Veganismo: ideologia inclusiva

Isenção do relativismo moral. Aumento do círculo de respeito e compaixão. Redução de sofrimento. Respeito a individualidade.

Apesar de muitos não saberem por ignorância ou por conta de ruídos midiáticos, o veganismo é ideologia política de respeito integral à todos os seres vivos que tem consciência, que podem sofrer e ser felizes, ou seja, defende direitos à todos os seres sencientes. O movimento, que luta por justiça social, é uma extensão lógica de visões éticas, de não-violência e anti-opressão.

Também ainda não muito claro na cabeça das pessoas, o outro lado também tem uma ideologia, quem escolhe explorar animais tem um discurso político, haja visto que na prática não é necessário consumir animais para sobrevivermos. A ideologia estabelecida e conceituada como carnismo pela psicóloga Melanie Joy, mas que também é sinônimo anti-veganismo, de antropocentrismo moral e de especismo, é o paradigma moral e ainda está representada em todas as constituições e estabelecida na consciência da maioria das pessoas.

A grande diferença entre ambas correntes de pensamento é que a ideologia vegana é inclusiva, não se limitando apenas aos humanos, expande a concepção de respeito e de direitos à todos os animais. Predominante e conservadora a ideologia carnista (ou anti-vegana) é exclusivista, afirma o valor de excepcionalismo dos humanos e os coloca como seres superiores, assim tudo ao redor pode ser usado para seus fins, o restante da natureza e os animais acabam sendo propriedades que atendem aos interesses de quem tem mais poder.

Ainda que respeite os humanos, para quem está imerso na ideologia conservadora, a comparação com a exploração humana parece absurda, animais são inferiores e direitos não cabem aos seus interesses. Os animais só são relevantes à medida em que nos servem e que nos são íntimos, e esta é claramente uma perspectiva de relativismo moral.

O veganismo claramente se opõe ao relativismo moral vendo o desejo por bem-estar e a individualidade – que sim, os animais detém – como valores que não devem ser violados. Nessa perspectiva devemos deixar de lado nossos hábitos destrutivos e isso independente de cor, raça, sexo, orientação sexual, idade ou espécie. Atribuir relevância moral aos animais sencientes não é anular a excepcionalidade humana, somos mais racionais de fato, já os outros animais são mais aptos e excepcionais em outras características, a excepcionalidade humana nos dá direitos exclusivos como o de dirigir ou de ingressar em universidades, mas não de violar e violentar outros seres por mera conveniência. Podemos estender direitos básicos a medida em que somos semelhantes com outros seres que tem personalidade. Tudo que sofre não merece sofrer, e não há mais justificativa filosófica para aqueles que podem fazer isso numa sociedade globalizada. Não há mesmo, além do mero egoísmo.

Ideologia é um conjunto de ideias e discursos, logicamente válidos ou não, que ajudam a legitimar uma ordem social e política. O veganismo é uma ideologia dominação dos animais não-humanos e anti-crueldade, já o seu oposto – que é culturalmente predominante -, conhecido como carnismo ou anti-veganismo, legitima a exploração e o sofrimento animal em detrimento de privilégios humanos.

As pessoas podem escolher por visões egoístas sempre que podem: as leis não proíbem ninguém de colocar-se em primeiro lugar. Podemos ser arrogantes com pessoas, podemos viver sem ajudar ninguém, podemos enganar os outros, podemos trair outras pessoas, podemos matar animais, podemos não lutar para mudar nada. Fato é que a consciência individual vale mais que as leis no que diz respeito as nossas escolhas. O Estado e suas leis sempre estiveram atrás no que diz respeito ao que é mais justo, ele é reflexo da mentalidade de boa parte das pessoas e até hoje na história ela sempre se mostrou bastante conservadora. Fato é que nós podemos fazer muitas coisas para nós, mas isto não quer dizer que elas sejam melhores escolhas. Melhores escolhas não são sobre o que achamos enquanto indivíduos e sim aquelas que causam menos danos e que menos prejudicam todos os envolvidos. Portanto, sempre que há mais de 2 sujeitos indivíduos envolvidos em uma situação/relação é preciso considerar os dois pontos, e se não há acordo, o de não-violação e que menos prejudica ambos deve ser adotado.

Mesmo que ajude uma pessoa e a faça se sentir bem, maltratar outra pessoa ou enganá-la geralmente causa danos e sofrimento a essa outra pessoa, da mesma forma comer carne ou produtos de origem animal causa danos aos animais. Então é bastante simples o raciocínio: se temos a alternativa de evitar tais práticas então é uma melhor escolha que façamos isto. Podemos negar melhores escolhas, durante a vida acabamos fazendo isso, mas se em algum momento tomamos consciência porque continuamos a viver como se fossemos donos dos outros?

Podemos espernear o quanto quisermos, os valores individuais e moralistas não sobrepõe aos valores coletivos no que diz respeito a ética, daí que considerar os outros pelas semelhanças e não pelas diferenças exclusivas e excepcionais é uma ideia mais coerente e menos arbitrária, que inclusive valora a nós mesmos diante dos desejos destrutivos dos outros. A ética é a visão mais objetiva da moralidade, por isso precisa do princípio da imparcialidade. Consentimento é tudo, certo?

Na teoria vegana, os conceitos de ética, justiça, igualdade e liberdade não se restringem apenas a espécie humana, são uma extensão disso, por isto ela é uma corrente pós-humanista, também chamada de animalista. Estes ideais não são servem apenas para quem detém poder, em decorrência lógica disso os animais não devem ser objetificados e viver num sistema de opressão pelas mãos humanas.

A escolha de usar ou não animais é de cada um de nós, claro, – assim como de maltratar pessoas – mas optar por fazê-los de vítima sem considerar seus interesses não é uma melhor escolha que abrir mão disso, afinal, quando nos tornarmos veganos ninguém sai ferido.


Texto de autoria do ativista e designer Julio Cesar Prava, inédito na vegpedia.

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