A disputa ideológica pró-capitalismo e anti-capitalismo dentro do movimento vegano

o embate ideológico se estabeleceu de vez no veganismo

Há séculos temos um debate filosófico-político-econômico entre visões de mundo coletivistas e individualistas, onde de um lado estão aqueles que acreditam que a valorização da autonomia individual e da iniciativa econômica é mais eficaz e benéfico para o mundo que controles rígidos e coercitivos, do outro aqueles que acreditam que o controle dos bens de produção e consumo devem ser feitos para serem distribuídos de forma mais igualitária e justa para toda a sociedade. Apesar de ter uma escala com diversos níveis, este é o duelo que se faz entre ideias e práticas capitalistas e anti-capitalistas, liberais e anarco-comunistas. Ambas propostas acabam se estendendo à tudo em nossa vida social-política e fazem parte de todos os movimentos sociais.

Pode não ser muito óbvio mas no feminismo, por exemplo, há vertentes anti-capitalistas (que advogam contra uma visão mercantilista do mundo) e outra liberais. Esse antagonismo ideológico também acaba ocorrendo no movimento negro, no movimento LGBTQ e em qualquer outro movimento por libertação. Não obstante, o debate está cada vez mais intenso dentro do movimento vegano, sendo o veganismo que advoga contra a lógica capitalista representado por aqueles da corrente abolicionista-interseccional e os que acreditam nas mudanças graduais pelo mercado representados pelos de corrente pragmática-liberal.

A diferença fundamental entre veganos interseccionais e os veganos pragmáticos é a ideologia que está por trás de seus respectivos veganismos: enquanto o primeiro grupo tem uma visão do veganismo anti-capitalista o segundo opta por um veganismo liberal-capitalista.

Na prática isto quer dizer que, em questão de consumo, os pragmáticos tomam sempre por lógica a lei de mercado de demanda e oferta. Se uma empresa, por mais exploradora que seja, lança um produto que não tenha diretamente exploração animal, este produto acaba sendo apto para veganos. Ele pode ser consumido e incentivado, para que assim a empresa invista mais nele ou em novas linhas de produtos veganos e que o torne acessível cada vez para mais pessoas, possibilitando maior adesão de pessoas ao veganismo, e claro, os pragmáticos reforçam que boicotes pontuais não surtirão efeito enquanto os veganos não forem uma parte considerável – e forte – da população, então não é válido investir em grandes símbolos da exploração animal, independente de lançarem produtos visando os veganos.

Ambas correntes concordam é que empresas são movidas pelo lucro mas discordam no valor simbólico que tais empresas têm para manutenção da exploração animal e do sistema capitalista. Para os abolicionistas-interseccionais, o ato de consumir produtos sem nada de origem animal de grandes empresas e indústrias de exploração animal (como McDonald’s, Unilever, Nestlé, etc) têm impacto direto na manutenção dos seus sistemas de exploração, afinal consumir produtos e incentivar estas marcas é, indissociavelmente, reforçá-las. Eles também acreditam que a ideia de oferta e demanda têm um limite aplicável estabelecido, o que exige também o boicote simbólico e mais abrangente, assim comparar o financiamento das empresas gigantescas com empresas médias-pequenas que também exploram animais não é para eles uma questão justa.

Os interseccionais tendem a pensar em mudanças de forma abrangente – e parecem estar alinhados a propostas de mudança social socialistas e anarquistas – enquanto os pragmáticos estão alinhados a propostas mercadológicas – e estão alinhados a lógica liberal. Tal questão é bem demonstrada pelos seus discursos, onde os interseccionais querem boicotes sistêmicos a grandes empresas enquanto os pragmáticos sempre suscitam a lógica de mercado e analisam o veganismo produto a produto.

Os interseccionais têm discursado que não é correto consumir um produto sem nada de origem animal quando a empresa está envolvida com testes em animais, patrocínio de rodeios, vaquejadas e afins, no entanto, mesmo que uma empresa seja relativamente grande e não faça tais práticas mas que explore e matem animais de outras maneiras – ou que financiem ambas as práticas – seus produtos acabam sendo aptos para veganos, tal ideia soa de forma relativista. Neste pensamento o valor dos testes e da exploração em práticas esportivas acabam tendo um valor maior para o boicote que  outros tipos de confinamento e morte, algo questionável, afinal, para o veganismo e diante dos Direitos Animais não deve existir qualquer diferença moral entre explorar um animal para alimentação, explorar para esporte e explorar um animal para testes. Indiretamente comer num restaurante não-vegano que têm opções veganos também colabora indiretamente para a prática de exploração animal e para seu crescimento – o que pode, em teoria, fazer que se torne no futuro uma grande indústria -, é neste ponto que cabe a cada vegano a escolha – desde que dentro da definição básica do que é veganismo -, a auto-avaliação da sua condição social e de suas necessidades para pensar se é possível ou não realizar o boicote a determinados produtos e marcas.

Enquanto os interseccionais pensam que ninguém deixará de viver se não comer um McVegan ou um sorvete ‘vegano’ da Unilever, os pragmáticos parecem acreditar na conquista de novos adeptos admitindo o egoísmo das pessoas: elas tenderão a ser veganas à medida em que puderem consumir simplesmente fazendo a troca de produtos sem precisar se preocupar com todos os detalhes. Esta lógica acaba tomando uma visão mais fácil e conformista para as pessoas que exploram animais deixem de fazer isso, e atesta que o importante é que as pessoas parem de consumir animais, independente de que estejam profundamente ligadas a ideologia vegana, ou seja, as consequências dessas ações acabam sendo mais importantes que a ideologia em si. Os interseccionais, que são idealistas, contestam, a ideologia é fundamental e não devemos pensar a partir de perspectivas utilitaristas ou mesmo passar a mão na cabeça delas, o veganismo é uma ideologia, não deve ser flexibilizado e nunca deve ser dissociado dos valores fundamentais dos próprios Direitos Animais.

Os interseccionais estão preocupados em combater as grandes empresas, por seu valor simbólico, por sua força política e por seus grandes danos, os pragmáticos apostam suas fichas na mudança por estas – e nessas – empresas, isto é, os interseccionais fundiram ideias anti-capitalistas ao veganismo enquanto os pragmáticos acreditam que pode-se combater a exploração animal pelo próprio capitalismo. Ambas perspectivas veganas se baseiam em algum ponto oferta e demanda, mas a perspectiva liberal parece não se importar com a ideia de reforçar a marca da Unilever, do McDonald’s, da Nestlé ou da Coca-Cola, desde que no futuro estas empresas sejam veganas.

Por que não consumi-los?

Como diz a ativista Sandra Guimarães, apesar de um facilitador, ter mais produtos veganos num mercado não necessariamente quer dizer que mais pessoas se tornem veganas. Há diversos países com muitos produtos veganos mas com uma baixa taxa de veganos, e onde estaria o problema? No capitalismo em si. Enquanto sistema, o capitalismo têm um modus operandi que busca sempre o aumento de lucro, é provável que isso se torne este movimento apenas mais um nicho de mercado e esvazie seu propósito de transformação social, ou seja, apostar no capitalismo é reforçar um sistema que depende de exploração, desigualdade, mercantilização e consumismo, e que sempre teve papel crucial na manutenção da dominação apesar de mudanças superficiais contrárias, desta forma é impossível chegarmos a Libertação Animal sem que o sistema econômico seja radicalmente mudado.

Empresas que nascem com ideais declarados de libertação humana ou de libertação também participam do jogo capitalista – não há como fugir deste sistema – mas nem todas são simples ferramentas do sistema apoderado por capitalistas interesseiros, muitas delas são contra-culturais e uma forma de resistência. As marcas usam as minorias sem nunca terem se importado com isso, a maioria delas querem o lucro pelo lucro, mas há de fato empresas que se importam com ideais procurando, então dar preferência à elas é colher dois alfaces com uma enxadada só.

  • Capitalismo, lucro, apropriação e esvaziamento

Na perspectiva dos interseccionais, o veganismo pragmático está mais sucinto a criar novos nichos de mercado que destruí-los. Por isso as críticas à indústria que não considerem o sistema capitalista de produção não resolverão nada. O veganismo apenas como hábito de consumo tende a fracassar, uma vez que sendo despolitizado não forçará as empresas a levarem em consideração questões éticas. Ou seja, pensar esta questão de forma liberal não resolve os problemas e tão pouco salvará os animais de forma efetiva a longo prazo.

Angela Davis, famosa filósofa e ativista negra, acredita que a cegueira sobre o consumo de animais está ligada à forma como vemos da mercadoria no capitalismo. Na 27ª edição da Empowering Women of Color ela disse “Eu acho que a falta de engajamento crítico com a comida que comemos demonstra até que ponto a forma de commodity se tornou a principal maneira pela qual percebemos o mundo […] Nós não vamos além do que Marx chamou de valor de troca do objeto real – não pensamos sobre as relações que esse objeto incorpora – e foram importantes para a produção desse objeto, seja nossa comida ou nossas roupas ou nossos iPads ou todos os materiais que usamos para adquirir uma educação em uma instituição como esta. Isso seria realmente revolucionário para desenvolver o hábito de imaginar as relações humanas e as relações não-humanas por trás de todos os objetos que constituem nosso meio ambiente.” Este pensamento resume bem o por que acredita-se que para combater a exploração humana e animal precisamos combater o capital, é preciso mudar como nos relacionamos com aquilo que consumimos, e precisamos estar mais conscientes e conectados com o que produzimos e compramos, daí que o capitalismo não é visto como um aliado da causa animal, pois como consequência o fará mais um modo de consumo.

Marina Colerato, em seu texto Para uma moda sustentável é preciso reconhecer que consumidores não controlam o mercado, busca desmistificar aquilo que chama de “fábula do consumidor rei” mostrando que o mercado não opera única e exclusivamente sob demanda. Segundo ela “empresas não respondem passivamente às demandas de mercado. Elas também ajudam a criar demandas de mercado.” Ou seja, nem tudo é movido pelo consumidor, as vezes as coisas são parte de uma estratégia de branding, não de uma demanda. Assim, traçando um paralelo com a exploração animal, acreditar que empresas como a Unilever e McDonald’s estão mudando e vão continuar a mudar não parece tão interessante, daí que considerar a ética das empresas – principalmente no que diz respeito as maiores multinacionais do mundo -, num contexto mais geral, antes mesmo dos seus produtos acaba fazendo mais sentido.

Um fenômeno comum na sociedade é a incorporação dos movimentos sociais de minorias ao capitalismo e à economia de mercado após estas minorias aumentarem seu poder de consumo. O capitalismo se apropria das lutas visando limitar seu potencial de mudança e mantendo-se assim hegemônico e é nisto que as pautas liberais de movimentos por libertação acabam fracassando. Sempre houveram as minorias – as mulheres, os gays, os negros, os animais – e as empresas sempre puderam se posicionar em relação a isso, no entanto elas só passaram a se importar após estas minorias terem conseguido uma representatividade social considerável através de muita luta. Neste movimento em que as marcas tem usado os discursos das minorias para lucrar, apesar de positiva por demonstrar uma mudança bondosa, não é totalmente confiável, afinal o capitalismo continua oprimir pessoas destes grupos e se vierem novas ondas conservadoras talvez empresas, que só agem pelo lucro, se posicionem de forma diferente.

No passado, empresas integraram as mulheres ao mercado de trabalho e na cadeia produtiva no interesse de aumentar o lucro e não simplesmente por serem benevolentes. Da mesma forma elas não estão colocando ícones do movimento LGBT, do movimento negro, e rótulos veganos em suas embalagens e propagandas pensando na importância destas causas, a intenção delas é o lucro. Claro que diversas empresas podem mudar suas visões ao longo dos anos, pois as pessoas que as formam mudam ao longo do tempo, mas quão genuíno é uma mudança e quão interesseira? Com exceções, o capitalismo ao longo da história não parece demonstrar mudanças genuínas e sempre precisou de muita luta.

Outro ponto interessante é que, a apropriação de discursos ideológicos e altruístas para lucrar podem acabar esvaziando o sentido e a força deles, e isso se apresenta de várias formas: greenwashing, pinkwashing, purplewashing, redwashing, veganwashing. Isto é um fenômeno comum naquilo que é conhecido como indústria cultural, tudo é transformado em produto de consumo: ideais, ideologias, discursos, símbolos e movimentos. As empresas que veem oportunidades de negócios passarem a ter produtos veganos é um reflexo da mudança social, e claro que isto é um bom sinal, porém a indústria cultural-capitalista é uma força impetuosa, não interessa o quão subversivo seja um movimento, ela tentará transformar em um produto para faturar sobre aquilo. Nesta perspectiva, é bastante perigoso acreditar que apenas o consumo levará a libertação animal e não apenas crie novos nichos de mercado que fetichizem as mercadorias.

Segundo o blog ecycle, a definição de greenwashing é relativamente simples. “Ele pode ser praticado por empresas e indústrias públicas ou privadas, organizações não governamentais (ONGs), governos ou políticos. Consiste na estratégia de promover discursos, anúncios, ações, documentos, propagandas e campanhas publicitárias sobre ser ambientalmente/ecologicamente correto, green, sustentável, verde, eco-friendly etc. com a intenção primordial de relacionar a imagem de quem divulga essas informações à defesa do ambiente, mas, na verdade, medidas reais que colaborem com a minimização ou solução dos problemas ambientais não são realmente adotadas e, muitas vezes, as ações tomadas geram impactos negativos ao meio ambiente.” [link] O mesmo têm começado a ser questionado no veganismo, as empresas têm começado a se adequar aos produtos veganos sem adotar qualquer medida para minimizar danos aos animais.

Outro ponto é que a exploração humana ou animal é fundada em preconceitos egoístas, exclusivistas e irracionais, justamente por isso é bastante difícil fazer com que tais ideias sejam destruídas por argumentos, pois a lógica dificilmente chega onde há uma convicção sem razão. Se combater o egoísmo já é difícil para pessoas comuns e relativistas que dão mais valor ao seus prazeres supérfluos que a necessidade fundamental dos outros indivíduos, como achar que o simples diálogo irá mudar todo um sistema que lucra e se mantem da opressão de outros indivíduos, é uma percepção liberal do mundo e não estrutural, por isso o pragmatismo, apesar dos seus resultados, é ingênuo. Em acordo as indústrias tiram as galinhas das gaiolas e as jogam em galpões abarrotados, as empresas colocam selos de galinhas soltas e isso anestesia o consumidor que por padrão já é egoísta.

Quem é contra o sistema capitalista não acredita em sua manutenção e em reformas graduais, por isso que empresas símbolos do capitalismo não convencem como o pilar da mudança.

Por que consumi-los?

Atualmente a indústria de exploração animal é uma entre diversas, e por conta disto os pragmáticos acreditam na mudança e substituição dela mesmo no capitalismo, ou seja, por haver a possibilidade de um modelo no capitalismo que não dependa de animais, assim com um que não dependa da exploração dos negros, das mulheres e etc, além da improvável destruição do sistema capitalista. É esta uma proposta de capitalismo ético e consciente ou de veganismo liberal. Aposta-se que o capitalismo, apesar de lento, tem, progressivamente, trazido mudanças efetivas para a humanidade em geral. Se aumenta-se a exploração humana e animal, este cenário é ilusório, haja visto que isso se dá pelo aumento da humanidade. Nesta perspectiva, a humanidade têm melhorado mesmo diante do capitalismo, temos menos exploração, menos pobreza, menos guerras, menos mortes, mais acesso a saúde e a educação, e com ele poderemos alcançar um planeta bom para todos. Por esta lógica, o veganismo ainda é um movimento novo, mas daqui alguns anos reverterá a exploração animal de nível industrial.

  • Capitalismo, poder, comportamento e mudança gradual

Visões interseccionais e coletivistas têm uma visão mais sensível – são idealistas – sobre a opressões sociais. Enquanto os liberais – são realistas – acreditam que devemos superar pontos ruins sem precisarmos necessariamente combater toda desigualdade.

Vejamos um ponto, a visão dos liberais considera que a imoralidade na humanidade não está no acúmulo de riqueza e sim em existir a miséria, daí que combater a pobreza extrema é mais importante que reduzir e equiparar as riquezas [link, link]. Suas políticas de justiça social propõe o estabelecimento do mínimo para todos e não necessariamente com o combate as desigualdades. Tal ideário é expressado na visão de Deirdre McCloskey, professora emérita da Universidade de Illinois, entusiasta do capitalismo e do livro mercado, que diz: “a pobreza e a tirania são os grandes problemas a serem combatidos, não a desigualdade”*. João Pereira Coutinho, doutor em ciência política, segue uma linha de pensamento parecida, dizendo: “as políticas de distribuição de renda devem ponderar antes o que é “suficiente” para uma vida digna — e não alimentar grandes projetos utópicos que, ao procurarem a igualdade perfeita” e complementa: “não são as “desigualdades econômicas” que alimentam as revoluções. São, antes, as “desigualdades econômicas” intoleráveis — uma importante diferença.” [link]

A mesma lógica pode ser transposta ao veganismo pragmático, onde foca-se em remendar e consertar as falhas do sistema e erros pontuais – e a exploração animal é um deles – e não combater todo ele.

Declaradamente, as ONGs pragmáticas jogam as regras do jogo, não apostam na mudança integral dessas regras ou mesmo na implantação de um novo sistema econômico. Para eles, se estamos no capitalismo devemos entendê-lo e agir por sua lógica, isto é mais útil e efetivo, afinal o anti-capitalismo dentro do sistema atual é um movimento pequeno, limitador e pouco prático. Partindo disso, apostam em estratégias de mudança gradual e investem em branding, em publicidade e na profissionalização do movimento vegano.

Por jogarem o jogo do capitalismo, nos últimos anos as ONGs pragmáticas tem crescido exponencialmente, enquanto as abolicionistas parecem continuar pequenas – com exceção do movimento Anonymous For The Voiceless -, e isso se deve às suas estratégias. Ir contra o capitalismo no capitalismo dá menos força à um movimento, enquanto empreender e investir na capitalização deste movimento tem dado uma relevância gigantesca.

Outro ponto quem tem tido um melhor resultadao é o uso da publicidade feito pelas ONGs pragmáticas. Eles percebem que as elites são as maiores influências das pessoas: os famosos e ricos. Ambos ditam as tendências, controlam o mercado e as mídias. Os pragmáticos conquistando poder pelo capital tem também conquistado, e conseguido contratar, celebridades para os representar em duas campanhas. PETA, Animal Equality e Mercy For Animals tem como seus divulgadores grandes celebridades. A Xuxa, por exemplo, certamente tem um alcance de público maior que diversas ONGs veganas juntas, em suas redes sociais ela tem pelo menos 15 milhões de seguidores. Recentemente ela se tornou vegana e mostrou ao seu público a realidade da exploração animal indicando documentários sobre essa indústria. Sabendo disso a ONG Animal Equality conseguiu colocá-la em uma de suas campanhas, algo que por falta de público, de financiamento, de estrutura e da visão capitalista, ONGs abolicionistas dificilmente conseguirão.

Apesar de quase ideal as ideias interseccionais, tal visão marginaliza esta corrente. Com raras exceções, celebridades não se associam a ONGs ou participam de suas campanhas publicitárias sem cachê, ainda mais de ONGs que pregam o anti-capitalismo. O que dificulta ainda mais essa adesão é o fato de ainda haver poucas celebridades que simpatizam com o veganismo. É muito complicado combater a mentalidade mercantilizada e consumista no mundo globalizado, mas mostrar que não precisamos consumir animais recorrendo a todas as alternativas ajuda muito a mudar essa parte do sistema. Somando-se estas condições os abolicionistas – a não ser que revejam algumas de suas estratégias e consigam transformar poderosos em revolucionários – não tem chances de competir com o crescimento do pragmatismo, afinal o capitalismo tem se mostrado implacável [link].

Parte-se também do princípio comportamental onde o povo que é ativista e luta por um ideal é minoritário, a maioria é alienada, conformada e conservadora. Assim não consegue-se fazer as massas viverem por ideologias bem definidas e rígidas. As pessoas podem ficar inspiradas em alguns dias pelos belos discursos provenientes das ideologias, mas na maioria do tempo estão preocupadas com suas vidas difíceis, com seus problemas e também com coisas banais que é onde tem um pouco de alegria e sossego. Assim não se floresce o pensamento crítico e qualquer tipo de atitude revolucionária morre após a adolescência. É por isso que apesar de haver muitas coisas erradas no sistema e poucas revoluções, é tudo muito lento.

Tanto a ética quanto a racionalidade exigem um esforço e mudança de crenças assim que se encontram justificativas que invalidem elas, por isso a maioria das pessoas simplesmente não está disposta a ser racional e não pretendem se tornar politicamente informada ou éticas, elas querem manter privilégios e coisas que lhes são convenientes, ainda mais quando estas coisas são culturalmente aceitas. As pessoas aceitam um custo apenas quando esperam por recompensas que excedam os custos, e é por isto que a estratégia pragmática é melhor, devido ao contexto generalizado de ignorância e irracionalidade política é necessário oferecer recompensas sugerindo mudanças gradativas. É possível afirma que o pragmatismo têm demonstra melhor aplicação de princípios da economia e do marketing.

Então, isto nos induz que se quisermos mudar o mundo devemos mudá-lo de cima para baixo e não só de baixo para cima. Para ter poder é precisamos ou unir muita gente de baixo ou convencer alguma gente de cima, os dois são difíceis, obviamente, mas a proposta de ativismo focado nos que estão em cima é uma das alternativas na qual os pragmáticos investem, haja visto que o povo é desunido demais para lutar um pelos outros exigindo sociedades melhores. Podemos convencer uma multidão de pessoas a pararem de comer carne esperando que a falta de demanda leve um matadouro a falência, mas também podemos convencer os filhos do dono do matadouro que aquilo que seus pais fizeram ao mundo não é uma boa ideia. Dois caminhos árduos, o primeiro demanda liderança o segundo demanda se infiltrar entre aqueles que tem poder.

Resumidamente, de um lado temos um veganismo mais fácil para quem não é vegano poder ser e gradualmente fazer o mundo vegano, do outro um veganismo difícil para não perder a ideologia vegana de vista com o risco de transformá-la em mais uma mera mercadoria no sistema capitalista, aniquilando assim seu potencial de mudança. Em outro sentido, os interseccionais pensam que pequenas mudanças podem ser usadas para justificar estagnação (como é o caso de campanhas por redução da exploração e não da abolição), enquanto os pragmáticos pensam que pequenas mudanças abrem a possibilidade de novas mudanças e assim podemos caminhar gradualmente, mesmo no capitalismo.

Veganos? A problemática linha separatória

A definição do veganismo é simples, é a crença de que é errado explorar animais para ganho humano, e não têm posição sobre visões capitalistas ou anti-capitalistas, isto é, ela não fala que se uma pessoa consumir um produto sem exploração animal direta ou sem resíduos animais de uma grande empresa ela deixa de ser vegana, este embate passou a existir apenas quando pessoas com visões interseccionais anti-capitalistas adentraram ao movimento vegano exigindo que as outras pessoas considerem pensar na mudança do sistema e não apenas no reparo dele. Podemos ver que os abolicionistas clássicos, ao contrário dos interseccionais, na questão de consumo tinham uma visão liberal, Gary L. Francione, o fundador da corrente abolicionista, não acredita na eficiência de boicotes pontuais, por exemplo.

Apesar de ter uma boa intenção, essa definição de um limita para aquilo que podemos ou não consumir que vá além da definição do veganismo é um tanto problemática. É difícil, se não impossível, de obter uma resposta sobre onde devemos traçar a linha de onde podemos e não podemos consumir algo que não têm diretamente a exploração animal. De partida – pela definição do veganismo – sabemos que a ação mínima é consumir um produto que não é diretamente provindo ou um produto da exploração animal, mas será que vale estender isso atualmente? Até onde o princípio do boicote nos serve efetivamente e até onde ele deve ser repudiado?

A priori, veganos são aqueles que compartilham e praticam uma ideia comum, a de que animais são indivíduos que merecem respeito e que devem ser libertados e não explorado pelos humanos para seus fins, não estabelecendo por tanto, contextos além da perspectiva individual, e são eles que vem sendo debatidos. Há neste embate ideológico, da parte dos interseccionais, a tentativa de deslegitimação do veganismo pragmático enquanto parte do movimento vegano. Por discordarem do método, eles não admitem é a existência de um veganismo liberal, afinal a base ideológica deles não demanda reformas estruturais econômicas profundas. Tomar para si o termo não é logicamente um requerimento não é válido, haja vista que os pragmáticos não consomem produtos de origem animal e nisto cabe a definição de veganismo [link].

O movimento vegano, portanto, é classificado e unidos por um princípio, mas indo além há discordância quanto ao melhor método para o alcance do fim que se propõe. A divisão entre veganos não se faz na questão central e sim nas questões secundárias, assim como ocorre nos outros movimentos sociais. Esse corpo comum de pensamento não pode ser negado logicamente, isto é, se uma pessoa, como indivíduo que é, não explora animais por considerar os animais dignos de liberdade ela é vegana, da mesma forma, não há veganos que exploram animais ou que consomem propositalmente o que provenha deles. Saindo da esfera de escolha individual que cobre a definição do veganismo, como visão de sociedade há veganos que a partir da aceitação da exploração animal como realidade fortemente arraigada e buscam mudá-la de forma gradual e reformista – implicando daí a necessidade de realizar pactos e parcerias com os exploradores – e há aqueles que dialogam com os exploradores com uma visão de enfrentamento e que se opõe à qualquer tipo de mantimento do sistema de exploração, recorrendo ao convencimento público da necessidade da aplicação dos direitos animais.

  • Veganos pragmáticos são reformistas e fazem pactos sociais com exploradores para mudança gradual.
  • Veganos abolicionistas são idealistas e procuram a mudança pela conscientização popular sem ceder a pactos que impliquem na continuação da exploração.

O debate interseccionalismo x pragmatismo vai além da questão do consumo, há também a polêmica sobre campanhas de redução de consumo ou de exploração de animais – como segunda sem-carne ou galinhas livres de gaiolas. Este é outro ponto que os pragmáticos adotam que é questionável sobre o ponto de vista dos Direitos Animais, mas isto é criticado tanto pelos abolicionistas clássicos quanto pelos abolicionistas-interseccionais.

Vale salientar que ambas correntes perseguem o mesmo ideal, o da abolição da exploração animal, mas discordam no melhor método para que ele seja alcançado, portanto, a efetividade de ambos e de seus métodos pode ser questionadas mas por seguirem o mesmo ideal os dois cabem na definição do que é veganismo. Apesar de falarem que não, o veganismo pragmático-liberal é também veganismo, assim como o feminismo liberal é também uma forma de feminismo.

É válido reforçar que o veganismo pragmático nada mais é que o veganismo liberal. Se pararmos para pensar ele tem como método o combate à exploração animal capitalista pelo próprio capitalismo. Inclusive o raciocínio do pragmatismo também se aplica no feminismo liberal, e neste sentido são análogos: o veganismo pragmático está para o movimento de libertação animal assim como o feminismo liberal está para o movimento de libertação das mulheres. Ambos são correntes-métodos que tentam passivamente fazer acordos democráticos, sempre pelo diálogo, com os opressores para que eles mudem. Algo também criticável pelos limites de aplicação: acordos são extremamente importantes para mudanças sociais, mas o diálogo tem um limite no jogo do poder afinal, nem todo aquele – a minoria – que tem poder irá mudar por boa vontade, e aí que precisamos de contra-cultura e supõe-se revoluções e mudanças mais radicais. Neste sentido o mundo sempre precisou de fortes e conflituosas oposições, não só em forma de diálogo, para que considera-se grandes mudanças.

Por fim, as pessoas nem sempre são coerentes na aplicação de valores e também podem misturar diversas ideologias, por isso não é uma regra absoluta dos abolicionistas-interseccionais serem anti-capitalistas ou dos pragmáticos serem capitalistas, mas o discurso deles demonstra esta tendência lógica.

Os veganos dos dois lados

A seguir deixarei alguns nomes brasileiros que defendem o veganismo anticapitalista idealista e alguns que defendem o veganismo liberal e pragmático.

Veganos anticapitalistas

Veganos capitalistas

Opinião

Apostar em empresas veganas – e, sempre que possível, tentar direcionar o consumo à elas -, atacar aquelas que ainda não mudaram e continuar incentivando as que estão mudando para fazerem mais produtos veganos. Há muitas empresas e iniciativas que atacam o veganismo e não têm perspectiva alguma de mudança, como é o caso aqui no Brasil de pecuaristas e indústrias de laticínios que fazem campanhas como a Academia da Carne, Mais Carne Suína, Hoje tem Frango e a Beba Mais Leite, que fazem lobbying investem fortemente o aumento da exploração animal. Em algum momento tais ideias se tornarão obsoletas, com a conscientização ambiental e progresso da humanidade a tendência é o maior respeito pelos humanos e pelos animais, portanto, as indústrias que não se adaptarem a transição do mundo se tornarão isoladas e podem vir a falir. Se as indústrias de exploração animal de hoje não investirem em produtos à base de plantas ou na carne de laboratório, por exemplo, elas ficarão atrasadas daqui algumas décadas, que é quando estas tecnologias serão mais baratas para produzir e melhor ao planeta de modo geral. Inclusive, uma nova indústria está se formando pensando em resolver os problemas da exploração animal.

Como podemos ver a questão “consumo por produtos x consumo por empresa” vai além da definição do que é veganismo, ela embute outras ideologias e percepções de mundo para resolução de problemas. Enquanto os pragmáticos enxergam a expansão de produtos veganos nas grandes marcas tradicionais não-veganas como um fator positivo para disseminação do veganismo, os interseccionais acreditam que o interesse mercadológico das marcas não-veganas em vender produtos veganos provocam uma imagem superficial do veganismo e não colabora para a expansão disso.

Fato é que todos vivemos em uma democracia e devemos prezar pela liberdade de expressão (não pela liberdade de opressão) e pela diversidade do pensamento em todos os âmbitos. Mesmo dentro dos movimentos sociais há, e sempre vai haver, discordâncias e está tudo bem. A questão sobre sermos capitalistas ou anti-capitalistas é bastante delicada, e é inevitável não trazê-la ao veganismo, mas isto não quer dizer que veganos-capitalistas ou veganos anti-capitalistas não sejam veganos. Em praticamente todas as ideologias há pessoas que fazem bem e mal aos outros. O capitalismo, apesar de ser bastante criticado, pode ser filosoficamente usado para defender a liberdade. O liberalismo se fundamentou na ideia de liberdade individual para melhorar a sociedade, não como uma proposta de oprimir pessoas – como é o caso de outras ideologias como o nazismo e o facismo -, é por isso que nem todo mundo pensa que é preciso combater o capitalismo para termos um mundo melhor. Outra coisa importante a dizer é que as pessoas nem sempre são praticantes daquilo que acreditam, muitas advogam pela liberdade e pelo bem comum mas acabam sendo egoístas e causando sofrimento em diversas ocasiões.

Temos que ter em mente que o veganismo anti-capitalista e idealista tem um limite de aplicação, o veganismo liberal e pragmático outro. Enquanto um leva em conta a completa racionalidade e politização das pessoas, o outro procura lidar com o egoísmo, considera o individualismo das pessoas e que elas são fortemente ligada à cultura e aposta nas marcas e não em uma visão anti-sistema. Existem os dois tipos de pessoas e por isso o veganismo não pode ser um só.

De qualquer forma só há 3 alternativas possíveis para transformação de empresas, sendo duas delas pacifistas e uma outra revolucionária: boicote total e fortalecimento da concorrência, oferta e demanda nas próprias empresas ou destruição física, e cabe a cada um de nós fazer a melhor escolha.

Algo me leva a acreditar que quanto mais condição você tem de optar por marcas e empresas não-veganas, mas responsabilidade você tem de fazer isso, afinal conhecimento implica em responsabilidade. Isto não quer dizer que em todas as situações alguém vegano rico ou de classe média deve usar produtos de empresas veganas, apenas quer dizer que ele deve ponderar de acordo com a situação e ver que se puder optar por pagar um pouco mais para uma empresa fundamentada na visão vegana isto fortalece a própria visão dos direitos animais, pois esta empresa provavelmente tem um consumo e produção mais consciente.

Como disse a ativista Mickële Peçanha:

E então, consumir ou não, temos esse dilema. Dilema também simples de resolver quando entende-se que veganismo é além da alimentação (consequência de entender e praticar o termo vegetariano como – correto – e auto explicativo que é), que veganismo está longe de ser um objetivo-super-mega-difícil-evolutivo-purista de ser alcançado, pois o veganismo é a constante consideração pelo respeito ao outro indivíduo, “apenas” isso. Então se dentro do meu contexto eu posso evitar consumir produtos vegetarianos de empresas não veganas eu o farei, senão, vou optar pela melhor escolha ao meu alcance para continuar mudando meus hábitos em prol de respeitar o animais dentro das minha possibilidades. É o famosinho sair da zona de conforto, mudança de hábito é isso.

As ONGs pragmáticas estão ganhando um espaço bem grande por suas estratégias, se isso vai estagnar ou mudar o mundo rumo ao abolicionismo e a libertação animal é outra história.

Considerações finais

  1. O veganismo diz que não devemos explorar animais (inclui-se humanos) ou causar qualquer sofrimento desnecessário à eles, na medida do possível e praticável, nada além disso. É uma ideia filosófica, e como uma ideia que se opõe à um sistema vai ser aplicada de diferentes maneiras e adaptado à diferentes ideologias, isso nos leva ao segundo ponto.
  2. Existem veganos capitalistas, anti-capitalistas, idealistas, pragmáticos, pós-modernos, anti-pósmodernismo, elitistas, não elitistas, pobres, ricos, chatos, legais, pacifistas, revoltados, pseudocientíficos e cienticifistas, etc.
  3. O veganismo se opõe à uma das piores indústrias do mundo, uma das que mais destrói o meio ambiente e que no Brasil é a principal causadora do trabalho escravo: a pecuária. Deste embate surgirá várias soluções para criarmos um mundo melhor, tanto para os animais, quanto para os humanos.
  4. Se nem as pessoas que lutam pelos movimentos sociais conseguem entender isso como é que elas esperam que os veganos façam estas ideias chegarem à classe trabalhadora que tanto defendem? O movimento vegano ainda é novo e há ainda muito a debater dentro dele para melhorá-lo. Precisamos de calma, e devemos ajudar a construir as boas causas, afinal quem nunca teve um animal de estimação e sabe que todos eles são indivíduos que atire a primeira folha (piada ruim detectada).
  5. Os veganos podem ter diferentes ideias para mudança social, e na realidade algumas delas podem tornar mais lento o mundo vegano e levar os animais a ficarem mais tempo sendo explorados, e apesar das ideias-práticas ruins deverem ser descartadas a medida que descobrimos que efetivamente elas são piores ela nos leva à um impasse, é muito difícil provar que elas são piores de fato. Parece ainda ser cedo para apontarmos qual melhor iniciativa, portanto, as duas podem conviver, ainda mais num sistema democrático.
  6. O problema de posicionar uma ideologia somente à esquerda – ou à direita – afirmando que ela verdadeiramente representa grupos inteiros, é que isso exige que todos os membros desses grupos se posicionem desta forma, o que claramente é impossível em uma democracia.
  7. Podemos pensar que, enquanto as sociedades capitalistas são predominantes e o mercado se apropria dos movimentos sociais, o anti-capitalismo tem grandes limitações. Dado a diminuição do socialismo na prática após suas experiências é preciso dizer que o veganismo capitalista dentro do capitalismo têm sua importância haja visto um contexto de irracionalidade e de despolitização massiva sobre consumo, isto é, onde não se atinge com o anti-capitalismo é preciso se adequar às medidas capitalistas, com o risco de se isolá-lo. Precisamos transformar os capitalistas – que mandam na sociedade – e socialistas – que fazem oposição – em veganos.

Independente de sermos cristãos, espíritas, budistas ou ateus, de sermos liberais, comunistas ou anarquistas, nós podemos ser veganos, porquê não cabe a nós acreditar que o mundo todo pensará de uma só forma, se não exploramos animais e não os consumimos – na medida do possível para nós enquanto indivíduos -, nós somos veganos. As propostas ideológicas para um mundo melhor são diversas, portanto, se você realmente acredita na busca pelo bem comum por uma delas, o consumo por produtos ou por empresas é sim uma questão de opinião.


Texto de autoria do ativista e designer Julio Cesar Prava, inédito na vegpedia, publicado em setembro de 2018.

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