É possível ser ex-vegano?


Toda comunidade tem uma frase que repete tanto que ela vira dogma. Entre em qualquer grupo vegano e verá a preferida deles é essa: “não existe ex-vegano”. Dita assim, soa quase como lei da física. A ideia por trás dela até tem lógica: se a pessoa já entendeu que animais sofrem e que dá para viver sem financiar esse sofrimento, como é que ela simplesmente esquece isso e volta atrás? Pareceria menos uma mudança de opinião e mais uma espécie de amnésia moral.

O problema é que, por mais bonita que essa frase soe, ela não sobrevive ao pensamento cuidadoso. Ex-veganos existem. A pergunta que vale a pena fazer não é se eles existem, mas o que essa existência realmente prova, e o que ela não prova.

Posições éticas são estados, não genética

Comece pelo básico: o que é “ser vegano”? Não é uma marca genética, algo gravado no corpo como o tipo sanguíneo. É uma posição ética assumida, sustentada por argumentos, hábitos e escolhas repetidas todo santo dia. Ainda que a ética de não prejudicar seja a posição ideal, isso não a torna permanente. E toda posição assumida tem essa característica meio incômoda: ela pode ser mantida, aprofundada, ou largada no meio do caminho.

Isso não é exclusividade do veganismo. Existem ex-abolicionistas, ex-feministas, ex-marxistas, ex-cristãos, ex-pacifistas, gente que largou praticamente qualquer causa que você conseguir nomear. Ninguém em sã consciência acha que essas categorias são logicamente impossíveis. É só o reconhecimento de que gente muda de ideia, para melhor e para pior, ao longo da vida. Tratar o veganismo como se fosse a única posição ética da história humana blindada contra o abandono é um exagero. Se dá para deixar de ser abolicionista, dá para deixar de ser vegano. Não tem escapatória lógica aqui.

O mito do progresso moral em linha reta

Parte do que sustenta essa negação é uma crença meio ingênua de que a ética funciona como escada rolante: uma vez que você sobe um degrau, não tem como descer. Só que isso confunde duas coisas bem diferentes: a validade de um argumento e a estabilidade psicológica de quem o aceitou. Isso acontece porque muita gente confunde ética com psicologia moral.

A história está cheia de recuos. Sociedades conquistam direitos e depois os perdem. Pessoas adotam posições avançadas e depois as abandonam, por cansaço, pressão social, conveniência, ou simplesmente porque revisaram os próprios valores. Nada disso é incompatível com a natureza da ética. Posições morais, boas ou ruins, são estados que ocupamos, não destinos gravados em pedra. Algumas são claramente mais desejáveis do que outras, porque reduzem sofrimento e respeitam mais os indivíduos considerados em si mesmos, não como meio para o fim de outra pessoa. Mas ser mais desejável não torna uma posição à prova de abandono. Uma coisa é quanto vale a posição. Outra é quão fácil é largá-la.

Por que a negação é tentadora, mesmo estando errada

Vale entender por que essa frase pega tanto, apesar de conceitualmente frágil. Ela costuma ser resposta a uma manobra retórica específica: gente que abandona o veganismo e depois usa isso como arma contra o próprio movimento, do tipo “eu tentei e não deu certo, viu como é impossível”. Diante disso, a tentação é grande: simplesmente negar que essas pessoas tenham sido veganas de verdade, como se um vegano “de verdade” fosse, por definição, alguém que nunca desiste.

O problema é que esse movimento cobra um preço alto: troca um bom argumento por uma manobra de definição. E argumento ético não deveria precisar blindar a própria categoria contra qualquer exceção para se sustentar. Existe uma saída bem mais sólida para lidar com esse tipo de tática, e ela não passa por negar que ex-veganos existam.

A variante do “pseudovegano”

Tem uma versão mais elaborada dessa negação que merece um parágrafo à parte. Em vez de simplesmente dizer “não existe ex-vegano”, ela aceita que a pessoa se declarava vegana, mas nega, retroativamente, que essa declaração correspondesse a alguma coisa real: se ela voltou atrás, é porque nunca foi vegana de fato, só alguém seguindo uma dieta ou um rótulo, sem ter internalizado nada dos fundamentos éticos. Um pseudovegano, não um vegano de carteirinha.

Esse raciocínio tem nome na filosofia: é uma variação da falácia do “Não Verdadeiro Escocês”. Diante de um contraexemplo incômodo, redefine-se a categoria depois do fato para excluí-lo, em vez de revisar a generalização original. Aplicado aqui, o argumento vira à prova de qualquer evidência: toda pessoa que abandona o veganismo é automaticamente reclassificada como alguém que “nunca foi de verdade”, o que protege a frase “veganos não desistem” de qualquer contraexemplo, ao custo de esvaziá-la completamente. Uma afirmação que se defende redefinindo os próprios termos toda vez que aparece uma exceção não está descrevendo nada. Só está se protegendo.

Tem ainda outro problema, de natureza diferente: negar que alguém tenha sido vegano de fato normalmente exige acesso a uma coisa que a gente simplesmente não tem, o grau de convicção interna dessa pessoa no momento em que sustentava a posição. Sinceridade e coerência prática, quando existem, não são apagadas retroativamente só porque a pessoa muda de ideia depois. Dá para ter sido vegano com convicção genuína durante anos e mesmo assim abandonar a posição mais tarde, do mesmo jeito que dá para ter sido sinceramente religioso e depois virar ateu, sem que isso signifique que a fé de antes era encenação. Tratar toda desistência como prova retroativa de má-fé ou superficialidade é uma suposição gratuita, não algo que decorre logicamente do simples fato de a pessoa ter mudado.

Vale uma observação: podem existir pseudoveganos? Sim, há gente que se chama de vegana e apoia rodeios, come peixe de vez em quando, que é a favor de animais serem explorados em uma infinidade de atitudes, mas vamos dar um crédito, isso é quase sempre por ignorância sobre o que realmente significa ser vegano. Os próprios veganos ‘verdadeiros’ estão imersos em especismo, mas isso é questão para outro texto.

A distinção que importa: existir não é o mesmo que validar

E aqui chegamos ao ponto central de tudo isso. Reconhecer que ex-veganos existem não implica, em nada, que a posição para a qual eles regrediram seja correta. Vale o mesmo raciocínio para qualquer outra categoria: a existência de ex-abolicionistas não torna a escravidão aceitável, assim como a existência de gente que deixou de defender direitos civis não valida a segregação. A existência de um estado é uma questão descritiva. A justificação desse estado é outra questão, normativa. Misturar as duas é o erro que sustenta boa parte desse debate mal colocado sobre o ex-vegano.

Financiar o confinamento, a exploração e a morte de seres sencientes, trazendo-os ao mundo para propósitos que servem a quem os consome e a quem os vende, não a eles mesmos, colocando-os em existências que vão contra o próprio interesse deles em existir bem, não se torna justificável só porque alguém decide, por qualquer razão, deixar de ser vegano. A decisão de abandonar o veganismo é um fato sobre a trajetória de uma pessoa. Não é, sozinha, um argumento a favor da exploração animal.

Existem ex-veganos

Sim, existem ex-veganos, do mesmo jeito que existem ex-abolicionistas e ex-pacifistas. Negar isso é um erro conceitual que enfraquece o próprio movimento, trocando um argumento ético substantivo por uma briga de rótulos. O caminho mais forte não é afirmar que o retrocesso é logicamente impossível, e sim mostrar por que ele é indesejável: abandonar o veganismo, na maioria dos casos, significa voltar a financiar e sustentar sofrimento evitável de seres que têm interesse próprio em não sofrer e em existir bem. A existência do ex-vegano não é o problema. O problema é achar que essa existência, sozinha, diz alguma coisa a favor da posição para a qual ele regrediu.

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