Num mundo de exploração animal em larga escala, a próxima pandemia é questão de tempo


O que COVID19, Sars, Gripe Suína, Gripe Aviária e AIDS têm em comum? Todos eles surgiram por causa do consumo de animais

  • As doenças zoonóticas são causadas por agentes infecciosos nocivos tais como vírus, bactérias, parasitas e fungos
  • 3 em cada 4 doenças infecciosas novas ou emergentes em pessoas vêm de animais

Em 2002 foi descoberto o SARS-CoV, um tipo de corona vírus que matava as pessoas com a síndrome respiratória aguda. A origem do vírus foi um mercado de civetas-africanas em Guangdong, na China. Meses depois eles espalhou para mais 20 países e acabou levando 800 pessoas a óbito. A população com medo matou os animais em massa depois da descoberta.

Na história da humanidade diversas outras doenças vieram de animais especificamente por causa do consumo. Entre 1968 e 1969, o H3N2, um vírus aviário sofreu mutações e foi transmitido de porcos para humanos, ocasionando uma pandemia que matou cerca de 1 milhão de pessoas.

Entre 2009 e 2010, o mundo enfrentou a pandemia de gripe suína, também uma mutação que ocorreu entre aves e porcos, que infectou de 11 a 21% da população mundial e acabou matando entre 120 e 200 mil pessoas. Não podemos esquecer do vírus HIV que causa a AIDS, que também veio do consumo de chimpanzés.

Agora enfrentamos outra pandemia que começou pela transmissão direta de vírus de animais para humanos, desta vez os principais suspeitos da transmissão são os pangolins e morcegos. Essa nova variação de corona vírus, chamada COVID19, teve origem identificada em um mercado de animais em Wuhan. O número de pessoas infectadas já passou dos 2 milhões e já são mais de 200 mil mortes. Apesar de não ser a mais mortal, é a pandemia mais emblemática do século já que boa parte do mundo está em isolamento.

Neste momento os olhos se voltam para o mercado de animais selvagens chinês, devido às últimas pandemias terem origem no local. Por isso muitas pessoas acusam a China de colocar em risco devido a sua “alimentação exótica”. Apesar das chances serem maiores por lá, devido ao consumo de um maior número de espécies e por ter uma maior população humana, é ignorância achar que os chineses são os únicos que ameaçam a saúde mundial.

O comércio relacionado à pecuária está em ascensão e as mudanças climáticas estão criando novas oportunidades para que as doenças animais prosperem. A dinâmica da cadeia alimentar está permitindo que mais doenças se desenvolvam mais rapidamente, e a degradação de habitats naturais está reduzindo os mecanismos naturais de enfrentamento.

Pangolins são vendidos para serem consumidos como alimento, não diferente dos cachorros em alguns países asiáticos ou das vacas aqui no Brasil. Todos eles têm potencial de nos transmitir doenças e isso não é surpresa para cientistas como biólogos, epidemiologistas e virologistas, inclusive a agricultura industrial convencional de bois, porcos e galinhas e tantos outros animais deixa em alerta grandes organizações de saúde pública.

Em 2003, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) lançou um relatório sobre pecuária onde afirmou categoricamente que 70% das novas doenças que infectaram os humanos nas últimas décadas foram de origem animal. O relatório revela a preocupação da criação de animais para o surgimento dessas novas doenças.

A preocupação ocorre porque na criação de animais, em pequena ou larga escala, existem condições insalubres que são um terreno fértil para o surgimento de novos vírus zoonóticos. Esses vírus podem se espalhar entre os animais e se adaptar aos humanos, com potencial de se tornar pandemias.

“Antibióticos são frequentemente usados ​​na produção intensiva de animais para curar e prevenir doenças ou como aditivos alimentares para promoção do crescimento. A utilização em larga escala de antibióticos e quimioprofiláticos impulsiona o surgimento de patógenos que adquirirem resistência a esses medicamentos.”

Com o surgimento de fazendas industrias no século passado, o mundo registrou um grande aumento na exploração de animais. Essa criação intensiva de animais para obtenção de carne, laticínios e ovos envolve a aglomeração e uma alta rotatividade o que aumentou as chances de novas doenças em animais que também podem atingir os humanos.

Nas feiras de animais, as vítimas vivem em pequenas jaulas empilhadas, muitas vezes em meio a sujeira, sangue e seus próprios excrementos. No curral, num chiqueiro ou num matadouro pode não ser diferente. Os vírus não tem capacidade de se modificar só em pangolins, civetas e morcegos mas também em vacas, porcos e galinhas – como já vimos com os famosos influenzas -, por isso o novo hospedeiro pode estar em qualquer fazenda. E isso não é culpa dos chineses, a culpa é nossa. A vontade de consumir animais tem matado bilhões de animais de outras espécies por ano e colocado a nossa em apuros também.

Para evitar essas doenças foram desenvolvidas vacinas e outros remédios que são amplamente usados. No entanto, ocasionalmente surgem novos vírus e bactérias que são uma ameaça à vida dos animais e tem potencial de colocar a vida humana em risco. Eles simplesmente podem surgir pela má higiene, falta de vacinação ou mesmo por mutações que dão resistência aos vírus.

Algo que aumenta a preocupação dos especialistas é o constante uso de antibióticos na indústria animal e das possíveis superbactérias que podem surgir após adquirem resistência, se uma delas for para um humano o estrago pode ser grande.

Claro nem todas doenças zoonóticas são por causa do comércio de animais, algumas veem pelo aumento da urbanização que coloca animais próximo aos humanos, já outras ocorrem por transmissão de mosquitos, coisas que também necessitam de prevenção.

Os vírus da influenza aviária (IA), em particular, estão evoluindo para um grande e diversificado conjunto de genes virais, circulando em um reservatório de hospedeiros aviários que compreende aves domésticas e selvagens e, ocasionalmente, infectando suínos e humanos. […] Um número crescente de vírus da IA ​​- incluindo o vírus H7N9 da gripe aviária de baixa patogenicidade, relatado pela primeira vez no final de março de 2013 na China – possui uma assinatura molecular associada à adaptação humana e é um problema de saúde pública significativo.

Mesmo que medidas sanitárias possam evitar novas crises, elas não podem ser onipresentes. E mesmo que se proíbam os mercados de animais selvagens, as pandemias devem continuar a surgir porque há muitos animais em confinamento que têm o potencial para transmitir novas doenças.

A massiva exploração de animais continuará por décadas ou talvez séculos, por isso novas pandemias virão e a humanidade terá que enfrentá-las. Se vai demorar 1, 10 ou 20 anos não sabemos, mas já devemos nos preparar para coisas até piores que a que estamos vivendo agora. Podemos nos precaver de forma mais efetiva mudando a forma como lidamos com os animais, com novos hábitos, leis e tecnologias.

O veganismo pode ser uma solução mas enquanto ele não acontece, num mundo de exploração animal em larga escala, uma nova pandemia é questão de tempo.



As citações exibidas nesta matéria foram retiradas do relatório Pecuária Global 2013: Mudando as Paisagens das Doenças feito pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). As informações no início do texto são do Centers of Disease Control and Prevention.

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