A defesa dos indivíduos do futuro: os maiores nomes do longoprazismo

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Imagine que a humanidade e os animais sobrevivam por milhares ou até milhões de anos. Nesse cenário, praticamente todos os indivíduos que um dia existirão ainda não nasceram. Essa simples constatação levou um grupo crescente de filósofos a defender uma ideia que, à primeira vista, parece contraintuitiva: talvez as decisões mais importantes da atualidade sejam justamente aquelas que afetam indivíduos que nunca conheceremos. Essa perspectiva ficou conhecida como longoprazismo (em inglês longtermism) e se tornou uma das correntes mais influentes, e controversas, da filosofia moral contemporânea.

O princípio central do longoprazismo é que a distância no tempo, por si só, não diminui a importância moral de um indivíduo, recusando assim o que é chamado de viés temporal. Se as gerações futuras terão interesses, capacidade de sofrer e de prosperar tanto quanto os indivíduos de hoje, argumentam seus defensores, então elas também merecem consideração ética. A partir dessa premissa, o debate se desloca para uma pergunta prática: quais decisões tomadas agora têm maior potencial de melhorar – ou comprometer – o futuro das civilizações? Essa reflexão levou pesquisadores de diferentes áreas a estudar riscos existenciais, segurança da inteligência artificial, pandemias, mudanças climáticas, exploração animal, guerra nuclear e outros fatores capazes o futuro em uma escala sem precedentes.

Embora tenha recebido grande atenção nas últimas décadas, especialmente por sua relação com o movimento do altruísmo eficaz, o longoprazismo está longe de representar um consenso. Seus defensores argumentam que negligenciar as gerações futuras é uma forma de “miopia moral”, enquanto seus críticos alertam que priorizar benefícios altamente incertos no futuro distante pode reduzir a atenção dedicada aos problemas concretos do presente. O resultado é um debate que ultrapassa a filosofia e envolve economia, ciência, tecnologia, política e governança global.

Embora o longoprazismo tenha adquirido identidade própria apenas nas últimas décadas e se consolidado como um movimento filosófico no século XXI, a preocupação com as gerações futuras é muito mais antiga. Ao longo da história, filósofos, estadistas e outros pensadores defenderam que a sociedade tem o dever de preservar o mundo para aqueles que ainda nascerão, refletindo sobre responsabilidade intergeracional, legado e justiça entre gerações. Entre os autores que forneceram as bases teóricas dessa tradição destacam-se Henry Sidgwick, John Rawls, Derek Parfit, Hans Jonas, Brian Barry, Samuel Scheffler, Jeremy Bentham, John Stuart Mill, Peter Singer e Mark Rowlands, que, em diferentes contextos, desenvolveram princípios como a imparcialidade moral, a imparcialidade temporal, a responsabilidade para com as pessoas do futuro e a expansão da consideração ética para além dos interesses imediatos. O que distingue o longoprazismo contemporâneo é a sistematização dessas ideias em um programa de pesquisa mais abrangente, apoiado pela filosofia analítica, pela teoria da decisão e pela análise de riscos globais, defendendo que o futuro distante pode representar uma das maiores prioridades da ação moral.

Essa sistematização permitiu o desenvolvimento de conceitos e agendas de pesquisa específicas. Entre elas estão os riscos existenciais (existential risks ou x-risks), eventos capazes de causar a extinção da humanidade ou limitar permanentemente seu potencial futuro, e os riscos de sofrimento (s-risks ou suffering risks), cenários em que o futuro poderia ser marcado por quantidades astronômicas de sofrimento. A partir dessas ideias, o debate deixou de ser apenas uma reflexão abstrata sobre o dever para com as futuras gerações e passou a investigar, de forma interdisciplinar, quais ameaças merecem prioridade e quais ações presentes têm maior potencial de moldar o futuro da civilização.

Outra questão cada vez mais debatida diz respeito ao alcance do círculo moral defendido pelo próprio longoprazismo. Se a premissa central da teoria é que a distância no tempo não reduz a importância moral de um indivíduo, muitos filósofos argumentam que o mesmo princípio deveria valer para outras distinções moralmente arbitrárias, como a espécie biológica. Sob essa perspectiva, o futuro moralmente relevante não é composto apenas por seres humanos, mas por todos os seres sencientes capazes de experimentar bem-estar ou sofrimento, como discute o filósofo brasileiro Luciano Carlos Cunha. Isso aproxima o longoprazismo da ética animal e da ideia de expansão do círculo moral, defendida por diversos outros filósofos contemporâneos. Ainda assim, boa parte do debate longoprazista permanece centrada quase exclusivamente na humanidade, priorizando riscos existenciais humanos sem dedicar atenção proporcional ao sofrimento de seres sencientes existentes ou futuros. Para alguns críticos, essa assimetria revela uma tensão interna do movimento: se o critério moral é a imparcialidade, restringir a preocupação principalmente à nossa própria espécie pode representar uma forma de parcialidade antropocêntrica, em aparente desacordo com os princípios universais que inspiram o próprio longoprazismo.

A seguir, apresentamos os principais nomes associados ao desenvolvimento do longoprazismo. A lista reúne filósofos, pesquisadores e intelectuais que ajudaram a construir seus fundamentos teóricos, expandir sua influência acadêmica ou popularizar suas ideias, formando um panorama das figuras mais relevantes desse debate sobre o futuro da humanidade.

Confira abaixo os grandes nomes que recusam o víes temporal e se tornaram grandes defensores da consideração moral à longo prazo:

NomeLink
Andreas L. Mogensenphilpeople.org/profiles/andreas-l-mogensen
Andreas T. Schmidtandreastschmidt.com
Anders Sandbergwikipedia.org/wiki/Anders_Sandberg
Benjamin Toddbenjamintodd.org
Brian Tomasikreducing-suffering.org
Carl Shulmaneffectivealtruism.org/topics/carl-shulman
Christian Tarsneyglobalprioritiesinstitute.org/christian-tarsney
David Pearcehedweb.com
Gustaf Arrheniuswikipedia.org/wiki/Gustaf_Arrhenius
Hilary Greavesglobalprioritiesinstitute.org/hilary-greaves
Jacob Barrettjacobbarrett.org
Jacy Reese Anthisjacyanthis.com
Jeff Sebojeffsebo.net
John Broomewikipedia.org/wiki/John_Broome
Jonathan Birchwikipedia.org/wiki/Jonathan_Birch
Karri Heikkinenkarriheikkinen.com
Krister Bykvistfilosofi.uu.se/staff/krister-bykvist
Kyle Johannsenwikipedia.org/wiki/Kyle_Johannsen
Luciano Carlos Cunhasenciencia.org
Lukas Gloorlongtermrisk.org/author/lukas-gloor
Magnus Vindingmagnusvinding.com
Michael Airdeffectivealtruism.org/users/michaela
Nick Becksteadopenphilanthropy.org/about/team/nick-beckstead
Nick Bostromnickbostrom.com
Oscar Hortawikipedia.org/wiki/Oscar_Horta
Owen Cotton-Barratteffectivealtruism.org/users/owen_cotton-barratt
Persis Eskanderglobalprioritiesinstitute.org/persis-eskander
Magnus Vindingmagnusvinding.com
Richard Yetter Chappellyetterchappell.net/Richard
Teruji Thomasusers.ox.ac.uk/~mert2060
Tobias Baumanneffectivealtruism.org/users/tobias_baumann
Toby Ordtheprecipice.com
Toby Newberryglobalprioritiesinstitute.org/toby-newberry
Will Bradshawwillbradshaw.com
William MacAskillwilliammacaskill.com

Por outro lado, os maiores críticos do movimento longoprazista são: David Thorstad, Kieran Setiya, Eric Schwitzgebel, Émile P. Torres, Timnit Gebru, Alice Crary, Michelle Bastian, Bouke de Vries, Ben Bramble, Olúfẹ́mi O. Táíwò e Liam Kofi Bright.

Independentemente de alguém concordar ou não com todas as teses do longoprazismo, sua principal contribuição talvez seja lembrar que nossas escolhas raramente terminam na geração presente. A história mostra que muitas das oportunidades e da qualidade de vida de que desfrutamos hoje foram possíveis porque pessoas do passado investiram em conhecimento, instituições, infraestrutura e avanços científicos cujos benefícios ultrapassaram suas próprias vidas. Da mesma forma, as decisões tomadas no presente poderão influenciar incontáveis pessoas que ainda não nasceram.

Afinal, se aqueles que vieram antes tivessem se importado mais com aqueles que vivem hoje, o mundo provavelmente seria muito melhor. Assim, para não repetir o mesmo erro, devemos nos importar com os de amanhã, para que possam viver nas melhores condições que formos capazes de proporcionar.

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