Veganos devem evitar termos como estupro, assassinato e escravidão no seu ativismo?


Há algumas discordâncias bastante claras dentro do veganismo, uma delas é quanto a usar termos tradicionalmente usados para definir opressões cometidas contra humanos no veganismo. Palavras em que alguns veganos questionam o uso são estupro, assassinato e escravidão, eles dizem que devemos evitá-las porque elas podem ofender humanos que estão em grupos marginalizados e oprimidos historicamente e afastá-los do veganismo ao invés de aproximá-los.

Do outro lado, os outros veganos dizem que estes termos são válidos, independente das pessoas gostarem ou não deles, pois indicam uma condição semelhante entre a desnecessária exploração e sofrimento dos humanos oprimidos e a desnecessária exploração e sofrimento dos animais oprimidos. Antes de ser vegano eu entendia muito bem o recurso da analogia e não reclamava dos termos. Vale lembrar todos os teóricos que fundamentaram o veganismo usaram analogias e o movimento cresceu consideravelmente.

De fato, nem todos especistas assimilam os termos e as analogias, mas será que isto quer dizer que devemos parar de usá-las? Será que isto traz pessoas para o movimento ou mais repúdio? Não há um meio objetivo de mensurar isto (a menos que se façam pesquisas em massa, fica aí a ideia), então tal questão fica meramente na opinião. Se o vegano não quiser usar analogias tudo bem, se quiser tudo bem também.

As analogias devem atingir quem já consegue enxergar que os animais são indivíduos e por consequência não devem distorcê-las, então usá-las é um recurso válido. Além disso, especistas tem uma visão bastante rígida sobre os termos, inventar neologismos ou separá-los dos atos não é tentar separar a realidade do que acontece com os animais, se eles sofrem não podemos dizer que eles são totalmente diferentes, por isso suas dores devem ser consideradas.

Deixar de usar palavras para não magoar quem mata animais na esperança de fazê-los repensar é um pensamento polido, mas traçar analogias sem neologismos para a exploração animal é apontar a incoerência sem questionar suas inteligências. É claro que elas deveriam entender o que estamos dizendo ao invés de negarem e procurarem outras justificativas. A justificativa dos especistas é meramente um jogo de palavras, e é óbvio, eles não admitem a existência do termo especismo. Eles acreditam que estes termos com estupro, assassinato e escravidão não são adequados para animais porque na visão deles:

  • Estupro é um ato de predação sexual com humanos, logo, forçar gravidez em uma vaca ou porca e introduzir objetos em sua vagina, não seria equivalente a fazer isto com humanos.
  • Assassinato é um o ato de violação da vida de outro humano, matar animais não pode ser enquadrado, nisto pelo fato de que animais de outras espécies tem menos relevância.
  • Escravidão é o ato de tratar outros humanos como servos, logo dizer que animais vivem num sistema de escravidão não é correto porque as motivações podem ser outras.

Se não desejamos dor deveríamos dar relevância a dor dos outros e não tentarmos achar motivações para continuá-las, é simples. Mas simplicidade não é o que os especistas desejam, para os animais eles tratam as coisas numa realidade alternativa. Talvez os especistas não entendam muito bem que animais estão sendo oprimidos por humanos, independente destes estarem em grupos oprimidos ou não, afinal, opressão é uma palavra que deve valer só para humanos.

Quem define o que é preconceito e opressão?

Há quem diga que são os movimentos sociais, já outros afirmam que é a pura lógica.

Eu particularmente acho que a lógica é uma ferramenta melhor, assim a intenção vale mais que a interpretação. Vejamos bem, uma pessoa pode dar discursos que acabam ofendendo indivíduos historicamente oprimidos sem necessariamente estar querendo subjugar estas pessoas.

Se uma ativista vegano diz que vacas estão sendo estupradas, sua intenção não é falar que mulheres que sofrem deste trauma não sejam importantes ou tentar de alguma forma deslegitimar seus sentimentos e sua luta, apenas está dizendo que vacas devem para de sofrer também pois sofrem um processo semelhante, não igual. Se alguém, portanto, acusa este ativista de ser machista e desrespeitar as mulheres ela está fazendo a interpretação mais equivocada possível do discurso, não está entendendo a intenção.

Para ser machista a pessoa do discurso em questão tem que ter convicções de que mulheres valem menos que homens, aplicar na prática, e não simplesmente usar uma analogia, que é um recurso discursivo para tentar demonstrar as semelhanças. Só recentemente pessoas do movimento vegano começaram a podar as analogias, por respeito à uma demanda de outros movimentos sociais, acreditando ser mais efetivo. De fato pode ser, mas pode também não ser, não conseguimos mensurar se o uso das analogias foi muito útil ou atrasou o veganismo nos últimos tempos.

E claro, o inverso também é verdadeiro, um ativista pode achar que essa suposta ofensa é especismo, haja visto que humanos não são superiores, afinal somos todos seres sencientes.

Está ofendendo alguém: Sim. > Está efetivamente oprimindo alguém? Não.

Ofender não é necessariamente oprimir, opressão não é algo de cunho subjetivo, as pessoas podem ficam ofendidas por diversos motivos, e sim um sistema de crenças e valores de inferiorização. Os animais vivem num sistema de opressão, mas como auto-defesa geralmente especistas se ofendem quando falamos disso e que eles causam sofrimento desnecessário.

Podemos evitar as analogias pensando que esta é uma medida de bom senso? É claro que podemos! Mas, como já vimos, isso fica restrito a opinião de cada ativista.

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