Reflexões sobre algumas grandes organizações

Fui o convidado recente de um podcast dividido em duas partes, no Vegan Freak Radio. Em uma discussão subseqüente na seção de comentários da segunda parte do podcast e em um dos fóruns de discussão, levantou-se a seguinte questão: a defesa animal deve se concentrar em atividades de base ou o movimento deve ser controlado por “executivos da defesa animal” que determinam a agenda desse movimento e a ditam aos defensores?

Eu gostaria de compartilhar com vocês algumas idéias que tive sobre isso e que expus na discussão no fórum.

No meu modo de ver, há dois problemas inter-relacionados:

Primeiro, embora algumas organizações de abrangência nacional sejam melhores do que outras, esses grupos promovem, na maioria das vezes, campanhas mais concentradas no tratamento dos animais do que no uso dos animais. Ou seja, eles caracterizam a questão principalmente como o modo como os animais são usados, e não como o fato de os animais serem usados. Enquanto o tratamento for o foco principal, o movimento perseguirá o ilusório objetivo de reduzir o sofrimento para tornar a exploração mais “humanitária”, em vez de abolir, erradicando incrementalmente, a condição de propriedade dos animais.

Conforme tenho argumentado por muitos anos, qualquer medida pode ser caracterizada como uma medida que “reduz sofrimento”. Tais medidas geralmente procuram proteger os interesses dos animais até onde seja economicamente vantajoso fazer isto e, portanto, não reconhecem, sob nenhum aspecto significativo, o valor inerente dos não-humanos. Ao contrário, essas campanhas bem-estaristas freqüentemente reforçam o valor extrínseco ou condicional dos animais.

Segundo, como as organizações de abrangência nacional necessitam de uma série estável de “vitórias” para levantar fundos – freqüentemente incluindo o pagamento de consideráveis salários a diretores, altos funcionários e empregados seletos – elas invariavelmente caracterizam suas campanhas de formas limitadas e triviais, para que tais campanhas sejam atraentes ao maior número de doadores possível e maximizem as chances de “sucesso”. Por exemplo, essas organizações têm campanhas concentradas no método de matar, em vez do fato de matar; têm campanhas concentradas em um tipo de roupa feita de animais, mas não no uso geral dos animais para roupas. E, já que uma discussão sobre estratégias e táticas é “meramente uma inconveniência” que custa tempo e dinheiro, esses grupos com freqüência rotulam de “desprezo” qualquer crítica ou análise crítica. Não toleram divergências. Dizem que as críticas são “divisionistas” e “fazem mal aos animais”.

Esses dois problemas têm atuado em sinergia para produzir um movimento que não vai para lugar nenhum, a não ser para trás. As “vitórias” não proporcionam uma proteção significativa aos animais a curto prazo, nem levam à abolição a longo prazo. Na verdade, o resultado das campanhas das organizações nacionais é que o público se sente mais à vontade quanto à exploração dos animais. O paradigma não muda.

Se você achar que as coisas estão indo na direção certa e que está-se fazendo progresso de verdade, então você deve continuar a apoiar as organizações de abrangência nacional.

Se você achar que é apropriado, aos “executivos da defesa animal”, receberem salários altíssimos, então você deve continuar a apoiar as organizações de abrangência nacional.

Se você acreditar que é uma boa idéia as organizações de defesa animal ficarem nadando em dinheiro (normalmente, muitos milhões de dólares), então continue apoiando as ricas associações de caridade para animais.

Se você estiver feliz com “líderes” que, por exemplo, alegam que ser um vegano consciencioso é “fanatismo”, ou que direitos animais significa animais mortos, ou que reformas bem-estaristas insignificantes querem dizer que “uma revolução está em andamento”; se você estiver feliz com “líderes” que trivializam o sério problema da exploração animal por meio de campanhas sexistas e tolas, dão prêmios a projetistas de matadouros ou cobrem de obsequiosos elogios os comerciantes da carne “feliz”, e que, o tempo todo, caracterizam qualquer expressão de divergência como equivalente a heresia e traição, então não há nem o que pensar: continue fazendo tudo igual.

Mas se você achar que as coisas estão indo numa direção bastante errada, e que os muitos milhões de dólares doados a esses grupos estão gerando um retorno espantosamente pequeno, então você deve considerar outra opção. Você tem de rejeitar a idéia de que ativismo significa mandar um cheque a uma organização de abrangência nacional para apoiar campanhas regulatórias/legislativas que não dão em nada.

Venho argumentando há muito tempo: devemos destinar o grosso dos nossos recursos à promoção do veganismo e à educação vegana. Devemos ser veganos e fazer tudo que estiver ao nosso alcance para educar, sobre o veganismo, todas as pessoas que pudermos educar. Nunca haverá qualquer progresso significativo no sentido de se erradicar a exploração animal enquanto não houver um forte movimento abolicionista de base. E não podemos ter um movimento abolicionista sem o veganismo como princípio moral claro e inegociável. No caso de haver organizações de abrangência nacional mesmo assim, então elas deveriam servir principalmente como fornecedoras de treinamento e material impresso para os ativistas de base conduzirem esforços de educação vegana/abolicionista criativos e eficazes.

Um movimento baseado em carne “feliz” e outras reformas do bem-estar animal é inútil e, na verdade, contraproducente. A posição do bem-estar animal é indistinguível da posição dos exploradores de animais. Os exploradores querem de bom grado trabalhar com os proponentes do bem-estar porque estes últimos buscam reformas que, em sua maioria, tornam a exploração animal mais eficiente. Os bem-estaristas, de fato, educam os exploradores sobre como fazer mudanças mínimas que irão aumentar a produtividade e os lucros.

Temos de destinar recursos, também, aos trabalhos mão na massa para cuidar daqueles não-humanos cuja existência viemos a causar, e para com os quais temos obrigações morais. Isto inclui santuários que promovem uma mensagem abolicionista, bons abrigos que não matam animais, redes de lares temporários para animais adotáveis, programas de esterilização, TNR [captura e esterilização de gatos ferais e sua devolução ao lugar onde vivem], etc. Até onde as organizações nacionais põem dólares nessas atividades, este é um bom uso de dinheiro – mas a maioria destina relativamente poucos recursos, ou recurso nenhum, a trabalhos mão na massa.

Por que o santuário Peaceful Prairie opera com tão pouco dinheiro e, agora, necessita desesperadamente de fundos, enquanto organizações nacionais nadam em milhões de dólares e algumas delas pagam salários altíssimos? Esta situação é apenas um exemplo de que o “movimento” representado por essas grandes organizações perdeu totalmente de vista certos valores fundamentais e fracassou miseravelmente.

Durante muitos anos, as organizações de abrangência nacional controlaram a comunicação entre os defensores dos animais. Os defensores ficavam sabendo dos acontecimentos através das publicações e conferências de determinadas organizações, que apresentavam perspectivas obviamente adequadas a servirem aos próprios fins. Defensores com visões diferentes das dessas organizações eram excluídos e tinham suas vozes efetivamente silenciadas.

Tudo isso está mudando por causa do resultado da internet, que está tornando possível o desenvolvimento de um movimento internacional de base não-violento, abolicionista e fundamentado no veganismo. As organizações de abrangência nacional estão tentando sufocar esse movimento emergente, com a alegação de que apenas um movimento dirigido por executivos da defesa animal freqüentemente muito bem pagos, e trabalhando em tempo integral, pode ajudar os animais. Esta reação era previsível, mas tem de ser rejeitada.

Temos tempo e recursos limitados. Recurso que é aplicado no bem-estarismo é recurso que NÃO é aplicado na abolição. Cada centavo que doamos e cada segundo que gastamos em campanhas regulatórias/legislativas são um centavo a menos e um segundo a menos que destinamos à educação vegana abolicionista e a trabalhos mão na massa.
Não estamos fazendo mal aos animais, ao decidirmos destinar nossos recursos a campanhas veganas/abolicionistas e trabalhos mão na massa. Na realidade, se alguma coisa está fazendo mal aos animais, esta coisa é a perpetuação do traiçoeiro mito de que as reformas bem-estaristas vão reduzir o sofrimento em aspectos significativos a curto prazo, e levarão à abolição do uso de animais a longo prazo.

Nós não necessitamos de grandes organizações com funcionários ganhando gordos salários e viagens subsidiadas. Cada um de nós pode ser um “líder”. Para termos sucesso, cada um de nós deve ser um líder, uma importante força para a mudança. Todos temos a habilidade de afetar e influenciar a vida dos outros. Trata-se de um trabalho duro, com certeza. Muitas pessoas não estarão interessadas; algumas, sim. Mas as poucas que alcançarmos também alcançarão outras, que alcançarão outras, e assim por diante. E, a cada pessoa que abraça o veganismo, a fonte da opressão – a demanda – se reduz.

Se você não for um vegano, então pare de ser um explorador de animais e torne-se vegano. Se você já for um vegano, só com essa simples ação você já está fazendo algo importante – e não deixe ninguém lhe dizer o contrário. Veganismo é ativismo. Lembre-se de que veganismo não é apenas uma questão de dieta ou estilo de vida; é a sua expressão do princípio abolicionista. É seu compromisso pessoal com a não-violência.

Se você quiser fazer mais, então pegue um material impresso que seja clara e inequivocamente vegano/abolicionista (como o disponível de graça no site do Peaceful Prairie Sanctuary) e o distribua. Eduque a si mesmo sobre o assunto. Converse sobre os aspectos morais e ambientais do veganismo com toda e qualquer pessoa que quiser prestar atenção ao que você tem a dizer. Seja sempre gentil ao fazer isso. Mas nunca deixe de ser claro e inequívoco quanto à sua posição de que nós não temos qualquer justificativa moral para explorar qualquer animal – por mais “humanitariamente” que possamos explorá-lo.

Há muitas, muitas coisas que você pode fazer para promover a abolição, que custam pouco ou nenhum dinheiro, e que requerem apenas a sua decisão de trabalhar para operar uma mudança.

Um exemplo: se você for um universitário, trabalhe para conseguir mais opções veganas em sua faculdade, em vez de fazê-la comprar ovos de galinhas caipiras; estes ovos também envolvem sofrimento e enganam as pessoas, fazendo-as pensar que podem ser “consumidoras conscienciosas”.

Veja o que os professores Bob Torres e Jenna Torres, os Vegan Freaks, têm feito. Com uma modesta soma em dinheiro, mas muita persistência e trabalho duro, têm usado a internet para educar sobre o veganismo e construir uma rede mundial de veganos. Vegan Freaks é um excelente exemplo de educação vegana/abolicionista criativa e é muito mais eficaz do que todas as dispendiosas campanhas bem-estaristas combinadas.

Se você tiver condições de doar dinheiro, então patrocine, regularmente, uma mesinha informativa sobre comida vegana na sua comunidade. Ou ajude quem estiver fazendo trabalhos práticos. Existem tantas maneiras mais eficazes de se usar dinheiro do que contribuir para as reservas de caixa das corporações de “defesa” animal, ou do que pagar os salários e as viagens dos executivos dessas organizações.

A primeira vez que alguém lhe contar que se tornou vegano graças aos seus esforços, você vai perceber que não precisa de “líderes” ou de “executivos da defesa animal” controlando as coisas ou suprimindo a dissidência com a desculpa de que as divergências não são boas para os “negócios”. Você vai ver que você, atuando sozinho ou com um amigo ou dois, e sem muito dinheiro, pode dar uma importante contribuição ao movimento emergente para acabar com a escravidão animal – em vez de perpetuar essa escravidão tornando-a socialmente mais aceitável porque é considerada mais “humanitária”.

Claro, é mais fácil assinar um cheque, mas isto não está fazendo nada para ajudar os animais. Claro, é mais fácil deixar-se levar pelas grandes corporações e fazer o que elas querem que você faça, em vez de realizar seu próprio trabalho de base e ser atacado pelos executivos da defesa animal que o chamam de “divisionista” e que dizem que você “despreza” o trabalho deles. Mas todo movimento social que rejeita a dissidência e a discordância não é um movimento social – é um culto. E todo movimento social que afirma que ativismo é assinar um cheque já acabou com o próprio poder de realizar as coisas: tornou-se nada mais que um negócio.


Texto de autoria do professor universitário de Direito Gary Lawrence Francione, com tradução de Regina Rheda, originalmente publicado no site abolitionistapproach.com e republicado no extinto site pensataanimal.net em Julho de 2008.

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