O veganismo está fadado ao fracasso se não considerar a diversidade ideológica

A luta pelos animais deve ser ampla, inclusiva e democrática

Até os dias atuais, os animais não foram respeitados e emancipados nem em regimes socialistas, nem no capitalismo. Ao longo do tempo, nos dois modelos político-econômicos pessoas e animais foram tratados como propriedades e não tiveram seus direitos respeitados como deveriam. O meio ambiente também “sofreu”, foi coisificado ao invés de preservado.

Isso ocorreu pois, ambos os sistemas sempre visaram o desenvolvimentismo, ignorando as consequências negativas disso para o planeta e para a biodiversidade. Só com o ganho de força do ambientalismo e do veganismo, a partir dos anos 70, que os ideólogos liberais e marxistas passaram a tentar encaixá-los em suas teorias – eis que surgiram o capitalismo verde e o ecosocialismo, ambos versões sustentáveis do seus antepassados que andaram de mãos dadas contra os animais e a natureza. Desde então eles disputam estes movimentos com unhas e dentes.

A cooptação do veganismo

Há quem diga que só existe veganismo anticapitalista e antiliberal. Por outro lado, há quem diga que veganismo associado ao socialismo é terrível. Na verdade o veganismo é uma ideologia própria mas pode tentar ser incorporado na teoria liberal ou tentar ser encaixado na teoria marxista, é isto que fazem os ideólogos e adeptos destas ideologias.

É impossível ser imparcial, mesmo que alguém não saiba, todo mundo tem um lado, ou melhor dizendo, um lugar dentro do amplo espectro ideológico-político. Toda pessoa defende seu ponto de vista e por isso é comum que cada pessoa tente argumentar de modo que outras ideologias “do bem” só façam sentido a partir da sua linha de raciocínio, isso é o que podemos chamar de cooptar.

Por exemplo, como não vê liberdade sem igualdade, o marxismo, assim como o anarquismo, tenta incluir em si qualquer tipo de teoria de libertação. Veganos marxistas dizem que o capitalismo é intrinsecamente exploratório, existe sob propriedade privada dos meios de produção e expropriação da força de trabalho, então não há qualquer tipo de liberdade nesse sistema, e que, portanto, temos que superá-lo para que o veganismo seja possível, assim como o feminismo, abolicionismo e outras diversas ideologias.

Já o liberalismo compreende a liberdade partindo da ideia da liberdade individual, por isso os liberais acreditam no mercado livre, que é um sistema de trocas voluntárias. Para os liberais não precisamos substituir o atual modelo econômico e destruir a ideia de propriedade privada para chegarmos lá, precisamos melhorá-lo fazendo correções de modo que as liberdades de todos os indivíduos sejam atingidas. Para eles a liberdade pode existir com algum grau de hierarquia e desigualdade, desde que os indivíduos sejam respeitados e não violem o princípio do dano – como propõe os direitos humanos. Nesta perspectiva, a prosperidade econômica é um meio, a longo prazo, de proporcionar a todos uma condição razoável de vida, assim, pode existir também veganismo pró-capitalismo e os animais podem ser libertos neste sistema.

Como disputamos pela razão, tendemos a enxergar as coisas de forma antagônica: é libertária a nossa visão, a do outro nem tanto – neste processo que surgem os bordões “socialismo ou barbárie” ou “sem liberalismo não há liberdade”. Mesmo usadas como aliadas, qualquer coisa que vá além da ideia de libertação animal não é intrinsecamente ligada ao veganismo, assim o veganismo pode se fazer presente em diversas ideologias desde que sejam devidamente respeitados os direitos animais e os direitos humanos. Então apesar de muitas pessoas de ambos os lados discordarem, o veganismo não é exclusivo de nenhum deles, ele é democrático e cabe em diversas ideologias.

O capitalismo é fato, não opinião

Agora, para além da teoria, uma coisa é indiscutível: vivemos no capitalismo. O sistema social-econômico capitalista tem base liberal, liberalismo este que surgiu em oposição ao absolutismo e a concentração de poder com o discurso de igualdade, liberdade e fraternidade e causou revoluções sangrentas. O mesmo veio a ocorrer séculos depois com as revoluções socialistas.

Hoje, não há mais estes tipos de revoluções, as democracias atuais suportam a coexistência de ideias divergentes. Nelas o liberalismo social prega tolerância e não fomenta absolutismos e mortes em massa, muitos socialistas optam por um discurso democrático e disputam o poder público por meio de eleições. Claro, ainda existem pessoas com discursos extremos e autoritários, mas frequentemente são recriminados por defensores da democracia.

Apesar de ser contraindicado por milhões de pessoas, os dados revelam que o capitalismo industrial de fato gerou riqueza exponencial nas nações e melhorou a vida das pessoas, reduzindo a miséria em larga escala. Claro, apesar disso ainda há miséria, algo que seus defensores não devem conseguir explicar tão bem.

No capitalismo, as guerras e a escravidão também reduziram por interesses econômicos. O imperialismo e a colonização foram praticamente extintos. Nele também ocorreu o movimento pelos direitos civis, que depois de muita luta, foi aderido e gradualmente vai sendo assimilado. Isto mostra que lentamente a sociedade, mesmo capitalista, vai se tornando melhor para todos os grupos que foram oprimidos durante séculos de absolutismos e colonização imperialista. Já o movimento pelos animais ainda é fraco se comparado aos movimentos por libertação humana, pois além de ser uma proposta mais nova, suas vítimas precisam ser representadas e defendidas pelos próprios humanos, o que dificulta bastante sua adesão. Na prática os animais são explorados cada vez mais.

No século passado o capitalismo tentou ser superado e resistiu, agora não têm nenhum inimigo à altura. Sua antítese, o marxismo, se distancia e não se converte em soluções práticas. É justamente, por este conjunto de fatores, que os veganos liberais atestam o pragmatismo: o que podemos fazer é reforma e conciliação, grandes revoluções políticas-econômicas agora são cenários idealistas distantes.

Na prática os liberais têm um cenário ‘favorável’ hoje, estamos no liberalismo e os animais estão sendo prejudicados de qualquer forma, uma visão utópica não os ajudará a curto prazo. Se esperarmos a superação do capitalismo (e das democracias-liberais) para alcançarmos a libertação animal talvez ela nunca ocorra, afinal não é possível afirmar que este sistema será superado e não temos indícios de que isso irá acontecer. Ao contrário temos indícios que este sistema está mais forte que nunca, e um deles é o fracasso das experiências socialistas ao redor do mundo.

A abrangência da ética

A filosofia, seja ela política ou não, nunca foi e, provavelmente, nunca será uma unidade homogênea. Tomemos por exemplo o campo de estudo da moralidade, a Ética. Existem diversas visões éticas (kantiana, utilitarista, objetivista, individualista, intuicionista, entre muitas outras) cada qual tenta propor o que é justo, como devemos nos comportar e demonstrar o que traz felicidade. As diferentes propostas podem ter coerência lógica e são discutidas entre diversos filósofos – claro, a coerência não garante verdade, mas qualquer teoria de verdade tem de ser coerente. Fato é que estes teóricos, por meio de argumentação, tentam buscar o melhor para o ser humano. Uma disputa semelhante acontece entre as ideologias políticas.

Tanto veganos marxistas quanto veganos liberais podem ser éticos e interseccionais, se colocando a favor da liberdade humana e da libertação animal. A partir de suas crenças ideológicas eles estão buscando o melhor que acreditam para os animais e para atingir o fim da libertação animal.

Para além dessas divergências antagônicas, pessoas nos dois espectros podem enxergar, admitir e combater os grandes problemas que existem no capitalismo: a miséria, os latifúndios, a degradação ambiental, a subjugação de mulheres, a escravidão e também a exploração de animais, entre outros. Em ambos os lados podem – e devem – existir pessoas a favor de programas de assistência social, da reforma agrária, da inclusão de mulheres e negros. Tais coisas não são exclusivas de um só lado.

Há muitas visões do que é certo: no mundo político uns aceitam muita desigualdade, outros pouca, outros nenhuma. Uns lutam por igualdade de forma violenta, outros de forma democrática. Uns lutam para continuar opressão por vias democráticas, outros de forma violenta. Há pacifistas e revolucionários. Há democratas e autoritários. Agora pensemos numa escala (veja aqui) onde em uma ponta está um marxista autoritário que não consegue conviver com liberais a ponto de querer eliminá-los, e do outro está um liberal intolerante que gostaria de encarcerar todos os marxistas. O problema destes extremistas é que eles querem esmagar os dissidentes, estejam eles na outra ponta ou de todo o meio por colocam todos como inimigos, ambos podem violar a liberdade dos indivíduos. As pontas são usadas como esteriótipos para atacar o “outro lado” e o esteriótipo é extendido, o duelo fica binário de extrema esquerda e todo o resto ou extrema direita e todo o resto. Não podemos esquecer que entre os extremos há um grande espectro de marxistas e liberais que podem ser democráticos e conviver bem com suas diferenças, debatendo-as no campo das ideias e não por uma imposição violenta.

Temos que admitir que pode haver bom senso em diversas visões de mundo e que as propostas para a solução dos nosso problemas é diverso, mesmo que não gostemos do que os outros pensam precisamos reconhecer esse grande espectro democrático em oposição aos extremos sectários e combater discursos no campo das ideias, isto é ser tolerante.

Se todas as pessoas pensassem igual nós – sejamos anarquistas, socialistas ou liberais convictos – já teríamos uma sociedade livre, mas se um grupo se intitula dono da verdade e impõe que as outras devem pensar da mesma forma que eles, os outros viverão em campos de concentração e não há liberdade alguma em campos de concentração.

O veganismo e os veganismos

Pessoas liberais e pessoas pró-socialismo com o passar do tempo vem aderindo organicamente os ideais não-antropocêntricos do veganismo. Atualmente o debate se acirrou, marxistas tentam dizem que o capitalismo está tentando cooptar o veganismo, ao passo que o veganismo surgiu e sua prática existe no capitalismo, ele não foi idealizado a partir de teóricos marxistas, então é válido ressaltar que, por ordem cronológica, os marxistas que estão tentando cooptar o veganismo e não o contrário.

Os fundadores da primeira organização vegana do mundo – nos anos 40 -, a Vegan Society, não eram antiliberalismo. Os filósofos morais utilitaristas e objetivistas liberais que ajudaram a construir a base teórica do veganismo nos anos 70, como é o caso de Peter Singer, James Rachels, Gary L. Francione, Richard Ryder e Tom Regan, também não. Os anarquistas e socialistas, como Steven Best, Brian A. Dominick, Angela Davis, entre outros, só surgiram depois para propor um veganismo anticapitalista.

Atualmente o veganismo se dividiu em correntes ideológicas ainda menores, e é colocado através de outras perspectivas interseccionais e identitárias, como o veganismo feminista, o veganismo negro, o veganismo minimalista e anticonsumista, entre outros, traçando relações entre as diferentes opressões.

Independente da vertente que assumimos, devemos saber que o veganismo é uma teoria moral que confronta o antropocentrismo, mas também é um movimento social amplo. Qualquer pessoa, com condições materiais mínimas, pode abrir mão da exploração animal e deixar de consumir animais em uma democracia-liberal, logo qualquer um pode ser vegano numa sociedade capitalista. Já se seu fim, a libertação animal, pode ser atingido de fato neste sistema, não podemos dizer.

Como vimos, nem os marxistas, nem os anarquistas, nem os liberais do passado ligaram para os animais – com raras exceções – então ao invés de decretarmos “o veganismo é marxista”, “o veganismo é anarquista”, “o veganismo é liberal”, deveríamos dizer “meu veganismo é marxista”, “meu veganismo é anarquista”, “meu veganismo é liberal”, afinal todos são veganismos, partes do veganismo. Já, qual vai funcionar melhor é outra história.

Conclusão

O veganismo é uma revolução em si, quer mudar algo que está ligado a como o humano se enxerga: um ser superior e que tudo aqui é para servi-lo. Perceber que o antropocentrismo não segue o princípio da imparcialidade seria em si uma grande mudança de paradigma, que perdurou na esmagadora maioria das culturas até hoje.

Isto nos leva a pensar sobre a realidade concreta e debater a libertação animal dentro deste sistema, porque ele é um fato. O que levanto o questionamento: “Será possível libertar os animais no capitalismo?”. O paradigma antropocêntrico vem sendo questionado e mudado mesmo diante do capitalismo, mas não conseguimos saber até onde chegaremos. Por outro lado, talvez esse seja o melhor caminho, afinal o capitalismo pode nunca ser superado e então não teremos condições de esperarmos um cenário melhor ou ideal.

Fato é que o capitalismo parece ser imbatível: se reinventa, se aprimora e se perpetua. Vivemos numa sociedade globalizada, industrializada e consumista. Diferente de suas outras fases, hoje ele encontra com novos desafios – como o da sustentabilidade -, que muitos esperam ser resolvidos com tecnologia. Estando no capitalismo, não podemos esperar uma nova revolução anticapitalista acontecer para reivindicarmos a mudança de tratamento com os animais, há bilhões deles em condições precárias, sendo tratados como objetos, vivendo vidas miseráveis e sem qualquer direito, devemos lembrar também que nada garante que uma nova revolução socialista leve em consideração os animais, haja visto que a maioria dos marxistas não os defendem.

Enquanto não postas a prova, podem existir diferentes propostas consistentes para solução de problemas. Podemos apostar num modo de produção científico-industrial com transgênicos e com cultura de células que seja sustentável. Mas há quem não concorde, claro. Estas pessoas apostam num modo de produção alimentar tecnofóbico e bucólico ligado aos orgânicos, hortas caseiras e ecovilas.

O mundo das ideias mostra que marxistas podem acreditar em um veganismo-socialista e que liberais podem acreditar em um veganismo-capitalista. Em outras palavras, na democracia temos a liberdade de apostar que a libertação animal só existirá numa sociedade comunista? Sim. Podemos acreditar que a libertação animal pode ser aplicada numa sociedade capitalista? Sim também.

Não é um princípio do marxismo e do anarquismo, assim como não é um princípio do liberalismo, dizer que explorar animais é justo. Há condições materiais de vivermos sem explorar animais em ambos os regimes ligados a estas ideologias, devemos lembrar porém que pode nunca haver uma sociedade comunista, por outro lado pode o capitalismo nunca superar os grandes problemas diante de suas contradições.

As pessoas são resistentes a mudança e por isso alteram seus ideais e hábitos muito lentamente, as vezes nunca mudam. É muito improvável que todas as pessoas pensem da mesma maneira – que se tornem todas anarquistas, liberais ou marxistas -, mas é possível que todas saiam do espectro do autoritarismo. Enquanto debatemos e tentamos estimular o raciocínio crítico* com conscientização, e discutimos quais os melhores meios de fazer ativismo, precisamos ter em mente sempre que os animais continuam a ser explorados e precisamos agir de diferentes maneiras para atingir mais pessoas de forma efetiva – cada qual de acordo com suas aspirações.

Precisamos lembrar também que as mentes mais brilhantes do passado propuseram ideias e doutrinas que se mostraram erradas com o passar do tempo e ruíram, só hoje podemos perceber isso analisando a história e o desenvolvimento da sociedade. Podemos pensar que estamos indiscutivelmente certos mas isso não válida nossa certeza. Claro, isso de maneira alguma quer dizer que devemos jogar todos os ideais fora, mas que devemos procurar evidências robustas e métodos objetivos para justificá-los.

Apesar de advogarmos por uma posição política, qual caminho a humanidade conflituosa tomará nós não sabemos. Se uma das visões fracassar o veganismo deverá estar presente na outra de tal modo que ajude a exploração animal a acabar, e é por isso que o veganismo está fadado ao fracasso se não considerar a diversidade ideológica.


*Não reconhecer erros e mudar é justamente o oposto do pensamento crítico. Não há problema em admitir que podemos estar errados, que não somos donos da verdade, isso me leva a pensar e aceitar a coexistência dos dois modos de produção, cada pessoa escolhendo o melhor para si, enquanto tentam descobrir qual veganismo é, de fato, mais efetivo. Eu também tenho minhas apostas ideológicas mesmo tentando ser o mais diplomático possível. Tento construir o meu veganismo aliado à cultura de paz, a partir de uma argumentação racional, baseado em dados, não descolando-o da realidade e nunca aproximando ele de visões autoritárias e tiranias. Tem um veganismo para cada visão política e estilo de vida com bom senso, o veganismo pode ser de pobre e de rico, de esquerda ou liberal, radical ou pragmático. O veganismo não condiz com censura, visões intolerantes, autoritárias, ditatoriais e fascistas e por isso luto por um veganismo inclusivo, abrangente e democrático, longe das pontas da ferradura.


Leituras recomendadas (dos diversos lados):


Texto de autoria do ativista e designer Julio Cesar Prava, inédito na vegpedia, publicado em setembro de 2019.