem mesmo se seu organismo apresenta contra os riscos da vida e as chances da morte uma força de resistência maior, o que é o mais importante para eles é o ato de reconhecer a solidariedade de afeição e de bondade que une o homem ao animal; consiste em estender a nossos irmãos ditos inferiores o sentimento que na espécie humana já pôs um fim ao canibalismo. As razões que os antropófagos poderiam invocar contra o abandono da carne humana na alimentação cotidiana teriam o mesmo valor que aquelas usadas hoje em dia pelos carnívoros comuns; os argumentos que fizeram valer contra o costume monstruoso são justamente os que nós invocamos hoje em dia; o cavalo e o boi, o coelho e o gato, o veado e a lebre nos convém mais como amigos que como carne. Nós queremos lhes conservar ou como companheiros de trabalho respeitáveis, ou como simples associados na alegria de viver e de amar.

“Mas”, nos dirão, “se você se abster da carne de animais, outros carnívoros, humanos ou feras, os comerão no lugar de você, ou então a fome e os elementos se encarregarão de destruí­los”. Sem dúvida o balanço da espécie se manterá como antes, conforme as chances da vida e a entreluta de apetites; mas ao menos no conflito de raças, é a outros que pertence o papel de destruidor. Nós desenvolveremos a parte da terra que é nossa, tornando­a o mais agradável possível, não somente para nós mesmos, mas também para as criaturas de nosso círculo familiar; nós levaremos a sério o papel de educadores que desde as épocas pré­históricas o homem se atribuiu. Nossa parte da responsabilidade na transformação da ordem universal não se estende para além de nós mesmos e de nosso ambiente imediato. Se nós fizermos poucas coisas, ao menos este pouco será nosso trabalho.

É certo que se nós defendermos a ideia quimérica de empurrar a prática da teoria até suas consequências últimas e lógicas, sem nos preocuparmos com considerações de outra natureza, nós cairemos em absurdo puro. Neste aspecto o princípio do vegetarianismo não difere de nenhum outro princípio: ele deve se acomodar às condições comuns da vida. Evidentemente, nós não temos a intenção de subordinar todas nossas práticas e ações de cada hora, de cada minuto ao respeito pela vida dos infinitamente pequenos; nós não nos deixaremos morrer de fome e de sede como o lama budista, quando o microscópio nos tiver mostrado uma gota de água toda infestada de animálculos. Nós não nos incomodaremos mesmo no momento de cortar um bastão na floresta, nem mesmo para colher uma flor em um jardim; da mesma maneira nós iremos colher as alfaces, os repolhos e os aspargos para nossa alimentação, apesar de nós reconhecermos plenamente a vida nas plantas como também nos animais. Mas isso é não para fundarmos uma nova religião e não nos fecharmos com um dogmatismo de sectários; é uma questão de tornar nossa existência tão bela quanto possível e de conformar o tanto que existe em nós às condições estéticas do meio. Da mesma forma que nossos ancestrais ficaram enojados de comer a carne de seus semelhantes e um belo dia cessaram de lhes servir em suas mesas, da mesma maneira que entre os carnívoros há muitos que se recusam a comer a carne do nobre cavalo, companheiro do homem, ou a dos cães e dos gatos, animais de estimação, da mesma maneira nos enojamos de beber o sangue e de mastigar entre nossos dentes o músculo do boi, o animal trabalhador que nos dá o pão. Nós ansiamos por não mais escutar os balidos das ovelhas, os mugidos das vacas, os grunhidos e os gritos estridentes dos porcos quando os levamos para o abatedouro; nós aspiramos ao tempo em que não passaremos mais correndo para encurtar o horrível minuto na frente do local de massacre com córregos sanguinolentos e fileiras de ganchos afiados onde penduram os cadáveres, e a equipe manchada de sangue, armada de facas horríveis. Nós temos a preocupação de viver enfim em uma cidade onde não corramos mais o risco de ver açougues cheios de cadáveres ao lado das sedarias e joalherias, na frente da farmácia ou da vitrine de frutas perfumadas, ou da bela livraria, ornamentada de gravuras, de estatuetas e de obras de arte. Nós queremos em volta de nós um meio que atraia o olhar e que se sintonize com a beleza. E já que os fisiologistas – melhor ainda – nossa experiência pessoal nos diz que estas feias comidas de carnes esquartejadas não são necessárias para manter nossa existência, nós nos afastamos desses alimentos horrorosos que agradaram nossos ancestrais, e que agradam ainda à maioria de nossos contemporâneos. Nós esperamos que em não muito tempo estes tenham ao menos a educação de esconder sua comida. Os abatedouros já estão relegados aos subúrbios afastados: que os açougues sigam o mesmo caminho, encolhendo-­se como os estábulos nos cantos obscuros!

A feiura é também a razão pela qual nós abominamos a vivissecção e toda experiência perigosa, a não ser quando elas são heroicamente praticadas pelo gênio sobre sua própria pessoa. É também porque seu trabalho é feio que o naturalista que espeta as borboletas em sua caixa e o que destrói todo o formigueiro para contar as formigas nos inspiram o desgosto. Nos reviramos de repulsa pelo engenheiro que deforma a natureza ao aprisionar uma cascata em suas tubulações de ferro, e pelo lenhador californiano que abate uma árvore de quatro mil anos e de cem metros de altura para exibir seus anéis nas feiras ou nas exposições. A feiura nas pessoas, nos atos, na vida, na natureza circundante, eis o inimigo por excelência. Tornemo­nos belos e que nossa vida seja bela!

Quais são então os alimentos que parecem responder melhor ao nosso ideal de beleza tanto em sua natureza quanto ao preparo que deve ter o objeto? Estes alimentos são precisamente aqueles que todo o tempo foram os mais apreciados pelos homens de vida simples e que podem passar melhor sem os artifícios mentirosos da cozinha. Eles são os ovos, os grãos e as frutas, ou seja, os produtos da vida animal e da vida vegetal que representam nos organismos a prisão temporária da vitalidade e a concentração dos elementos necessários à formação de novas vidas. Os ovos do animal, os grãos da planta, os frutos da árvore, são o fim de um organismo que não existe mais, o começo de um organismo que ainda não existe. O homem lhes recolhe para sua alimentação sem matar o ser que lhes deu, já que eles são formados no ponto de contato entre duas gerações. Além disso, os cientistas que estudam química orgânica não nos dizem que o ovo do animal ou da planta é o reservatório por excelência de todo elemento vital? Omne vivum ex ovo.


Texto de autoria dos escritor e ativista anarquista Jean Jacques Élisée Reclus, publicado originalmente em ‘La Grande Famille. Le Magazine International, A Propus du Végétarisme. La Réforme Alimentaire’, vol. V, nº 3, em 1901. Tradução feita por Ateneu Diego Giménez.