Veganismo é um movimento pelos animais não-humanos ou por todos os animais?

Veganismo é um movimento por todos os seres sencientes, mas tem foco nos animais não-humanos! Apesar de não excluir a ideia de Direitos Humanos, pois ao lutar por todo ser senciente incluí-se os humanos, suas pautas devem limitar-se à defesa dos Direitos Animais.

O movimento vegano surgiu pela libertação dos animais não-humanos frente a exploração humana – que tem se agravado com a industrialização. Ele tem o objetivo de resolver os problemas dos animais não-humanos: é pelo combate à lógica especista e antropocêntrica, então seus direcionamentos e pautas são voltados para isto.

O filósofo utilitarista Peter Singer nos diz que “a libertação animal é também a libertação humana”, de fato, se buscamos liberdade e igualdade devemos considerar todos os seres sencientes, então ninguém deve ser tratado como propriedade. É válido dizer que os humanos são uma espécie de animal dentre todas as outras, mas também é válido dizer que eles podem resolver o problema da exploração animal e que devem ser criticados ao perpetuarem isto quando não há real necessidade.

Há diversos outros movimentos, existentes há muito mais tempo, que se propõe a combater a exploração do humano pelo humano, então não é necessário misturar suas pautas específicas ao movimento de libertação animal. O veganismo, portanto, deve se preocupar em discutir questões sobre humanos apenas à medida em que estes problemas tem relação direta com a causa animal, o foco é em atender aos interesses dos animais não-humanos.

Apesar do movimento pela libertação animal ser voltado aos animais de outras espécies, isso não impede os veganos de fazerem parte destes outros movimentos que tem o objetivo na libertação humana, inclusive, é totalmente coerente que façam isso, sobretudo enxergar as semelhanças entre as diferentes lógicas de opressão não deve tirar a importância dos problemas de exploração que envolvem os animais não-humanos.

Em alguns casos em que ressalta-se demais os movimentos humanos, o veganismo fica em segundo plano. Vejamos, apesar de negar, o interseccionalismo algumas vezes incorre em especismo. Um exemplo bastante claro é afirmar que veganos são sexistas, racistas e xenófobos ao fazerem analogias entre animais não-humanos e animais humanos que foram historicamente oprimidos. Atestar que este recurso é ofensivo é colocar os seres humanos em um pedestal de superioridade, pois tal recurso não tem a proposta de ofender e subjugar os humanos e sim de libertar animais. Neste caso, ao invés de perceber que a lógica usada na analogia quer fazer as pessoas entenderem que todas as formas de opressão e violência são erradas, faz-se interpretação e julgamento especista, como se a situação de barbárie em que vivem os animais de outras espécies não fosse comparável em nenhum aspecto a qualquer sofrimento humano, simplesmente pelo fato de serem bichos. O racismo, sexismo, homofobia e etc não são intrínsecos ao movimento vegano, mas podem haver pessoas que tenham tais ideias dentro do movimento – o que é contraditório.

Apesar de usarem analogias como recurso discursivo, os filósofos que estabeleceram as bases do veganismo não disseminam a violência contra humanos, eles todos recusam as lógicas de opressão: são contra o especismo, sexismo, racismo, xenofobia, homofobia, classismo, capacitismo, etarismo e outros raciocínios imparciais que combatem a outro grupo por conta de características inatas. É de comum acordo que tais comportamentos são anti-éticos. Ou seja, recusar pautas humanistas dentro do veganismo não quer dizer que não possamos fazer paralelos entre as diferentes explorações.

As análises estruturais sociais econômicas, políticas, ecológicas, ambientalistas, são interessantes para o veganismo, mas ele é um movimento apartidário: uma pessoa pode ser vegana independente de suas crenças religiosas e ideológicas desde que não ressalte a exploração animal e respeite eticamente os humanos, ou seja, veganos podem fazer parte de qualquer espectro político, do comunismo ao capitalismo, da esquerda a direita – desde que dentro dos padrões éticos. Pessoas de esquerda e de direita podem ter valores autoritários ou liberais, socialmente ou economicamente. Aqueles que tendem ao autoritarismo e propagam violência certamente acabam caindo em contradição no que diz respeito ao veganismo.

É necessário frisar que não é porque alguém se intitula liberal ou capitalista que é a favor da escravidão ou da pobreza, da mesma forma não é porque alguém se diz anarquista ou comunista, religioso ou não-religioso, que é a favor destas mesmas coisas. Para os animais não-humanos – mesmo para os humanos – há gente que pode ser boa ou má em ambos os espectros, a polarização política e o maniqueísmo não atestam que ideias de inferiorização se aplicam em todos os indivíduos. Se por um lado veganismo e conservadorismo não tendem a combinar, pelo outro revoluções armadas e instrumentalismo também não, sua base teórica é pacifista e está longe de ideias que envolvam violência, por conta disso, há de fato ideologias incompatíveis com o veganismo como é o caso do nazismo e do fascismo, que seguem princípios extremistas.

Há a problemática de ativistas que odeiam humanos por conta da crueldade que fazem com animais? Claro que há! Assim como existem humanos no movimento pela libertação humana que fazem discursos de ódio e justificam isto como reação do oprimido. A misantropia está para o movimento vegano como a misandria está para o movimento feminista e como o ódio aos brancos está no movimento negro, são fenômenos que ocorrem, mas que são minoritários.

Vale lembrar também que o veganismo requer mudanças e ressalta a ética, opondo-se ao relativismo moral, em todas as relações humanas defendendo de forma imparcial os interesses semelhantes entre as diferentes espécies de forma semelhante: lutar pelo fim da alimentação com produtos de origem animal não inviabiliza a luta contra a fome, se opor aos rituais religiosos de sacrifício animal não é ser contra a liberdade religiosa, ser contra o fim dos testes científicos em animais não é ser contra o desenvolvimento científico e ser pelo fim do uso de animais para trabalho não é ser contra o trabalhador ou contra o trabalho digno, essas (falsas) dicotomias só existem na mentalidade especista.

Os líderes do movimento vegano devem se focar em participação na política, divulgação, conscientização, intervenções e empreendedorismo, mas tudo isso sem deixar de lado os discursos compassivos e que tenham os animais como prioridade.


Texto de autoria do ativista e designer Julio Cesar Prava, inédito na vegpedia.

Anúncios