Sobre analogias entre a exploração animal e a exploração humana

É comum vermos na militância do movimento pela libertação dos animais analogias entre a opressão que sofrem os humanos e a opressão que sofrem os animais para tentar causar uma sensibilização positiva, mas isso acaba por revoltar algumas pessoas que não defendem os animais – e até algumas que de fato os defendem -, pois elas acham tais equiparações uma falsa simetria, e portanto, uma argumentação desonesta e infantil. Estas comparações podem fazer alguns indivíduos de grupos historicamente oprimidos que sofrem e sofreram perseguição e discriminação ficarem com raiva, chateados ou tristes, criando uma sensibilização negativa. Mas afinal, será que é mesmo uma falsa simetria comparar animais e humanos? Vamos as perspectivas.

O que pensam os veganos que fazem estas analogias?

Ao fazerem estas analogias – qualquer que seja ela – entre a violência e opressão cometida contra humanos e contra os outros animais, os veganos afirmam que:

  • Os humanos e os animais tem interesses fundamentais semelhantes (desejam liberdade, bem estar e suas sobrevivências) e devemos respeitá-los por isso. Devemos por justiça tratar interesses semelhantes semelhantemente.
  • Devemos parar de cometer violências e violações contra os humanos e também devemos parar de cometer violências e violações contra os animais, ambas coisas não são excludentes.
  • Se nos espantamos com a violação de alguns indivíduos, por que a violência e opressão contra outros não? Se usarmos a espécie para determinarmos quem deve ou não viver estamos relativizando o sofrimento e a ética não nos sugere fazer isso. Por isso a libertação animal é tão importante quanto a libertação humana.
  • Dizer que animais são escravizados e apontar outros povos que também o foram não é uma comparação afirmando que ambos são ou devem ser escravos, é justamente o contrário, a analogia aponta semelhança entra a condição de escravidão entre diferentes indivíduos que foram oprimidos ao longo da história e requer que paremos com ambas.
  • Quantitativamente falando em questão de indivíduos mortos e sofrimento a exploração animal é a pior coisa que já fizemos em nossa existência. Pensar e falar isto não é insensível, insensível é matarmos mais de 150 bilhões de animais por ano para nosso comodismo, quando sabemos que temos alternativas (se os humanos se matassem na mesma velocidade que os animais, estaríamos extintos em menos de 17 dias, isto levando em consideração um número bastante conservador, matamos, por ano, mais de 150 bilhões de animais. Isso sem contar animais pequenos como camarões e peixes menores (não tem nem como contar esses animais porquê eles são calculados em toneladas nos relatórios, não em mortes individuais como ocorre com animais terrestres). Se dividirmos o número extremamente conservador de 160 bilhões por 365 e multiplicarmos por 17, chegaremos a mais de 7 bilhões, que é aproximadamente a quantidade de pessoas vivas hoje. – Cálculo e comentário do ativista Vegano Vitor). Os animais vivem de fato num sistema de escravidão.

O que pensam os não-veganos e outras pessoas que recusam as analogias?

Em contra argumento se diz que animais são utilizados para consumo, e portanto, matá-los serve a algum propósito, diferente do que acontece com humanos que sofrem pelos motivos a que são comparados, geralmente massacres, genocídios, crimes de ódio e etc.

Este raciocínio não-vegano nos leva a algumas ideias:

  • Humanos são mais importantes que animais – por suas características especiais, como a sapiência, a capacidade de abstração, a consciência autobiográfica e representacional, entre outras.
  • Ao comparar animais a humanos os veganos desrespeitam as vítimas humanas que estão sofrendo e suas famílias, isto é ser insensível.
  • Dizer que animais são escravos se equipara a dizer que negros são escravos, a frase já remete uma condição inata e não uma crítica.
  • Ao comparar animais a humanos os veganos estão rebaixando os humanos.
  • Ao exibir analogias os veganos estão fazendo uma tentativa de desqualificar os movimentos negros e suas reivindicações.

Obs.: O argumento de que só negros podem decidir o que é racismo é equivalente a dizer que só não-especistas podem decidir o que é especismo, portanto, ambos não foram colocados nos tópicos.

É falsa-simetria comparar massacres de animais humanos a massacres outros animais?

Numa visão antropocentrica, sim. Se pensarmos que humanos são, indiscutivelmente, mais importantes que todos os outros animais, há falsa simetria, pois a violação dos humanos sendo por “maldade” e a dos animais sendo por “necessidade” (mesmo que estas sejam supérfluas e desnecessárias) não são equiparáveis, pois as motivações são diferentes. Quase sempre, quem argumenta que fazer tais analogias é desonesto não trata os animais com relevância e acredita que podem ser abatidos humanitariamente ou algo do tipo, assim a senciência não é usada como fundamento para delimitação de direitos e há a relativização do sofrimento e a banalização dos animais como indivíduos.

Já na visão vegana de abolição da exploração animal, não. Não é falsa simetria porque os veganos não veem diferenças significativas entre a vida de um animal humano e de um animal de outra espécie, ambos são indivíduos que não devem ser privados de suas liberdades e tratados como objetos e produtos, partindo dessa concepção, qualquer violência e violação contra eles – que são indivíduos – pode ser equiparada a qualquer violação contra humanos.

Portanto a insensibilidade, neste caso, vai vir a partir da ideologia sobre como vemos os animais, e qual nossa perspectiva do sofrimento e da ética, se ela deve ser exclusiva (restrita aos humanos) ou inclusiva (abrangendo os animais sencientes).

Se alguém faz uma analogia entre humanos e animais ela parecerá falsa se a pessoa não compreender as semelhanças – neste caso entre humanos e animais – e verdadeira se o fizer.

Analogias são recursos lógicos para mostrar semelhanças, e neste caso servem para revelar como a forma de raciocínio e mecanismos de opressão são os mesmos, não tem a intenção de subjugar humanos. É preciso salientar que os veganos não procuram com as analogias desrespeitar pessoas, eles procuram despertar consciência em relação aos animais que estão em condições tão vulneráveis, ou ainda mais, que a dos humanos que sofrem, então imputar ao ativismo alguma forma de discriminação contra humanos é um raciocínio errado. Conclusivamente, analogias feitas por veganos entre as opressões de forma alguma pretendem incentivar o racismo, o sexismo, a homofobia, etc, isso influiria em ir contra a própria premissa de libertação animal, pois os humanos inegavelmente são animais.

Apesar de algumas pessoas se sentirem ofendidas – sem razão, pois não é possível apontar o racismo em dizer que animais são escravizados – não é incoerência moral e comportamental usar analogias entre humanos oprimidos e animais oprimidos, na verdade a incoerência moral está em quem só respeita direitos fundamentais para animais humanos e nega-os aos outros animais quem também são indivíduos e anseiam por liberdade. Dizer que há racismo em falar que animais são escravizados – tem uma condição de subjugação e sendo tratado como propriedade de alguém – é uma falácia de petição de princípio, apela ao subjetivismo, e é uma distorção interpretativa do que realmente se quer dizer com essa expressão, pois a condição dos animais de fato é um regime de servidão e exploração inescrupulosa pelos seres humanos, ou seja, escravidão.

Todo mundo conhece o sofrimento que humanos oprimidos tiveram no passado, as condições de sofrimento que os animais passam são semelhantes, afinal, eles são seres sencientes – que expressam dor e prazer e que desejam o bem-estar. Relembrar o sofrimento que aqueles indivíduos humanos passavam, tem o intuito de ajudar humanos a compreender a situação de sofrimento que os outros animais estão passando agora. É uma proposta para que as pessoas tomem consciência se colocando, por empatia, no lugar daqueles animais, ao invés disso a simples comparação acaba provocando uma problematização ideológica onde diz-se que os veganos estão equiparando as classes historicamente oprimidas de humanos, no sentido de descê-los ao nível de animais, isso faz sentido para quem despreza o sofrimento dos animais que são considerados inferiores, parece fruto do antropocentrismo moral, mas veganos – interseccionais – defendem as reclamações dos mesmos grupos oprimidos por dizerem que esta abordagem os coloca ainda mais contra o próprio veganismo, mesmo que esta resistência a analogia seja fruto do especismo.

Existem veganos que tem comportamentos racistas, sexistas, xenofóbicos, entre outros, por diversos motivos, mas estas analogias — nem as premissas do veganismo — tem intenção de rebaixar humanos. Vale lembrar que diversos movimentos sociais traçam analogias entre opressões a fim de fazer as pessoas tomarem consciência por meio das semelhanças, mas quando isto é feito em relação a exploração animal repudiam e acusam os defensores animais de opressores.

Apesar de poderem  as analogias ser taxadas como insensíveis, elas não podem ser invalidadas e chamadas de intolerantes e/ou raivosas, pois a intolerância parte justamente de quem financia sistemas de opressão e não em quem os combate. O subjetivo não é maior que a realidade objetiva e no veganismo a ‘vivência’ de humanos que não concordam com a libertação animal não pode ser colocada acima da realidade que vivem os animais, a condição que eles tem de escravizados é fato e não mero discurso.

Polêmica antiga

Há diversas polêmicas cíclicas no que diz respeito a defesa dos Direitos Animais e esta é uma delas. Há um registro antigo intitulado como “A fúria vegan e o nosso direito” (link) redigido pelo presidente da ONG ABC sem Racismo Dojival Vieira, na qual se endossa uma crítica às analogias feita por veganos. Em representação feita ao Ministério Público os representantes pediram a abertura de investigação para tentar configurar tais atos como crimes de apologia à escravidão e ao holocausto. Confira um trecho com interpretação reducionista e identitária do texto com o argumento que é usado para sustentar o processo:

O que não aceitamos, denunciamos e repelimos é a tentativa deste ou de qualquer outro grupo, de pretender dizer o que deve ou não afetar nossa sensibilidade, como negros; o que é ou não desrespeitoso à nossa história de humilhações e sofrimentos; o que é ou não ofensivo à memória dos nossos antepassados; o que atinge ou não a nossa auto-estima, dos nossos filhos e das futuras gerações.

[…] A associação de imagens da crueldade com animais – as quais também nos opomos e combatemos – com os sofrimentos, as humilhações, torturas e mortes praticadas nos dois eventos que envergonham a humanidade – o escravismo e o holocausto contra judeus – é sim, um insulto, como bem diz a voz insuspeita do ativista do Movimento Negro e de Defesa Animal Eufrate Almeida, em entrevista a esta Afropress. Tem o intuito deliberado de chocar e, nisso, desrespeita a nossa sensibilidade, a nossa história, nossa memória, agride os nossos antepassados, atinge o senso de auto-estima das nossas crianças. Se não fora por isso, tais imagens do mesmo modo, jamais deveriam ter sido utilizadas, por serem de péssimo gosto como estratégia de marketing.

Em outro notícia sobre a polêmica (link) é dito também:

Tais práticas são degradantes e ofensivas à história e ao sentimento de auto-estima da população negra e atentatórias às vítimas do holocausto nazistas e suas famílias, bem como aos sobreviventes daqueles crimes, considerados crimes contra a humanidade e são merecedoras do opróbrio e da vergonha de toda a sociedade brasileira”, diz a representação, assinada pelo presidente da ONG ABC sem Racismo, o jornalista Dojival Vieira.

Confira também um trecho do texto resposta nomeado “Carta aberta a dois movimentos abolicionistas: negro e pelos direitos animais”, feito por George Guimarães presidente da ONG pelos Direitos Animais VEDDAS:

O que eu posso afirmar ao certo sem incorrer no risco de estar sendo ingênuo é que os ativistas pelos direitos animais não olham para estas imagens com indiferença. E, se alguns grupos escolhem usar estas imagens para traçar um paralelo aos abusos cometidos contra os animais não-humanos, não o estão fazendo para minorar a relevância da tortura e da violação que essas imagens de negros e judeus representam. Eles o fazem porque entendem que a dor e a miséria vivida pelos animais na nossa sociedade é imensa, e o uso desse paralelo busca resgatar na mente coletiva a informação de total repúdio às atrocidades da escravidão e do holocausto nazista e assim convidar as pessoas a refletirem sobre o holocausto diário que vivem os animais não-humanos que a nossa sociedade subjuga da mesma maneira que antes já subjugou outras etnias e religiões manifestas dentro da nossa própria espécie. Portanto, a comparação não é pejorativa, haja vista que não compara os diferentes seres ali retratados, mas sim o sofrimento e a injustiça a que ambos foram e continuarão sendo submetidos até que uma parcela representativa da sociedade tome para si a luta que é, na verdade, uma luta em benefício do outro que tem representação minoritária (negros, judeus, mulheres, índios, homossexuais, crianças, animais). Assim foi o caso da emancipação dos negros, assim será o caso da libertação animal.

A comparação que está sendo debatida atualmente tem o objetivo de condenar ambas as situações, considerando uma injustiça como sendo tão inquestionável quanto a outra. Se para a pessoa comum as imagens do holocausto nazista e da escravidão dos negros representam atrocidades e injustiças, para um ativista pelos direitos animais as imagens de açougues e frigoríficos representam um sentimento semelhante de dor e injustiça. Ainda que não possamos comparar os sentimentos de dor e sofrimento, mesmo entre indivíduos da mesma espécie, é prudente refletir que a insensibilidade ao sofrimento alheio e a desconexão com o meio natural são os desvios essenciais que levam alguns (na verdade, muitos) seres humanos a cometerem atos de indiferença contra animais humanos e não-humanos igualmente. A injustiça é o elo comum que une em seu flagelo os membros dessas diferentes espécies: a humana e a não-humana.

[…] Insisto em dizer que a comparação de negros a cães e judeus a porcos não foi o intuito do grupo que fez uso da comparação de imagens das vítimas das atrocidades contra negros e judeus com as imagens das atrocidades cometidas contra animais não-humanos. Se algum grupo se sentiu ofendido, foi porque não entendeu a mensagem, que era na verdade a de comparar duas formas de injustiça, ambas inaceitáveis, ambas condenáveis.

O historiador Bruno Frederico Muller também traz uma resposta à crítica em texto (link), veja um trecho:

As imagens (usadas por veganos como analogia), porém, não são peça de propaganda, e sim fruto de uma reflexão profunda, fundada em evidências racionais, a qual enseja uma convicção. Elas não visam comparar mecanicamente negros e cães, judeus e porcos, mas todos os animais, humanos e não-humanos. Seu intuito é incitar à críticade uma prática aceita pelo senso comum e, assim, despertar consciências.

Ainda sobre a suposta impropriedade da manifestação de um grupo “dizer o que deve ou não afetar nossa sensibilidade, como negros”, cabe nos questionarmos sobre quem pode falar acerca da escravidão e do Holocausto. Nós estamos sendo cerceados no direito de falar sobre estes eventos por, supostamente, não termos nada a ver com ambos. O que é uma dupla falácia. Primeiro porque, como já demonstrado, inúmeros veganos são judeus e negros e não se ofendem com tais comparações. Segundo porque o Holocausto e a escravidão são reconhecidos como crimes contra a humanidade, e não contra um grupo em particular. Sendo nós humanos, nós temos o direito de nos referir a estes crimes e refletir sobre eles – reflexão que é muito diferente do crime de apologia que tentam nos imputar. Aliás, nem só judeus foram vítimas do Holocausto – ciganos, homossexuais,comunistas, dentre outros, também foram enviados acampos de concentração, assim como não foram apenas os africanos as vítimas da escravidão – embora ela de fato tenha tido, contra eles, proporções maiores em termos de população atingida e conseqüências para a mesma. O termo “escravo”, aliás, oriundo do latim, deriva de “eslavo”, o que se explica porque os povos eslavos da Europa Central e do Leste eram freqüentemente usados como mão-de-obra servil nos Impérios Romano e Bizantino. O Holocausto e a escravidão se referem a toda a humanidade, e nos aviltam a todos.

A questão é que a denúncia que deu início a todo este conflito pede a investigação de crimes de apologia ao racismo e ao Holocausto. Essa interpretação é totalmente descabida. Nãoé exaltar, mas refletir o que nós estamos fazendo. Estamos refletindo sobre a semelhança entre escravidão humana, Holocausto e exploração animal. Se tal reflexão ofende determinados indivíduos, longe de serem sensíveis, como afirma o editorial da Afropress, talvez lhes falte sensibilidade para entender o pensamento de outras pessoas. Mais que isso, podemos encontrar traços de intolerância e indisposição ao diálogo e ao pensamento que foge do senso comum, o qual é uma das sementes do totalitarismo que ele tentaassociar anós. Da mesma forma que antes o senso comum chancelou o racismo e o anti-semitismo, ele segue chancelando a exploração imemorial dos animais não-humanos, além de desqualificar e até tentar criminalizar o pensamento discordante, como antes ocorreu com os defensores dos grupos humanos oprimidos.


Abaixo você lerá a visão de Gary L. Francione, filósofo, professor universitário de Direito e proponente moderno dos direitos animais e do veganismo abolicionista, sobre as analogias entre humanos e animais:

  • Ao igualar especismo a racismo e sexismo, você não está igualando animais, pessoas não brancas e mulheres?

Não. O racismo, o sexismo, o especismo e outras formas de discriminação são todos análogos, pois todos compartilham a noção errada de que alguma característica moralmente irrelevante (raça, sexo, espécie) pode ser usada para excluir seres que possuem interesses da comunidade moral, ou para subestimar interesses, numa explícita violação do princípio da igual consideração. Por exemplo, o especismo e a escravidão humana são semelhantes pois, em todos os casos, os animais e os humanos escravizados têm um interesse básico em não ser tratados como coisas, e ainda assim são tratados como coisas com base em critérios moralmente irrelevantes. Negar esse direito básico aos animais simplesmente porque eles são animais é como dizer que não deveríamos abolir a escravidão baseada na raça por causa da suposta inferioridade da raça dos escravos. O argumento usado para apoiar a escravidão e o argumento usado para apoiar a exploração animal são estruturalmente semelhantes: excluímos seres que possuem interesses da comunidade moral porque há alguma suposta diferença entre “eles” e “nós”, a qual não tem nada a ver com a inclusão desses seres na comunidade moral. A posição dos direitos animais sustenta que se acreditamos que os animais têm importância moral, o princípio da igual consideração requer que paremos de tratá-los como coisas.

Uma pergunta relacionada a essa, que surge frequentemente neste contexto, é se o especismo é “tão mau” quanto o racismo, o sexismo ou outras formas de discriminação. De um modo geral, não é útil estabelecer um ranking de males. O fato de Hitler matar judeus foi “pior” do que o fato de Hitler matar católicos ou então ciganos? A escravidão é “pior” do que o genocídio? A escravidão que não é baseada em raça é “pior” do que a escravidão baseada em raça? O sexismo é “pior” do que a escravidão e o genocídio, ou é “pior” do que a escravidão mas não é pior do que o genocídio? Francamente, eu nem sei ao certo o que essas perguntas significam, mas desconfio que as pessoas que as fazem supõem, implicitamente, que um grupo seja “melhor” do que outro. De qualquer modo, todas essas formas de discriminação são terríveis, e terríveis de diferentes maneiras. Mas todas têm uma coisa em comum: todas tratam os humanos como coisas sem interesses passíveis de proteção. Nesse sentido, todas essas formas de discriminação—por diferentes que sejam entre si—são semelhantes ao especismo, que resulta em tratarmos os animais como coisas.

Finalmente, há algumas pessoas que argumentam que, ao dizermos que alguns animais têm mais habilidade cognitiva do que alguns humanos, tais como os portadores de deficiência mental grave ou os extremamente senis, estamos igualando esses humanos aos animais e caracterizando-os de um modo desrespeitoso. De novo, não é esse o ponto da argumentação a favor dos direitos animais. Por séculos temos justificado o fato de tratarmos os animais como recursos porque, supostamente, eles não possuem alguma característica que nós possuímos. Mas alguns animais têm uma característica “especial” em um grau maior do que alguns de nós, e alguns humanos nem mesmo têm tal característica. O ponto essencial é que, embora uma característica em particular possa ser útil para alguns propósitos, a única característica exigida para a importância moral é a senciência. Nós não tratamos, nem deveríamos tratar, humanos deficientes como recursos de outros humanos. E se realmente acreditamos que os animais têm interesses moralmente significativos, então temos de aplicar o princípio da igual consideração e não tratá-los como recursos também. A argumentação a favor dos direitos animais não diminui o respeito pela vida humana; ao contrário, aumenta o respeito por todas as formas de vida.

Trecho do livro Introdução aos Direitos Animais: Seu filho ou seu cachorro?

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