Minha resposta a Johanna

Na semana passada, recebi um e-mail de uma pessoa que vou identificar, com a permissão dela, somente como Johanna. Johanna escreveu, em parte:

“Você afirma que temos de investir todo nosso tempo e energia em tentar convencer as pessoas a se tornarem veganas. Acho uma idéia maravilhosa, mas e quanto a todas aquelas pessoas que não estão preocupadas em absoluto com os animais e que nunca vão se tornar veganas? E quanto àquelas que poderão se tornar veganas um dia, mas que não estão querendo fazê-lo já?
Não faria sentido buscar reformas bem-estaristas, com respeito a essas pessoas? Não é melhor encorajar essas pessoas a comerem alimentos produzidos de uma maneira mais humanitária, mesmo que as diferenças entre esses alimentos e aqueles produzidos de modo convencional possam não ser muito grandes?”

As preocupações de Johanna são típicas entre aqueles que promovem reformas bem-estaristas e a abordagem carne/produtos animais “felizes”. Estou colocando minha resposta a Johanna aqui no blog, na esperança de que outras pessoas a considerem útil para pensar sobre essas questões.

Eis minha resposta, Johanna:

Há basicamente três grupos de pessoas por aí.

O primeiro grupo consiste daquelas que, como você sugere, não ligam para os animais e nunca vão se tornar veganas, pelo menos não por razões éticas.

As pessoas desse primeiro grupo não vão, por definição, estar dispostas a pagar mais caro por alimentos que sejam vendidos como “produzidos de uma maneira mais humanitária”.

Se você estiver sugerindo que essas pessoas poderiam ser efetivamente forçadas a adquirir alimentos produzidos de uma maneira mais “humanitária” caso fôssemos legislar certas reformas no âmbito nacional, há pelo menos duas considerações.

Primeiro, qualquer medida bem-estarista que vá reduzir o sofrimento animal de algum modo significativo, e que vá ser aplicável a todos os alimentos produzidos a nível nacional (e que não tenha como alvo um mercado de nicho de consumidores ricos) vai ser custosa e vai resultar num aumento expressivo do preço da comida. Isto iria provocar uma reação política que asseguraria que as reformas não fossem aprovadas, ou que fossem enfraquecidas ao ponto de se tornarem completamente insignificantes.

Segundo, mesmo que as reformas fossem aprovadas, não está claro que — levando-se em conta a variedade de acordos de livre comércio — a importação de produtos animais produzidos de modo convencional poderia ser bloqueada. Até onde as pessoas deste primeiro grupo não ligam para os animais e não estão dispostas a pagar a mais pelo produto supostamente mais “humanitário”, elas vão simplesmente comprar o produto da fonte convencional.

Você deve saber que na Europa tem havido muita resistência à legislação nacional que pretende implementar as diretrizes do bem-estar animal da Comunidade Européia.

O segundo grupo consiste daquelas pessoas que se importam com a ética animal e que se tornariam veganas imediatamente, se lhes fosse apresentado um bom argumento dizendo que elas não deveriam comer quaisquer produtos animais e que não há nenhuma distinção moral entre peixe, ovo ou laticínio.

No caso de você, em vez de abordar essas pessoas com uma mensagem vegana clara, lhes dizer que elas podem cumprir suas obrigações morais para com os animais comendo ovos de galinhas criadas livres de gaiolas de bateria, ou carne portando o selo “humanitário” Certified Humane Raised and Handled, ou o selo Animal Compassionate, ou qualquer outro dos selos e rótulos “carne feliz”, ou lhes dizer que, conforme analistas como Peter Singer, elas podem “ocasionalmente se regalar com o luxo de ovos de aves criadas soltas, ou possivelmente até comer carne de animais que viveram uma boa vida em condições naturais para sua espécie e depois foram mortos humanitariamente na fazenda”, elas poderão muito bem não se tornar veganas.

Perdi a conta das vezes em que defensores animais vieram me dizer que foram vegetarianos durante anos, mas que agora estão se tornando veganos, depois de assistirem a uma palestra, ou ouvirem uma entrevista, ou lerem algo que escrevi sobre como a carne é indistinguível do laticínio, e sobre como qualquer coisa que não seja o veganismo é exploração animal.

Por exemplo, em resposta a um seminário sobre direitos animais que dei recentemente em um abrigo que não mata, uma voluntária escreveu:

Fui vegetariana durante mais ou menos 12 anos, antes do seminário, e tenho sido vegana desde que saí do abrigo após sua visita. Acho que foi o exemplo de Simon, o sádico, que você deu, que realmente me pegou. De qualquer modo, eu só queria lhe agradecer por ter vindo falar aqui. Tornar-me vegana realmente me despertou para reavaliar as contradições em minha vida, sem falar em toda a nova e excelente comida que eu não teria experimentado porque eu era uma vegetariana preguiçosa e achava muito mais fácil encomendar pizzas”.

(Você pode ler o exemplo do Simon, o sádico, aqui.)

Em resposta à minha entrevista na The Vegan, um leitor escreveu:

No final da entrevista você disse: ‘Passo muito tempo conversando com meus amigos sobre veganismo e folgo em dizer que muitos deles se tornaram veganos. E eu nunca paro de tentar convencer os outros. Nunca’.
Eu só queria que você soubesse que sou um dos seus convertidos! Vegetariano durante 30 anos, tornei-me vegano 1 ano atrás, depois de ler umas coisas suas on line, para as quais minha filha vegana havia chamado minha atenção. Minha reação foi ‘Sim, isto está absolutamente certo’ e meu único arrependimento é não ter feito isso décadas atrás.

Apóio totalmente sua exemplificação, que parece tão obviamente certa, verdadeira e pensada com tanta clareza que às vezes é difícil entender por que todo mundo não a enxerga”.

Recebo dúzias dessas mensagens. A mesma coisa acontece com Bob e Jenna Torres lá do Vegan Freaks. Conversamos quase todas as semanas sobre e-mails e telefonemas que recebemos de pessoas que estão se tornando veganas porque elas finalmente “entenderam”. Elas pensavam que fosse moralmente aceitável ser menos do que veganas porque isto era precisamente o que o “movimento” lhes dizia.

O terceiro grupo consiste daquelas pessoas que não vão se tornar veganas imediatamente, mesmo que você lhes apresente uma mensagem vegana persuasiva. Será que deveríamos encorajar essas pessoas a consumirem ovos de aves criadas livres de gaiolas de bateria, ou carne “feliz”, ou a eliminar a carne mas não o laticínio, etc., como passos incrementais na direção do veganismo?

Não no meu modo de ver.

Muitos bem-estaristas parecem pensar que se você der uma mensagem vegana a uma pessoa que não esteja disposta a se tornar vegana imediatamente, esta pessoa não vai fazer nada. Em que se baseia essa pressuposição? Na verdade, o senso comum nos diz o contrário. Se você apresentar uma mensagem vegana a uma pessoa que se importa com a ética animal, mas que ainda não está preparada para se tornar vegana, ela vai, muito provavelmente, fazer algo aquém de se tornar vegana, mas não vai ficar sem fazer nada. Mas você pode ficar absolutamente certa de que se você disser a essa pessoa que ela não precisa se tornar vegana para cumprir suas obrigações morais para com os animais, ela não vai se tornar vegana. Se você disser às pessoas deste grupo que é aceitável comer ovos de aves livres de gaiolas de bateria, ou carne “feliz”, ou que é moralmente aceitável que elas sejam “onívoras conscienciosas”, é precisamente isto que elas farão e tudo o que farão.

Se você explicar a posição vegana com clareza, a pessoa que realmente se importa com os animais, mas que não quer se tornar vegana imediatamente, irá fazer algo aquém de ser vegana. A questão é, o que ela deverá fazer?

Quando lidamos com uma defensora dos animais que, depois de considerar os argumentos pelo veganismo, diz que não vai se tornar vegana imediatamente, a resposta não é lhe sugerir que coma ovos de galinhas livres de gaiolas de bateria nem que compre “carne feliz” do Whole Foods.

Ao fazer essa sugestão, você está encorajando a pessoa a acreditar que existe uma diferença entre ovos produzidos em gaiolas de bateria e ovos produzidos fora de gaiolas de bateria, ou entre a carne “feliz” do Whole Foods e a carne convencional. Não há nenhuma diferença significativa. É tudo horrível. O movimento carne “feliz” faz as pessoas se sentirem à vontade quanto à exploração animal e as encoraja a consumirem animais e produtos de origem animal.

Não há distinção entre carne e laticínio. Dizer que você não come carne, mas come laticínio ou ovo, é como dizer que você come vacas grandes, mas não come vacas pequenas. Há tanto sofrimento em um copo de leite quanto em meio quilo de carne — se é que não há mais sofrimento ainda — e todos esses animais terminam no mesmo matadouro, depois do quê nós os comemos, de qualquer forma.

E também o que tende a acontecer com muitas pessoas é que, quando elas desistem da carne, passam a comer mais laticínios e ovos. Que tipo de “progresso” é esse?

Temos de deixar sempre claro que não há nenhuma distinção moral entre carne e qualquer outra coisa que provenha de animais. É tudo ruim. Tudo isso faz parte da exploração dos não-humanos, que não pode ser justificada moralmente, tenha a forma que tiver.

Uma solução prática melhor é sugerir uma abordagem incremental mais consistente com a noção de que nós não devemos comer nenhum alimento de origem animal.

Eu freqüentemente sugiro, a uma pessoa deste terceiro grupo, que ela se torne vegana durante uma de suas refeições diárias, por uma semana ou duas. E que depois ela passe para duas refeições na terceira e na quarta semana, e três refeições na quinta e na sexta semana. Eu lhe forneço informações sobre nutrição vegana e lhe indico alguns dos excelentes websites que demonstram, com tanta clareza, como é simples tornar-se vegano, e que apresentam a vasta gama de excelentes opções nutricionais disponíveis.

Acho muito importante ser honesto com as pessoas e deixar bem claro que, em nossa sociedade, que é toda permeada pela exploração animal, é impossível evitar esta exploração completamente. Mas de uma coisa podemos ter absoluta certeza: se você não for vegana, você é uma exploradora dos animais. É imperativo que seja dito com muita clareza, às pessoas que se importam com os animais, que apenas “se importar” com o assunto não é suficiente. A gente tem de pôr nossos princípios em prática.

Embora a abordagem incremental que descrevi seja melhor do que consumir ovos de galinhas livres de gaiolas de bateria e carne “feliz”, e melhor do que aumentar os lucros dos exploradores cujos produtos animais custam mais caro e não são mais “humanitários” do que os produtos convencionais, é importante deixar claro, a todos que se importam com esta questão, que qualquer coisa aquém do veganismo significa que eles estão colocando o próprio prazer acima da vida e do sofrimento dos não-humanos que eles estão continuando a comer. Nós nunca devemos “aprovar” que se coma qualquer produto de origem animal em qualquercircunstância. Devemos sempre rejeitar, clara e inequivocamente, a visão de Singer de que ser um vegano coerente é “fanatismo” ou de que talvez tenhamos a obrigação de não comer comida vegana se, ao fazê-lo, provocarmos nos outros reações como a frase “Ai meu deus, esses veganos…”.

O que eu nunca faço é reforçar a idéia — promovida por muitos dos grandes grupos do bem-estar animal — de que o veganismo envolve uma mudança difícil do estilo de vida e é factível somente para quem for ótimo em se auto-sacrificar e em seguir uma disciplina monástica. Eu digo a verdade: veganismo é fácil. A comida vegana deliciosa e nutritiva não precisa ser cara. E eu reforço a idéia de que, se a pessoa levar mesmo a sério a ética animal, não há outra opção.

E no que diz respeito ao alcance do nosso ativismo, lembre-se de que se trata de um jogo de soma zero. O tempo e os recursos que você gasta em promover a carne e os outros produtos animais “felizes” são o tempo e os recursos que você não gasta em proporcionar uma educação vegana clara e inequívoca. Nosso tempo e nossos recursos são limitados. Esse tempo e esses recursos têm de ser empregados em educação vegana clara e inequívoca. Este é o melhor modo de se reduzir o uso e o sofrimento a curto prazo e é o único modo de se construir um movimento abolicionista a longo prazo, capaz de desviar o paradigma da condição dos animais como propriedade.

O movimento carne/produtos animais “felizes” envolve uma aliança necessária entre os defensores dos animais e os exploradores institucionalizados, na qual os defensores dos animais se tornam efetivamente sócios dos exploradores institucionais, fomentadores da carne, dos laticínios e dos ovos “humanitários”. A abordagem abolicionista rejeita essa aliança.


Texto de autoria do professor universitário de Direito Gary Lawrence Francione, com tradução de Regina Rheda, originalmente publicado no site abolitionistapproach.com e republicado no extinto site pensataanimal.net em Janeiro de 2009.

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