O reiki e a homeopatia veterinária não ajudam os animais

Pode soar estranho alguém dizer que defensores dos animais não devem apoiar práticas como a homeopatia e o reiki para animais, afinal essas coisas ajudam eles, certo? Errado. Elas têm a intenção de ajudá-los, mas não endossadas cientificamente, ou melhor dizendo, os testes feitos até hoje mostraram que elas não funcionam como esperamos em humanos, quem dirá em animais.

Como sociedade nós ainda temos uma péssima e perigosa cultura hipocondríaca. Por motivos banais nós usamos remédios e nos auto-medicamos. Claro, os remédios não nos curam, eles apenas tratam rapidamente sintomas. Para sermos saudáveis precisamos de prevenção – prevenção é o melhor remédio -, bons hábitos alimentares e físicos, além de exames rotineiros e tratamentos completos. Por outro lado, como tudo na vida, a ciência e medicina tradicional não são perfeitas. Muitas vezes os seus tratamentos não conseguem salvar pessoas que amamos e não resolvem nossos problemas e isso é frustrante. Na esperança da cura para problemas que os medicamentos e métodos tradicionais não resolvem recorremos a homeopatia, a acupuntura, o reiki, cirurgias espirituais e outras “medicinas alternativas”. Essas técnicas, criadas por alquimistas do passado, oferecem tratamentos integrais e menos agressivos, apelar à eles é uma esperança e essa esperança pode virar hábito.

Estas áreas também nos seduzem porque vão contramão das grandes corporações capitalistas da qual a grande indústria farmacêutica faz parte, elas soam libertadoras. Pensando que são uma saída, acabamos comprando o ideal de que aquilo que é “natural” e que nossos antepassados fizeram é melhor, mas o que não sabemos é que este discurso tecnofóbico contém uma mensagem reveladora contra o progresso da medicina e da ciência.

Muitas pessoas acreditam que a indústria farmacêutica pode ser manipuladora, que ela faz lobbying e que conta algumas mentiras, afinal, toda grande indústria que visa o lucro pode acabar fazendo isso, de fato precisamos ficar alertas. Temos alguns exemplos para desconfiar disso. A pecuária industrial é um deles.

Aqueles que lucram sobre a exploração animal não querem que as pessoas saibam a forma que os animais são tratados e que eles sofrem, pois isso as sensibiliza e sensibilização acarreta em menos consumo. Assim, esta indústria investe muito dinheiro em publicidade e sempre tenta reafirmar que os animais são bem-tratados para acabar anestesiando a consciência das pessoas, desta forma elas não mudam seus hábitos e a engrenagem não para de girar, o lucro continua.

Outro caso é o consenso entre a comunidade científica que o humano tem papel fundamental na mudança climática e que a pecuária industrial é um dos principais causadores do aquecimento global, mas apesar disso esta área continua a fazer lobbying político e recebendo subsídios governamentais, assim incentiva mais a criação e o consumo desenfreado de animais num looping retroalimentado onde nossas florestas podem virar pasto e cerrado.

A mesma lógica acontece com a indústria de produtos alimentícios industrializados cheios de sal, açúcar e conservantes. Apesar das maiores instituição de saúde e dieta no mundo atestarem que eles fazem mal à nossa saúde por conta dos altos níveis destas substâncias, as indústrias investem pesadamente em publicidade dando a entender que com eles seremos mais felizes, essa estratégia de focar nos benefícios e tentam ocultar ao máximo os malefícios ajuda a moldar nossos hábitos.

Ótimo, temos boas razões para desconfiar da medicina e da ciência, certo? Não é bem por aí. Aqui cabe uma um adendo importante, como as instituições de saúde sabem que estas coisas nos fazem mal? Com pesquisas científicas.

Há uma confusão sobre o que é fato científico e o que é opinião, ambos não tem o mesmo peso para o conhecimento. Nossas opiniões não têm o mesmo valor de metaanálises (análises que combinam o resultado de diversos outros estudos). Evidências e dados em larga escala são fundamentais para atestamos que algo funciona, e tanto os médicos-nutricionistas quanto os cientistas do clima estão embasados em ambos. Apesar de existirem negacionistas do clima, publicitários de alimentos dos industrializados e terraplanistas, ambos não têm evidências forte sobre o assunto que estão falando. O mesmo ocorre com a homeopatia e o reiki, são crenças baseadas em fé de que funcionam e não em estudos com fortes evidências.

Mas por que afinal nós acreditamos em algumas coisas que a comunidade científica diz e em outras não? A resposta é a dissonância cognitiva. Da mesma forma que há pessoas que comem animais e dizem respeitar e amar animais mantendo uma incoerência lógica – sendo que os animais nos dois grupos distintos têm características muito semelhantes -, nós podemos viver algumas contradições por estarmos enviesados.

Nós acreditamos no poder da medicina quando tomamos vacina, quando fazemos cirurgias, quando vamos à consultas e quando tomamos os remédios que aliviam nossos sintomas, mas demonizamos a medicina quando pensamos que é ela também uma indústria e acreditamos que ela não é boa o suficiente quando por algum motivo acabam falhando. É bom termos ceticismo com aquilo que consumimos e também em relação à grandes indústrias, assim continuamos sempre buscando mais informações, mas temos que ter muito cuidado para não procurarmos informação nos lugares errados, afinal, há um mundo cheio de opiniões sem embasamento, informações falsas e gurus bem intencionados ou aproveitadores do outro lado, prontos para dizerem que tem a solução para nosso problemas.

Os gurus anti-medicina nos oferecem tratamentos “alternativos”, “naturais” e “espirituais” prometendo eficácia. Para corroborar, nós conhecemos sempre alguém com que essas coisas “funcionaram”, esse tipo de vivência reforça nossa ideia que elas realmente funcionam, mas uma coisa que aprendemos com o método científico é que experiências e relatos pessoais não provam nada. Precisamos sempre ter em mente que não é porque uma prática é milenar ou ‘natural’ que ela é segura e efetiva. Apesar de parecer que essas técnicas funcionam não há evidências robustas que as corroborem, ao contrário, há evidências que elas funcionam em humanos por conta de sua crença nelas, ocorrendo assim o efeito placebo.

Como funciona a homeopatia

O site de notícias que luta pelos direitos animais ANDA já noticiou algumas vezes que animais foram salvos com tratamentos homeopáticos, provavelmente por se opor aos testes cruéis em animais (que são éticamente questionáveis e devem ser substituídos com novas tecnologias), mas será esta uma atitude responsável? Vamos brevemente tentar entender porque a homeopatia não deve ser apoiada quando diz respeito aos animais.

Segundo texto publicado na Associação Médica Homeopática Brasileira:

A homeopatia “oi idealizada pelo médico alemão Samuel Hahnemann que, inconformado com a medicina praticada no século XIX com tratamento agressivos, através de observação e estudos, identificou outro meio de tratamento que não agredisse tanto o organismo. A homeopatia como as demais especialidades médicas continua se desenvolvendo e vendo explicados fenômenos que antes que antes só eram identificados pelo resultado do tratamento. A consulta homeopática, como toda consulta médica, compõe-se do interrogatório sintomatológico, exame físico e solicitação de exames complementares, quando necessários. Aliado a isso, também é imprescindível se abordar o aspecto psicológico do doente, sua maneira de ser e reagir frente aos fatos e à doença. Esse conjunto de informações levará a escolha da medicação que mais se adequa ao caso. A medicação é produzida por farmácias especializadas, com técnica preconizada pelo Conselho Federal de Farmácia na qual tem como uma das fases a diluição. O tratamento requer a observação da evolução do caso tanto do ponto de vista clínico, fisio-patológico como o psicológico. Observa-se um grande alcance da homeopatia em doenças crônicas, como alergias as mais diversas (eczemas atópicos, asma, …), enxaquecas de repetição, dismenorreia, etc. Nesse grupo de patologia a medicina convencional não consegue tratar mas tão somente aliviar e/ou espaçar as crises. Nestes casos observa-se o desequilíbrio do sistema orgânico que apresenta a sintomatologia. A homeopatia vem agir estimulando, através da medicação, o organismo para que retome o equilíbrio perdido promovendo assim a cura.”

Em geral, na defesa de seus tratamentos, homeopatas dizem que quando a abordagem biomédica não funciona a homeopatia é útil pois esta área faz um tratamento integral, buscando cuidar do físico e do emocional dos pacientes. Mas ao contrário dessas alegações, o biólogo com doutorado em genética molecular e professor livre-docente da Universidade de São Paulo, Beny Spira, mostra em seu artigo “A homeopatia é uma farsa“, publicado no Jornal da USP:

” princípio homeopático é baseado em duas premissas falsas:

(1) o princípio dos similares e (2) a lei dos infinitesimais. O primeiro prega a máxima Simila similibus curentur, que significa “similar cura similar”. Ou seja, uma determinada enfermidade pode ser curada com alguma substância que cause o mesmo sintoma. […] O princípio de “similar cura similar” é interessante, mas absolutamente errado, pois carece de evidências científicas. Se o primeiro princípio da homeopatia é equivocado, o que dizer, então, sobre o segundo princípio? […] A lei dos infinitesimais estabelece que, quanto maior a diluição de um medicamento, maior a sua capacidade curadora! […] Não há nenhum mecanismo que explique como uma solução homeopática ultradiluída possa ter qualquer efeito curativo.

[…] milhares de estudos já foram realizados, em todos os cantos do planeta. A grande maioria dos estudos clínicos devidamente bem conduzidos revelou que o tratamento homeopático equivale ao tratamento com placebo, ou seja, não foi detectado nenhum efeito curativo significativo de qualquer composto homeopático a não ser aquele causado por autossugestão”

Segundo ele a homeopatia é perigosa porque:

Muitas doenças são potencialmente debilitantes ou fatais. […] Para doenças benignas ou de baixa gravidade, o tratamento homeopático não causará dano maior; mas, se a enfermidade for grave, o resultado poderá ser fatal.”

Diversos cientistas ao redor do mundo compartilham da visão que ela é uma farsa, assim como a ideia do universo ter sido criado em sete dias e da personalidade das pessoas poderem ser determinadas de acordo com a posição dos astros. A homeopatia acaba sendo algo mais alarmante que outras questões de pseudociência, pois pretende ser acolhida na área da saúde, mesmo sem sua eficácia garantida. Esta área, assim como dietas milagrosas e terapias ‘quânticas’, podem por em risco a vida de pessoas.

Ela não é de todo mal, pois funciona pelo efeito placebo (ou seja, ela precisa da ignorância das pessoas para ter efeito), assim acaba sanando pequenos problemas de saúde, doenças simples de origem “psicológica”, como por exemplo a psoríase, ou até mesmo pequenas dores corporais sem diagnóstico grave. Mas no que diz respeito a tratamentos com bons resultados para doenças sérias como doenças crônicas e câncer, optar por um tratamento homeopático diminui as chances de cura, e isto quer dizer aumentar os riscos à saúde de quem opta por isto.

O mesmo ocorre com o reiki. Baseado numa ideia especulativa de energia vital universal que pode ser equilibrada com o poder dos reikianos, os tratamentos prometem cuidar do equilíbrio enérgicos das pessoas, melhorando assim a parte física, psicológica e espiritual. Talvez seja frustrante saber disso, mas não há evidência nenhuma que humanos emanem qualquer energia cósmica. Os efeitos do reiki – assim como os da acupuntura – também não passam de placebo, afinal não há nenhum estudo em grande escala, publicado em revistas científicas respeitadas, que comprovem a eficácia desta prática e nem estudos físicos que mostrem que há uma energia vital universal que podemos controlar, aliás os físicos repudiam tal ideia. “Mas há por aí um artigo que diz que ratos com câncer foram curados com heiki”, onde ele foi publicado? Qual o método? Ele foi replicado quantas vezes? Tem uma aceitação ampla em revistas científicas renomadas? Se algumas dessas perguntas a resposta for negativa, ainda não há boas evidências e é muito provável que este seja um cientista isolado e negacionista. Sim, eles existem.

Pode haver diversos bons tratamentos sem necessidade de remédios ou coisas do tipo? É claro que pode – inclusive, muitas vezes o próprio corpo pode se curar sem o uso de medicamentos -, mas infelizmente, a homeopatia parte de princípios errados (similaridade e diluição) e acaba funcionando em humanos apenas pelo efeito placebo. Partindo do pressuposto do funcionamento como placebo em humanos há evidências o suficiente para requerer o banimento desta prática no que diz respeito aos animais, afinal os animais não podem colher os benefícios do efeito placebo.

Infelizmente os fenômenos da natureza não são democráticos, podemos mentir para nós mesmos sobre como eles funcionam, mas não podemos mudar os fatos, então é melhor não colocarmos em risco quem depende de nós. A ciência e a medicina ‘tradicionais’ não são vilãs. Apesar de levantarem algumas desconfianças, a esmagadora maioria dos procedimentos médicos modernos – baseados em ciência – tem eficácia garantida, pois replicam-se resultados muitas e muitas vezes, então se nos importamos com os animais não devemos fazê-los correr os riscos por nossas crenças. É justamente por isso que veganos e protetores de animais, ainda que queiram aplicar alternativas para si mesmos, não devem apoiar a homeopatia veterinária, o reiki para animais e outras práticas ‘alternativas’.

Apesar de não ser ligado a questões de espiritualidade, o veganismo é, de certa forma, associado a isto pois há muitos veganos que misturam a causa as suas crenças. Claro, isso ajuda a fortalecer os estereótipo de que veganos são hippies, lunáticos e irracionais. Apesar de sermos livres para expressar nossa espiritualidade devemos deixar os animais de lado nelas, assim como bebês e pessoas que não deliberam sobre elas, pois apostar a saúde deles em tratamentos não eficazes pode por em risco suas integridade física e suas vidas. Veganos e protetores dos animais não devem apoiar tratamentos alternativos como a homeopatia veterinária e o reiki animal, elas podem nunca devem ser usadas como praticas substitutivas, isto é, quando um animal está mal a homeopatia veterinária nunca dever dar lugar a medicina veterinária.

Na defesa dos animais precisamos ser racionais, portanto, se queremos protegê-los devemos dar para eles uma alimentação de qualidade, hábitos saudáveis, um bom espaço higienizado, vacinações em dia, carinho e amor, e levá-los para fazer exames periódicos. Sempre que desconfiarmos que eles não estão bem precisamos levá-los em médicos veterinários formados e usar tratamentos convencionais, eles não merecem sofrer por nossa fé.

O movimento pelos animais precisa ser racionalista: pautado em uma ética secular e saber o valor do rigoroso método científico.

Busque conhecimento

O texto é curto e há muito material que agrega a esta reflexão, abaixo deixo alguns vídeos e links complementares que abordam um pouco mais sobre homeopatia:

  • “Nature” publica guia sobre pensamento crítico [link]
  • Por que a homeopatia, mesmo sem comprovação, ainda tem espaço no Brasil? (link)
  • Se a homeopatia não funciona, por que não é proibida? (link)
  • Após 1800 estudos, a ciência conclui, novamente, que homeopatia não funciona (link), em inglês
  • Vasto estudo conclui: Homeopatia não funciona (link), em inglês
  • O fim da homeopatia (link), em inglês
  • Não existe um caso científico para a homeopatia: o debate acabou (link), em inglês
  • Centenas de bebês prejudicados por homeopáticos, famílias dizem (link), em inglês
  • Tentar curar o câncer apenas com terapias alternativas duplica suas chances de morrer (link)
  • Tentativa de suicídio coletivo com remédios homeopáticos (link), em inglês
  • Homeopatia contra o câncer: por favor, não [link]
  • Homeopatia no Brasil: entre defensores e omissos [link]
  • Jornalismo no Brasil falha quando o assunto é homeopatia [link]
  • O falso charme do relativismo científico [link]
  • Por que cientistas desconfiam dos conhecimentos tradicionais? [link]
  • Datafobia: o medo de informação que ameaça o Brasil [link]
  • Medicina integrativa: melhor de “dois mundos”? [link]
  • Homeopatia veterinária não passa de ilusão humana [link]
  • Fatos sobre os efeitos do efeito placebo [link]

Se você ainda duvida disso, ganhe 1 milhão de dólares provando ao cético James Randi que a homeopatia funciona para além do efeito placebo (em inglês):


Texto de autoria do ativista e designer Julio Cesar Prava, inédito na vegpedia, publicado em setembro de 2019.

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