Estudos com mais de mil gatos indicam que dietas veganas não prejudicam a saúde felina — e podem até trazer benefícios. Mas o tema ainda provoca reações intensas, mesmo entre veganos.
Poucas frases provocam reações tão viscerais no mundo animal quanto “meu gato é vegano”. Basta alguém expressar o desejo de alimentar seu felino com uma dieta livre de produtos de origem animal para que uma avalanche de críticas surja — não apenas de pessoas que consomem carne, mas inclusive de veganos. A acusação mais comum? Maus-tratos. Mas o que diz a ciência?
O maior estudo já feito sobre o tema
Em setembro de 2023, o periódico científico PLOS ONE publicou o que é considerado um dos maiores estudos sobre saúde de gatos alimentados com dietas veganas versus dietas à base de carne. Conduzido por Andrew Knight, da Universidade de Winchester (Reino Unido), Alexander Bauer, da Universidade de Munique (Alemanha), e Hazel Brown, o estudo analisou dados de 1.369 gatos, dos quais 127 (9%) eram alimentados com dieta vegana e 1.242 (91%) com dieta à base de carne — todos mantidos nessas dietas por pelo menos um ano.
Após controlar fatores como idade, sexo, status de castração e localização primária do animal por meio de modelos de regressão, os pesquisadores avaliaram sete indicadores gerais de saúde. Os resultados apontaram reduções consistentes nos indicadores de doença para os gatos veganos: 7,3% menos visitas veterinárias extras, 14,9% menos uso de medicação, 54,7% menos progressão para dietas terapêuticas, 22,8% menos avaliação de doença grave pelos tutores e 15,5% menos distúrbios de saúde por gato doente. Nenhuma dessas diferenças atingiu significância estatística isoladamente, mas a tendência foi uniforme em todos os sete indicadores: os gatos veganos estavam consistentemente mais saudáveis.
Os pesquisadores também analisaram 22 distúrbios de saúde específicos. Dos 22, quinze eram mais comuns nos gatos alimentados com carne e sete nos alimentados com dieta vegana. Apenas um — doença renal — apresentou diferença estatisticamente significativa, porém afetava apenas quatro gatos veganos, número tão pequeno que a remoção de um único caso eliminaria a significância do resultado.
O estudo conclui que, considerando os resultados de forma conjunta, os gatos alimentados com dietas veganas tenderam a ser mais saudáveis do que os alimentados com carne. E esses resultados estão alinhados com estudos anteriores, incluindo o de Dodd et al. (2021), com 1.026 gatos canadenses e americanos, que também não encontrou prejuízos à saúde dos gatos veganos.
Os desafios são reais — mas não são exclusivos
Uma revisão de literatura publicada em 2022 por Beatriz Victor dos Santos Vicente, do Centro Universitário de Brasília (CEUB), detalha os desafios nutricionais específicos dos gatos. São carnívoros estritos do ponto de vista evolutivo: dependem de taurina (que não sintetizam em quantidade suficiente), vitamina A pré-formada (não convertem betacaroteno), ácido araquidônico (que não produzem a partir de ácido linoleico), além de necessitarem de níveis elevados de proteína na dieta. A deficiência de taurina, por exemplo, pode levar a degeneração retiniana, cardiomiopatia dilatada e falhas reprodutivas.
No entanto, a revisão também aponta que esses nutrientes podem ser suplementados sinteticamente — como aliás já ocorre na maioria das rações convencionais. A taurina adicionada a rações comuns é sintética. A vitamina A é suplementada. Ou seja, os gatos domésticos já não obtêm esses nutrientes de forma suplementada de suas rações tradicionais.
A revisão brasileira destaca ainda que 100% das receitas caseiras para gatos publicadas em livros e sites brasileiros analisadas em um estudo eram nutricionalmente incompletas, independente de serem vegetarianas ou não. O problema não é exclusivo da dieta vegana — é da falta de acompanhamento profissional.
A pesquisa brasileira: rações veganas frente a frente com as convencionais
Um estudo conduzido na Universidade Federal de Lavras (UFLA), orientado pela veterinária e professora Flávia Saad, comparou três rações em 18 gatos: uma super premium com proteína animal (ótimo desempenho), uma ração vegana (desempenho razoável) e uma ração econômica com proteína animal — que causou cálculos urinários nos gatos. A pesquisadora observou que cerca de 80% dos gatos no Brasil consomem rações econômicas com perfil semelhante à que apresentou riscos, e que a ração vegana supriu nutricionalmente os animais de forma adequada nos parâmetros testados.
Embora o estudo tenha limitações — amostra pequena e acompanhamento de curto prazo —, ele abre precedentes importantes e usa os mesmos protocolos internacionais aplicados na avaliação de qualquer ração convencional.
O elefante na sala: o especismo
É muito comum que as pessoas recusem dietas veganas para gatos, até mesmo pessoas veganas. Se alguém expressa o desejo de alimentar seu gato com uma dieta vegetariana estrita, muitas pessoas irão achar um absurdo e até mesmo atacá-la.
Mas vale refletir sobre o que está por trás dessa reação. Dizer que gatos devem comer carne porque é “natural” é um apelo à natureza — e o que é natural nem sempre é o que é eticamente correto. Gatos domésticos já não vivem na natureza. Comem ração processada industrialmente, suplementada com vitaminas sintéticas e palatabilizantes. Nenhuma ração seca extrusada é “natural”.
Se existem dietas veganas nutricionalmente completas que mantêm o gato saudável — e a ciência indica cada vez mais que isso é possível —, então eticamente isso se torna uma opção forte. O objetivo do veganismo é acabar com a exploração animal e reduzir o sofrimento e a morte tanto quanto possível. Cuidar de um animal sem prejudicar outros se alinha com esse princípio.
É importante lembrar que os animais usados na fabricação de ração para gatos — frangos, vacas, peixes — têm tanto interesse em viver quanto qualquer gato. Priorizar uma espécie sobre as outras é, por definição, especismo.
Pode ser que um gato específico não aceite determinada ração vegana, assim como existem gatos que rejeitam determinadas rações convencionais. Preferência individual existe em qualquer dieta. Isso não significa que a alimentação vegana não funcione para gatos em geral.
Se alguém pode alimentar seu animal com uma dieta vegana de forma segura, com informação adequada e acompanhamento veterinário, isso é coerente com seus valores — e com os dados que a ciência tem produzido.
Considerações finais
Os estudos disponíveis não sustentam a afirmação de que alimentar gatos com dietas veganas é automaticamente um ato de maus-tratos. Pelo contrário: os dados até agora sugerem que gatos alimentados com dietas veganas nutricionalmente completas podem ser tão saudáveis — ou até mais — do que os alimentados com carne.
O que é inequivocamente prejudicial é alimentar qualquer animal — com ração vegana ou não — sem garantir que a dieta seja nutricionalmente completa. A recomendação dos estudos é clara: dietas devem ser formuladas para serem completas e balanceadas, com suplementação adequada e acompanhamento veterinário regular, independente de conterem ou não produtos de origem animal.
A conversa precisa acontecer de forma aberta, sem julgamentos prévios e baseada em evidências.
Fontes:
- Knight, A., Bauer, A., Brown, H. (2023). Vegan versus meat-based cat food: Guardian-reported health outcomes in 1,369 cats, after controlling for feline demographic factors. PLOS ONE, 18(9): e0284132.
- Vicente, B. V. S. (2022). Alimentação vegetariana para gatos domésticos — Revisão de literatura. Centro Universitário de Brasília (CEUB).
- Dias, D. S.; Saad, F. (2018). Digestibilidade e pH urinário de ração vegana comparada a rações convencionais para gatos adultos. Universidade Federal de Lavras (UFLA).
- Dodd, S. A. et al. (2021). A cross-sectional study of owner-reported health in Canadian and American cats fed meat- and plant-based diets. BMC Veterinary Research, 17(1).





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