Porque existem pessoas que deixam de ser veganas

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Com o passar do tempo, alguns ativistas e influenciadores, que ganharam reconhecimento no meio vegano, acabaram declarando que deixaram de ser veganos.

Outrora defensores do veganismo (ou de outras visões que confundiam com o veganismo), nomes como Luisa Moraleida, Hana Khalil, Laura Mocellin Teixeira, Luisa Mafei, Monalisa Nunes, Arturo Giassi, André Ferrizzi, Ana Catharina, Peter Dinklage, Miley Cyrus e Mike Tyson, se permitiram voltar a financiar o abuso, exploração e morte dos animais.

Com alegações pessoais, deixando de lado um grande número de vítimas, alguns deles foram além ao dar discursos desinformando sobre saúde e nutrição ou sobre o que é o veganismo. Mas afinal, por que há veganos que deixam de ser veganos?

Veganismo é pelos animais

Primeiro, precisamos lembrar: o veganismo não é sobre os veganos, nem sobre saúde, nem sobre o ambiente. Veganismo é uma postura contra a exploração dos animais em respeito aos animais, contra a discriminação tendenciosa que é o especismo. O especismo é uma injustiça que se assemelha ao racismo e ao sexismo, ao dar peso maior à alguns indivíduos por características irrelevantes e permitir causar sofrimento desnecessário e morte para aqueles que são colocados como inferiores.

É válido ressaltar que muitas pessoas dentro do movimento vegano dão declarações especistas. Isso ocorre, por exemplo, quando dizem que animais podem ser explorados por alguns grupos historicamente marginalizados ou que, em algumas situações, como no caso da experimentação animal ou no controle de animais chamados de “pragas”, podem ser mortos. Essas posturas, e várias outras, colocadas à luz do antiespecismo, não são justificadas.

Se as pessoas são contra o consumo de produtos de origem animal por razões ambientais, por saúde, por modismo ou para obter reconhecimento em um grupo, essas pessoas realmente não são veganas. Essas preocupações com a saúde ou ambientais muitas vezes podem ser mudadas, haja visto que uma pessoa pode incluir novamente os animais em sua dieta e se manter saudável ou pode passar a lutar por uma visão ambiental sustentável favorável à exploração animal, como já fazem algumas ONGs ambientalistas.

No entanto, também é possível que as pessoas em algum momento se importem com os animais (ou até mesmo com os humanos) e em outro mudem de ideia na prática. Então sim, podem existir ex-veganos. Há quem conteste isso ao dizer que ex-veganos nunca foram veganos, acusando-os que se eles se importassem realmente com os animais não teriam voltado atrás nessa decisão. Neste caso, assume-se que eles nunca se importaram com os animais ou que estavam se declarando veganas de forma errada, por motivações que não eram os animais. Isso pode ser verdadeiro em boa parte dos casos, mas precisamos entender outros cenários que fazem as pessoas a voltarem a prejudicar os animais.

É verdade que como uma postura ética, se bem compreendida, deveria ser difícil que as pessoas deixassem de ser veganas, no entanto, numa sociedade extremamente especista, há algumas dificuldades para que uma pessoa continue convicta e siga adiante com essa visão, mesmo que o veganismo seja o mínimo, ao dizer que não devemos fazer mal aos outros.

Conflito entre motivações

Há um cenário onde as pessoas podem dizer que se importam com os animais e não se importarem realmente, sendo apenas retórica para surfar no movimento e ganhar relevância e fama. Nele, abandonar um rótulo, criado para impressionar, é fácil.

Claro, há também pessoas que podem simplesmente ter entrado no veganismo com motivações que não fazem parte do veganismo, como a defesa ambiental e a preocupação com a própria saúde.

Agora, considerando que os ativistas que deixaram de ser veganos eram de fato veganos, que realmente se importavam com os animais – e não que achavam que veganismo é o mesmo que conservacionismo ambientalista ou que uma pauta de saúde humana -, quais poderiam ser os conflitos que os fizeram desistir?

Como mostra o filósofo Luciano Carlos Cunha, em seu texto “Crenças morais, motivação para agir e o caso de especialistas em ética animal que consomem animais“, a visão de que fazer mal para os animais é errado, compete com diversas outras crenças e motivações.

Há algumas razões pelas quais influenciadores e ativistas veganos podem estar abandonando o veganismo, mesmo que acreditem que consumir produtos vindos da crueldade animal seja moralmente errado.

É possível acreditar que algo está errado, mas não sentir o suficiente para mudar seu comportamento. No contexto do veganismo, algumas pessoas podem ver o consumo de produtos vindos da exploração animal como errados, mas não seriamente errado o suficiente para boicotá-los.

Já outras podem ter a crença de que fazer mal aos animais é extremamente errada, no entanto, têm “fraqueza de vontade”, e continuar mantendo hábitos extremamente danosos aos outros, isso porque as crenças morais podem conflitar com a pressão social, com a ausência de incentivos de grupo, com o prazer de consumir produtos e alimentos familiares ou com as associações emocionais com ambos.

Analogamente, essa fraqueza de vontade pode ser percebida no comportamento sexista expressado por homens que entendem que o machismo é extremamente errado mas que não se esforçam para dar condições iguais para as mulheres, o que também acontece diante de outras discriminações.

“[…] o sistema na sociedade determina o comportamento das pessoas nela. Em uma sociedade extremamente especista, viver vegano custa uma quantidade enorme de energia, de modo que apenas uma pequena minoria terá motivação e determinação suficientes para ser capaz de sustentá-la por mais tempo.” – Martin Balluch

Foco nas vítimas

Como vimos, existem pessoas que estão cientes da coisa certa a fazer e ainda assim escolher não fazê-la, isso também vale para pessoas que eram veganas e deixaram de ser veganas, muito por conta dos conflitos entre diferentes motivações, fraqueza de vontade e falta de incentivo.

Se fossemos nós as vítimas, claramente faríamos muito mais pela nossa libertação, mas como não somos afetados diretamente com a exploração animal podemos acabar nos colocando em primeiro lugar e deixando de lado o ativismo, voltando com práticas que prejudicam os outros. Por isso, precisamos lembrar o que acontece com eles, pois na ausência de reforçar isso ficamos anestesiados de novo, esquecendo o tamanho do problema e a quantidade de vítimas das nossas escolhas ruins.

Ser vegano pode ser bastante simples para alguns e muito complicado para outros, mas para todos as coisas podem parecer difíceis, se isso ocorrer precisamos nos perguntar uma coisa: se ser vegano está difícil para nós, o quão mais difícil é para os animais?

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Uma resposta

  1. WillJames

    Concordo com essa frase do texto: … “Por isso, precisamos lembrar o que acontece com eles, pois, sem reforçar essa lembrança, acabamos ficando anestesiados novamente.”…

    Nós seres humanos, temos tendência de nos desensibilizar diante de questões sérias principalmente quando deixamos de refletir e questionar o mundo a nossa volta.

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