O papel dos cientistas no debate sobre bem-estar animal

Cientistas, no geral, tendem a se manter afastados do debate político e ético. Contudo, mais e mais questões éticas e políticas, especialmente no século 21, dependem do conhecimento científico, em conhecer os fatos científicos e suas teorias. Exemplos vão desde o aquecimento global até a ascensão da inteligência artificial e da engenharia genética.

Você pode ter diferentes opiniões sobre esses assuntos, mas se você não conhece os fatos científicos, suas opiniões não deveriam contar tanto assim e, como cientista, deveria aceitar uma maior responsabilidade política e ética. Eles deveriam saber que, nesse contexto, o silêncio também é um posicionamento político. Se cientistas conhecem alguma coisa importante, que é relevante para o atual debate político, e eles escolhem não dizê-lo publicamente, isso também é uma escolha ética.

Claro, a ciência não pode decidir questões éticas, não é o papel da ciência, mas a ciência pode decidir questões factuais. A ciência nunca nos diz o que é bom. Ela apenas pode nos dizer o que é real, o que é verdade. Infelizmente, muitas discussões éticas, especialmente sobre animais, ficam presas ao nível dos fatos. E a ciência pode ser, portanto, de grande ajuda em fazer com que essas discussões avancem.

No debate sobre o bem-estar de animais de fazenda, como vacas, galinhas e porcos, duas questões chave são sobre se animais podem sofrer como um todo e, em segundo, se eles sofrem na prática. Por exemplo, vacas leiteiras sofrem quando são separadas de seus bezerros? Você frequentemente ouve pessoas engajadas nessa discussão ética e política, dizendo coisas como “vacas não podem experimentar dor” ou “vacas não ficam tristes quando são separadas de seus filhotes porque elas simplesmente não podem sentir tristeza, pois isso é uma emoção humana, e é humanizar as vacas dizer que elas podem ficar tristes.” Ou às vezes as pessoas dizem, “se você pensa que vacas podem experimentar dor, então que tal o alface? Talvez o alface também experimente dor então não deveríamos cortar alfaces e nem comê-los.” Tais afirmações que, muitas vezes, podem ser ouvidas no debate sobre o bem-estar dos animais refletem ignorância científica.

Certamente há lugar para diferentes visões éticas preocupadas com o tratamento dado a vacas leiteiras, mas apenas na base dos fatos científicos. As pessoas estão autorizadas a ter suas próprias visões mas não estão autorizadas a ter seus próprios fatos. Considere a questão “Está tudo bem em infligir dor em vacas no intuito de prover prazer para seres humanos?” Você pode ter diferentes visões éticas sobre o assunto, mas argumentar que vacas simplesmente não experimentam dor não é mais uma parte legítima da discussão. Não em 2017.

Então, a partir de 2017, pelo melhor do nosso entendimento científico, quais são os fatos? Mas primeiro e mais importante, o entendimento científico em 2017 é que todos os mamíferos e todos os pássaros, e provavelmente pelo menos alguns répteis e peixes, e outros organismos são seres conscientes e sencientes. Eles todos têm a capacidade de experimentar sensações e emoções. Em contraste, não temos evidência alguma e nenhuma razão científica para pensar que alfaces ou tomates podem experimentar dor ou experimentar medo.

Outro fato importante é que mamíferos e pássaros, eles podem sentir não apenas, você sabe, dor e prazer, mas eles têm um muito complexo mundo de sensações e emoções. Emoções não são algo que Deus deu apenas aos homo sapiens para escrever poesia ou apreciar música. Emoções são algo que a seleção natural evoluiu em todos os mamíferos e outros animais para que tomem decisões em suas vidas.

Pense por exemplo no babuíno parado em algum lugar na savana africana, e o babuíno vê que, não tão longe, há uma árvore com bananas nela, mas também há um leão por perto, e o babuíno precisa tomar uma decisão se deve arriscar sua vida pelas bananas ou não. “Devo correr pelas bananas e arriscar que o leão me coma ou eu deveria ir embora?” Agora, como o babuíno faz esse tipo de decisão? Para fazer uma decisão, o babuíno precisa ter um monte de informação sobre a situação. Qual é a distância até as bananas? Quantas bananas há lá? Elas são grandes ou pequenas? Estão verdes ou maduras? O babuíno também precisa de informação sobre o leão. Quão longe está o leão? Quão grande é o leão? O leão está dormindo ou acordado? O babuíno precisa de informação sobre si mesmo. Quão rápido posso correr? Quão faminto estou? O babuíno precisa pegar todos esses pedaços de informação, analisá-los, e, dentro de uma fração de segundo, fazer uma decisão. Agora, como o babuíno faz isso? Ora, o babuíno não tira uma caneta e um pedaço de papel, e uma calculadora, e começa a fazer cálculos. Não.

O que chamamos sensações e emoções são o mecanismo que a seleção natural deu aos mamíferos, humanos e babuínos, para fazerem decisões. Os sentidos do babuíno, a visão, os cheiros, as vozes, numa fração de segundo, o babuíno experimentará uma tempestade de sensações e o resultado de toda essa informação vindo junta será uma emoção. Se for muito arriscado, o babuíno sentirá medo. Se for uma boa ideia, o babuíno sentirá coragem. Seu peito vai inchar ou seu cabelo vai ficar de pé. Ele sentirá “Sim, posso fazer isso!” e ele irá atrás das bananas.

Emoções como medo e coragem, não são únicas nos seres humanos. Elas são comuns a todos os mamíferos e provavelmente a muitos outros animais porque elas são ferramentas práticas para animais tomarem decisões. É claro que provavelmente algumas emoções são unicamente humanas. Por exemplo, culpa, até onde sabemos pode ser uma emoção que apenas humanos têm e não babuínos ou vacas, ou frangos. É também provável, claro, que haja algumas outras emoções que são únicas, digamos… a baleias, e que humanos não têm essas emoções, e nós simplesmente não temos ideia do que são. Entretanto, as emoções básicas como medo são provavelmente comuns a todos os mamíferos e pássaros.

Outra emoção muito importante e comum é o amor materno, o vínculo entre mães e filhos. Sem um vínculo emocional forte entre mãe e filhos, nenhum mamífero consegue sobreviver e reproduzir. Seja você uma girafa ou um babuíno, ou um golfinho, ou um rato, se não há vínculo entre mãe e filho, nesse caso de mamíferos, os filhos não sobreviverão pois eles dependem do leite e do cuidado da mãe por pelo menos algumas semanas, se não meses e anos.

Ainda assim, embora a ciência nos diga, agora, muito claramente que essa emoção do vínculo mãe-filhos sejam comum a todos os mamíferos, nós ignoramos isso para além do contexto científico, no contexto das fazendas industriais. Toda a indústria do leite está baseada em quebrar esse laço mais básico do reino mamífero, o vínculo entre mãe e seus filhos. Uma vaca não dará leite a não ser que, primeiro, seja grávida e isso a faz ter pequenos bezerros, mas então se você deixar que o bezerro fique por perto e beba o leite, você não terá nada para a indústria do leite. Então, toda a indústria do leite é fundada em engravidar vacas e então quando elas dão à luz, separar a mãe de seus filhos, geralmente engordando os bezerros e os abatendo, e ordenhando a vaca até ela secar, e então você faz a vaca ficar grávida de novo e começa outro ciclo. Para o melhor do nosso entendimento, isso provavelmente causará muita miséria, muita dor emocional, tanto para a mãe quanto para o filho.

Então, outro fato que a ciência hoje em dia suporta é que quando queremos entender, quando examinamos a condição dos animais de fazenda, nós devemos ter em mente não apenas suas necessidades materiais básicas como a necessidade de comida e de água, nós devemos também levar em consideração as necessidades emocionais e sociais. Você pode argumentar, é claro, sobre em que medida as emoções e necessidades sociais de vacas e frangos são satisfeitas na fazenda industrial, mas você não pode argumentar que vacas e frangos não têm, em absoluto, quaisquer emoções e necessidades sociais.

Finalmente, há boas razões científicas para pensar que as necessidades emocionais e sociais dos animais de fazenda são sistematicamente ignoradas e frustradas em fazendas industriais. Tome por exemplo a necessidade social de brincar, que é, mais uma vez, comum a todo mamífero jovem, como crianças humanas e filhotes (pets), e bezerros.

O impulso para brincar tem raízes evolutivas profundas. Em animais sociais como gado selvagem, animais que vivem em grupos, brincar é um método vital para os membros jovens dessa sociedade para que aprendam regras de conduta, como lutar, como restaurar a paz, como cooperar, como pegar. Se um gado jovem, por alguma razão genética, nasceu, digamos, sem o impulso, sem o desejo de brincar, esse gado não aprenderá as regras da sociedade dos gados e não estará apto a sobreviver e reproduzir, ao menos não na selva.

O gado domesticado, é claro, não precisa nem um pouco disso porque humanos os dão comida, humanos os protegem de perigos, e humanos usam tecnologia artificial para controlar a reprodução. Mas um impulso emocional ou social, como brincar, que é desenvolvido na natureza, não desaparece nos animais domesticados, ele ainda está lá. Os animais ainda o sentem. E o mesmo ocorre com seres humanos. Por que, por exemplo, devoramos chocolate quando não é bom para nós? Por que ainda somos inclinados por desejos, por emoções, por impulsos, que evoluíram centenas de milhares de anos atrás na savana africana. Quando isso chega aos humanos, nós satisfazemos nossos desejos e impulsos mesmo se são desnecessários hoje em dia. Mas quando isso vem aos animais, tendemos a ignorá-los, e isso causa sofrimento tremendo aos animais.

Um gado que é separado de sua mãe e de outros gados, e é trancado numa jaula pequena, sem qualquer oportunidade de brincar será extremamente miserável, tanto quanto uma criança ou um filhotinho será extremamente miserável sob essas condições. E ainda assim esse é o destino de milhões e milhões de gados todos os dias ao redor do mundo. Então, para concluir, eu espero que cientistas tomem uma parte muito mais ativa na discussão ética e política sobre o bem-estar dos animais. Eles não podem decidir as questões éticas mas eles precisam clarificar os fatos, e eles deveriam descreditar alegações ignorantes como as de que vacas não podem sentir dor ou que outros animais não têm emoções, de modo que apenas humanos as tenham. Cientistas que conhecem os fatos mas escolhem se manter em silêncio devem saber que não estão sendo neutros. Silêncio frente à miséria é uma escolha ética muito infeliz.


Texto de autoria do historiador Yuval Noah Harari, publicado em novembro de 2017, originalmente em https://www.youtube.com/watch?v=h3aLioDNAYg. Tradução por Marcos Oliveira.

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